Carnaval: pais não devem postar imagens de crianças, diz pesquisador

Por AgĂȘncia Brasil 12/02/2026 Ă s 06:11


Logo AgĂȘncia Brasil

A pureza de crianças brincando livremente o carnaval ilumina os olhares e as lembranças do momento. Por outro lado, as famĂ­lias, a sociedade e o poder pĂșblico devem ficar muito mais atentos com o avanço de violaçÔes contra os pequenos nesse perĂ­odo.Carnaval: pais nĂŁo devem postar imagens de crianças, diz pesquisadorCarnaval: pais nĂŁo devem postar imagens de crianças, diz pesquisador

Pesquisador em polĂ­ticas pĂșblicas para infĂąncia e adolescĂȘncia, o presidente da organização social internacional ChildFund no Brasil, MaurĂ­cio Cunha, alerta que se trata de uma Ă©poca de maior vulnerabilidade dos pequenos.

NotĂ­cias relacionadas:

Essas violaçÔes, segundo explicou em entrevista Ă  AgĂȘncia Brasil, estĂŁo no mundo virtual e tambĂ©m nos cenĂĄrios reais. Cunha recomenda, inclusive, que as famĂ­lias evitem postar imagens de crianças em redes sociais e que a sociedade seja estimulada a denunciar ameaças e violĂȘncias diversas. 

Cunha vai ser uma dos participantes de uma audiĂȘncia pĂșblica nesta quinta-feira (12) na ComissĂŁo de Direitos Humanos do Senado Federal, a partir das 10h. O encontro vai debater os riscos e violaçÔes de direitos enfrentados por crianças e adolescentes no contexto do carnaval, como adultização, erotização, desaparecimento, trabalho infantil e exploração sexual.

O especialista explicou que dados do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, revelam que mais de 26 mil casos suspeitos de crimes contra crianças e adolescentes foram registrados durante o carnaval de 2024.

O pesquisador aponta que o quadro Ă© agravado pelos riscos da internet por haver exposição de imagens de crianças e adolescentes em fĂłruns, grupos fechados e redes sociais, alĂ©m de violĂȘncia sexual na internet, conforme apontou o estudo do ChildFund Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros na Internet, publicado no ano passado 

 A pesquisa com mais de 8 mil adolescentes de 13 a 18 anos de todas as regiĂ”es do paĂ­s mostrou que 54% dos entrevistados jĂĄ sofreram algum tipo de violĂȘncia sexual online.

Confira abaixo trechos da entrevista

AgĂȘncia Brasil – Por que as crianças e adolescentes estĂŁo ainda mais vulnerĂĄveis no carnaval? 

MaurĂ­cio Cunha – Acaba sendo um perĂ­odo em que as crianças e adolescentes estĂŁo mais vulnerĂĄveis a todo tipo de violĂȘncia. Isso pode ser comprovado com evidĂȘncias. A prĂłpria Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, o Disque 100, apontou, por exemplo, o registro, no ano passado,  de 26 mil denĂșncias de violaçÔes ou de crimes contra criança e adolescente nesse perĂ­odo. 

Isso significou um crescimento de 38% em relação ao ano anterior. É um dado alarmante, porque quase 40% de todas as violaçÔes registradas no perĂ­odo se referiam Ă  violĂȘncia contra a criança. 

AgĂȘncia Brasil – Quais sĂŁo as principais preocupaçÔes em relação Ă s violĂȘncias que elas sofrem?

MaurĂ­cio Cunha – As crianças sofrem mais violĂȘncia nesse perĂ­odo por uma sĂ©rie de razĂ”es. Existe uma superexposição, aumento da circulação, disposição de eventos de massa. O debate da sociedade sobre a da adultização, que foi o termo usado, mas seria mesmo a erotização precoce, que Ă© uma violação dos direitos, considerando o prĂłprio Estatuto da Criança e do Adolescente.

>>Saiba mais sobre ECA

A criança precisa ser preservada de situaçÔes e conteĂșdos. EntĂŁo, Ă© um perĂ­odo tambĂ©m de mais desaparecimentos de crianças pelas grandes aglomeraçÔes, alĂ©m de aumento de crianças tambĂ©m em atividades informais e que exploram o trabalho infantil. HĂĄ um aumento tambĂ©m da exploração sexual e precisamos chamar muita atenção dos riscos digitais. 

AgĂȘncia Brasil – Isso ocorre com o aumento da exposição de imagens de crianças?

MaurĂ­cio Cunha – Sim. A gente orienta as famĂ­lias a desligar localização e evitar fotos, vĂ­deos e lives.

O que para as famĂ­lias Ă© um conteĂșdo simples pode gerar exposição dos filhos.  Aquilo pode parar em uma rede em que essa foto pode ser manipulada. 

AgĂȘncia Brasil – Como Ă© possĂ­vel prevenir?

MaurĂ­cio Cunha – NĂłs orientamos Ă s famĂ­lias a utilizar ferramentas de segurança como controles parentais, limitar mensagens desconhecidas para as crianças e revisar a privacidade dos aplicativos.

Temos pesquisas que mostram, por exemplo, que adolescentes no Brasil passam, em mĂ©dia, quatro horas por dia nas redes sociais. É muito  tempo. Ao menos, 30% dos adolescentes passam mais de 6 horas de dia nas redes sociais. 

Quanto mais tempo ali, mais a criança estå exposta também a violaçÔes. Hå riscos no mundo offline e também no online. 

AgĂȘncia Brasil – Em ambos, a famĂ­lia deve estar vigilante, certo?

MaurĂ­cio Cunha – O Estatuto da Criança e do Adolescente é claro ao mostrar que o dever da famĂ­lia, da comunidade, da sociedade e do poder pĂșblico Ă© assegurar os direitos da criança.  A gente fez recentemente uma pesquisa com nove mil adolescentes de todos os estados do Brasil mostrando que apenas cerca de 35% dos adolescentes brasileiros tĂȘm algum tipo de supervisĂŁo parental no que diz respeito ao uso da internet. 

O adolescente quer liberdade, mas a gente percebeu que esse mesmo adolescente se ressente do fato de não ter tanta proteção. 

Essa mesma pesquisa apontou um dado alarmante: 54% desses adolescentes relatam jĂĄ haver sofrido alguma violĂȘncia sexual no ambiente online. É gravĂ­ssimo. Isso Ă© muito grave porque sĂŁo marcas que vĂŁo ficar no desenvolvimento dessa pessoa, e que vĂŁo comprometer o seu desenvolvimento psĂ­quico e emocional. 

AgĂȘncia Brasil – O senhor recomenda que se evite imagens de crianças no carnaval?

MaurĂ­cio Cunha – A imagem dessa criança pode ficar eternamente na internet, e compartilhada em redes de pedofilia. O que funciona Ă© o diĂĄlogo: orientar crianças e adolescentes a nĂŁo interagir com desconhecidos no ambiente digital, nem enviar fotos ou informaçÔes pessoais e ativar ferramentas de segurança. SĂŁo ferramentas que as famĂ­lias desconhecem, mas que estĂŁo acessĂ­veis a toda a população. 

AgĂȘncia Brasil – Nesta semana, soubemos que um piloto de aviĂŁo foi preso acusado de exploração sexual infantil. Uma avĂł de trĂȘs crianças integrava o grupo. É possĂ­vel identificar perfis desses criminosos?

MaurĂ­cio Cunha –  Esse Ă© um bom ponto. A gente precisa quebrar alguns tabus. A violação sexual contra criança nĂŁo se dĂĄ, na absoluta maioria dos casos, por aquela figura do tarado babando na esquina, para usar um portuguĂȘs claro. Mais de 85% das violaçÔes sĂŁo cometidas por alguĂ©m de confiança da famĂ­lia ou da criança. 

São muitos casos de que as próprias famílias vendem imagens. Todas as pesquisas apontam que perto de 90% dos casos ocorrem em ambientes domiciliares, com familiares do convívio desta criança ou desta família. 

AgĂȘncia Brasil – Em relação a isso, que a maior parte dos casos acontece em casa, Ă© um papel difĂ­cil de monitorar, de fiscalizar e de denunciar? Qual Ă© o papel da sociedade e do poder pĂșblico?

MaurĂ­cio Cunha – No que diz respeito Ă  violĂȘncia sexual online, a gente fez um grande avanço, que Ă© o ECA Digital, que jĂĄ foi sancionado e que a partir do mĂȘs que vem, agora em março, vai ser implementado e vai reduzir a violĂȘncia contra a criança certamente. 

>>Saiba mais sobre o ECA digital 

AgĂȘncia Brasil – O Disque 100 Ă© uma importante conquista nesse contexto


MaurĂ­cio Cunha – Sim. Com o Disque 100, Ă© possĂ­vel ligar gratuitamente, 24 horas por dia, sem o ĂŽnus da prova. Isso Ă© algo que a gente precisa dizer para a sociedade. Se hĂĄ uma suspeita de crime contra a criança, ele jĂĄ pode ligar para o Disque 100 e a denĂșncia Ă© encaminhada para o municĂ­pio. 

Na dĂșvida, as pessoas devem fazer a denĂșncia porque aquela criança Ă© hipervulnerĂĄvel. AlguĂ©m vai precisar ver o que estĂĄ acontecendo com ela e denunciar. Isso inibe muito a ação dos criminosos. Eles nĂŁo vĂŁo parar se nĂŁo houver uma reação forte  e vigilante da sociedade. 

AgĂȘncia Brasil – E, na Ă©poca do carnaval, podemos flagrar tambĂ©m crimes como o trabalho infantil


MaurĂ­cio Cunha – A gente precisa ter um olhar vigilante sobre isso. No Brasil, Ă© proibido o trabalho atĂ© os 14 anos. Entre 14 e 16 Ă© permitido uma condição de aprendiz. Criança tem que brincar, estudar e ser protegida. A criança Ă© mais explorada porque Ă© um trabalho mais barato. Isso Ă© intolerĂĄvel.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensĂŁo de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteĂșdo de qualidade gratuitamente.