Existem filmes que falam pouco porque sabem que palavras nem sempre dão conta da dor. Paris, Texas (1984), dirigido por Wim Wenders, permanece atual justamente por entender que o sofrimento humano raramente se organiza em discursos claros. Ele se manifesta em ausências, distâncias e olhares que evitam o confronto direto com o passado.
Paris Texas/ Foto: Reprodução
A história de Travis, um homem que surge no deserto após anos desaparecido, é conduzida com uma delicadeza quase desconcertante. Wenders não tem pressa em explicar quem ele é ou o que aconteceu. O filme confia no tempo, na repetição dos gestos e na convivência silenciosa para reconstruir uma identidade fragmentada. A narrativa se desenvolve como uma travessia emocional, onde cada passo carrega o peso do que não foi dito.
A fotografia de Robby Müller é fundamental para essa experiência. As paisagens abertas do deserto contrastam com os espaços fechados e artificiais das cidades, criando uma metáfora visual para o estado emocional dos personagens. As cores saturadas, os neons e os enquadramentos cuidadosamente compostos não embelezam a dor eles a isolam, destacam e tornam impossível ignorá-la. Em Paris, Texas, o cenário não acompanha a história: ele a traduz.
Paris Texas/ Foto: Reprodução
Harry Dean Stanton entrega uma atuação contida e profundamente humana. Seu Travis é um personagem quebrado, mas nunca caricatural. Stanton constrói essa figura a partir do silêncio, da postura corporal e da dificuldade evidente em se reconectar com o mundo. Cada palavra dita parece custar esforço, como se o passado ainda ocupasse espaço demais dentro dele.
O reencontro com o filho e, mais tarde, com Jane, vivido por Nastassja Kinski, conduz o filme ao seu momento mais devastador. Wenders transforma uma simples conversa em um dos diálogos mais dolorosos da história do cinema, usando enquadramentos que separam fisicamente os personagens para reforçar a impossibilidade de reparação total. Não há catarse fácil, apenas reconhecimento tardio e perda irreversível.
Revisitado hoje, Paris, Texas dialoga com um mundo igualmente marcado por deslocamentos, solidão e dificuldade de comunicação. É um filme sobre homens que não sabem lidar com sentimentos, sobre famílias quebradas e sobre a ilusão de que é possível simplesmente retomar de onde se parou. O passado, aqui, não é algo a ser superado é algo que precisa ser encarado, mesmo que doa.
Paris Texas/ Foto: Reprodução
Mais do que um drama romântico ou um road movie melancólico, Paris, Texas é um estudo sobre identidade e culpa, filmado com sensibilidade rara e respeito absoluto pelo silêncio. Um clássico que não envelhece porque continua entendendo algo essencial: algumas feridas nunca se fecham, mas ainda assim precisam ser nomeadas.
Fhagner Soares — o cinema sob outro olhar.
