Ícone do site ContilNet Notícias

Crônica da morte do “colaborador”: uma reflexão sobre a invisibilidade do sofrimento psíquico do trabalhador

Por Selene Fartolino para o ContilNet

Ele caminha como caminham os homens que cumpriram o seu dever, mas no fundo da alma, apenas anda exausto e desmotivado depois de meio século deixando a cada dia, um dia de vida no seu trabalho.

Todos os dias vai na mesma direção, vestindo a blusa branca e a mesma calça azul e os sapatos já desbotados. A cabeça que anda sempre baixa, segurando o peso da enxaqueca que o acompanha há quase dez anos, levanta apenas para atravessar a rua, logo segue e pensa no amanhã, pois o dia que lhe espera já conhece de cor.

Selene Fartolino, advogada e escritora | Foto: Cedida

Do trabalho diário não espera nada. A modernização do serviço que antes era feito com máquinas de escrever, agora substituídas por computadores, lhe traz em alguns momentos um contato com o mundo exterior apenas através dos jornais virtuais, pois não possui redes sociais.

Esperar que cinquenta anos apertando teclas, dia após dia, lhe traga um sentimento de dever cumprido, é como querer que as placas de sinalização das ruas lancem um sorriso ao fim do dia.

Ao meio-dia almoça na sala de refeição da empresa ao lado de tantos outros trabalhadores, a maioria mais jovens, que aproveitam o momento para mergulhar e trocar de prisão por alguns minutos, nas telas dos celulares, enquanto ele, atento ao arroz com feijão sem mistura, mas com um pouco de farinha da marmita trazida de casa, invisível aos demais, suspira desejando uma refeição completa e a viagem de férias que nunca realizou, pois economizou todos estes anos, na firme esperança de que um dia, depois da sua aposentadoria, o grande dia chegaria, e aproveitaria as economias de toda uma vida, que religiosamente guardou.

Ao fim da tarde, não se despede de ninguém da empresa para evitar o fastio que a sua velha presença causa, e volta para casa pelo mesmo caminho, a mesma rua e travessia, levando consigo de volta o seu corpo, a marmita vazia e a enxaqueca.

De noite esquenta a água e põe o resto de pão da manhã para torrar. Uma xícara de chá de camomila e aroeira acalma a gastrite severa que carrega desde que se entende por gente grande e responsável. Açúcar não consome para economizar, não acredita muito em diabetes, ninguém da sua família morreu desse mal, apenas pensa na economia de um item a menos na sua lista mensal.

Às nove horas prepara a cama e conta de memória o saldo na sua conta e imagina feliz e entusiasta a viagem, a primeira de avião, e única da vida, que fará quando tudo acabar e por fim estará livre da tirania de um emprego que não escolheu, mas que por causa de um apadrinhamento e sem estudos, há cinquenta anos arranjou, quando ainda era jovem, e consumiu mais a sua vida do que a própria vida sem poder dela desfrutar por causa da mixaria que todos chamam de ganha pão.

Às cinco horas e trinta minutos do dia seguinte o despertador toca. Às seis, ele volta a chamar. Às seis e trinta, ele chama de novo com a mesma insistência, mas ele não o faz parar.

A calça azul e a camisa branca, cuidadosamente colocada na cadeira perto da cama, aguardam ao lado dos mesmos sapatos já gastos pelo tempo e pelas caminhadas, o seu dono. O sol aparece na janela do quarto e volta a se pôr ao entardecer.

Ninguém sentiu a falta do “colaborador” no emprego, nem mesmo a vizinhança. Família? Ninguém conhecia, não recebia ninguém em seu cômodo 4×4. No segundo dia, o chefe do RH procura o empregado mais velho do setor para dar a notícia da aposentadoria do mais antigo e exemplar colaborador. Nunca faltou, chegou atrasado ou causou confusão, apesar disso, ninguém sabia quem ele era, qual era o seu nome, se tinha sonhos ou esperança, ou uma viagem marcada, nem mesmo, qual mesa ocupava.

Ao terceiro dia, a mesa vazia é agora ocupada por um novo e entusiasta jovem aprendiz, que na hora marcada volta para casa, assim como todos os outros, em mais um dia de jornada cumprida.

O texto acima representa os milhares de “colaboradores” espalhados pelo Brasil, que adoecem mentalmente em razão do trabalho e da falta de programas de identificação de riscos psicossociais, e de líderes capacitados para identificar estas situações. O Brasil vive uma situação de epidemia na saúde mental dos trabalhadores, o que nos leva necessariamente a pensar no tipo de relacionamento que as empresas mantêm com os seus empregados e o impacto da não valorização e investimento em ambientes saudáveis, inclusive com a contratação de psicólogos que possam fazer avaliações periódicas e palestras educativas sobre os cuidados, não apenas com a segurança no trabalho, mas principalmente com a saúde mental.

Sair da versão mobile