Ícone do site ContilNet Notícias

Curta exibido no Acre debate apagamento da população negra na Amazônia

Por Redação ContilNet

Foto: Reprodução

A ideia de que a Amazônia é um território marcado quase exclusivamente pela presença indígena e por populações tradicionais da floresta é uma narrativa consolidada no imaginário nacional. Para o cineasta acreano Teddy Falcão, no entanto, essa construção simbólica contribuiu para apagar – de forma sistemática – a história e a presença da população negra na região.

Essa é a reflexão central do curta-metragem “Minha Pele Preta em Terra Verde”, que será exibido neste sábado (28), às 17h, na Filmoteca Acreana, em sessão gratuita e seguida de bate-papo com o diretor. Com 23 minutos de duração, o filme propõe uma revisão crítica da formação social amazônica a partir de experiências negras frequentemente silenciadas.

LEIA TAMBÉM: Filme acreano é selecionado em edital nacional de cinema do BNDES; veja detalhes

“O apagamento da história negra na Amazônia é ainda mais violento porque ele se naturalizou”, afirma Falcão. “Há uma dificuldade histórica de reconhecer que somos maioria em muitos contextos e, ainda assim, nossas narrativas não aparecem”.

A discussão dialoga com pesquisas recentes que apontam a diversidade étnico-racial da região Norte, muitas vezes reduzida, no debate público, a uma representação homogênea. Para o diretor, a invisibilidade não é apenas estatística, mas simbólica. “Quando não se reconhece a presença negra, não se reconhece também a contribuição cultural, política e social dessa população.”

Amazônia além do cenário

No curta, a Amazônia deixa de ser apenas pano de fundo exótico ou paisagem e passa a ocupar o lugar de território vivido e disputado. O filme desloca a região da condição de cenário para espaço de produção de identidade e pertencimento.

Em um mercado audiovisual historicamente concentrado no eixo Rio–São Paulo, produções independentes do Norte enfrentam desafios estruturais de financiamento, circulação e visibilidade. Ao apostar em uma narrativa centrada na experiência negra amazônica, Falcão se insere em um movimento mais amplo de descentralização das histórias contadas no cinema brasileiro.

Defensor do cinema negro, o diretor afirma que a produção local é também um gesto político. “Contar nossas próprias histórias é uma forma de resistência. É afirmar que existimos e que nossa memória importa.”

Espaço público e formação crítica

A escolha da Filmoteca Acreana como palco da exibição reforça o papel de equipamentos culturais públicos na promoção de debates identitários. Além da sessão, o encontro com o público deve abordar os desafios da produção audiovisual na região e a importância de ampliar o acesso a narrativas diversas.

Para Falcão, o impacto esperado vai além da recepção do filme. “É uma proposta de diálogo sobre quem somos, de onde viemos e como se estabeleceu uma população negra em uma região que costuma ser reconhecida apenas por outros marcadores”.

Sair da versão mobile