“Eu começo firme, restrinjo bastante, até emagreço… mas depois perco o controle e engordo tudo de novo.”
Esse relato é extremamente comum no consultório e revela um padrão conhecido na nutrição clínica: o ciclo restrição → compulsão → rebote.
Longe de ser falta de disciplina, esse comportamento é uma resposta fisiológica e psicológica do corpo à escassez. Entender esse processo é o primeiro passo para sair dele.

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O que acontece no corpo quando a dieta é muito restrita
Dietas muito restritivas, especialmente aquelas com poucas calorias, carboidratos ou grupos alimentares inteiros excluídos, ativam mecanismos de sobrevivência.
O corpo entende a restrição como ameaça e responde com:
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redução do metabolismo
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aumento da grelina (hormônio da fome)
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redução da leptina (saciedade)
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elevação do cortisol (estresse)
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maior foco mental em comida
Ou seja, o organismo passa a lutar contra a dieta.
Por que a compulsão aparece após a restrição
A compulsão não surge do nada. Ela é consequência direta de:
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fome fisiológica acumulada
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desequilíbrio hormonal
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privação psicológica
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cansaço mental
Quanto maior e mais prolongada a restrição, maior a chance de episódios de perda de controle, geralmente com alimentos antes “proibidos”.
Não é fraqueza. É fisiologia.
O efeito rebote explicado
Após a compulsão, muitas pessoas entram em culpa e tentam compensar com nova restrição.
Esse vai-e-vem gera o chamado efeito rebote, caracterizado por:
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recuperação rápida do peso perdido
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aumento da gordura corporal
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piora da relação com a comida
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medo constante de “sair da dieta”
Com o tempo, o corpo se torna cada vez mais resistente a novas tentativas extremas.
Por que dietas restritivas falham no médio prazo

Entenda por que dietas restritivas não funcionam e podem trazer riscos a saúde — Foto: Unsplash
Mesmo quando há perda de peso inicial, dietas restritivas falham porque:
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não são sustentáveis
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ignoram o comportamento alimentar
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desorganizam sinais de fome e saciedade
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aumentam ansiedade e obsessão por comida
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não respeitam a rotina real
Emagrecer exige estratégia, não punição.
O que funciona melhor para romper esse ciclo
Romper o ciclo restrição–compulsão–rebote exige:
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déficit calórico moderado
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proteína suficiente para preservar massa muscular
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carboidratos de qualidade na quantidade adequada
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fibras para saciedade e intestino
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regularidade alimentar (evitar longos jejuns)
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flexibilidade e prazer alimentar
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trabalho comportamental
O corpo precisa confiar que não está em escassez para responder.
O papel do acompanhamento nutricional
Sem orientação, muitas pessoas repetem o mesmo padrão achando que “agora vai”.
O acompanhamento com um nutricionista é essencial para:
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ajustar quantidades sem exageros
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prevenir compulsões
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organizar a rotina alimentar
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melhorar a relação com a comida
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alcançar resultados sustentáveis
Restrição extrema não gera controle.
Gera descontrole.
A compulsão não é o problema, ela é o sintoma.
O verdadeiro problema está na estratégia adotada antes dela.
Emagrecer com saúde é sair do ciclo de punição e entrar em um processo de constância, consciência e equilíbrio.
Referências
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Luana Diniz
Foto: Clara Lis
*COLUNA NUTRIÇÃO EM PAUTA / LUANA DINIZ NUTRICIONISTA – CRN7 16302
Nutricionista e atleta, formada pela Universidade Federal do Acre, pós-graduada em nutrição clínica esportiva. Trabalha com atendimento clínico nutricional em parceria com a loja de suplementos Be Strong Fitness e é colunista do ContilNet em assuntos sobre alimentação e sua correlação com saúde e bem-estar.
