“Existe um pequeno grupo (…) em que estas pessoas não tiveram opção de escolhas porque haviam sido sistematicamente violentadas”. Foi com estas palavras que o professor doutor Mauro Rocha, da Universidade Federal do Acre (Ufac) emitiu uma nota pública, destinada principalmente aos veículos de comunicação, ainda nesta sexta-feira (27). No texto, o docente fala que é acusado injustamente de homofobia e sustenta que apenas citou “dados científicos” durante aulas ministradas na instituição.
Mauro já havia sido denunciado por homofobia, em 2017, voltou a ser detido nesta segunda-feira (23). Segundo informações extraoficiais, o docente já foi solto após audiência de custódia. De acordo com informações obtidas pela reportagem, o caso teria ocorrido durante uma assembléia, realizada pelo Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), para discutir justamente a conduta do professor, que estaria sendo acusado de ofensas proferidas a outros docentes; na conversa realizada nesta segunda-feira (23), os ânimos teriam se exaltado e todos foram à Delegaca de Flagrantes (Defla) para que fosse formalizado um boletim de ocorrência e, lá, o suspeito já teria sido preso em flagrante.
No texto, ele relata que, em situações de sala de aula, ao discutir “formas de sexualidade contemporâneas”, mencionou que haveria, dentro desse contexto, “um pequeno grupo” de pessoas que “não tiveram opção de escolhas porque haviam sido sistematicamente violentadas”. Segundo ele, a fala teria sido baseada em referências acadêmicas sobre abuso sexual infantil.
Ao se defender, o professor afirma: “Não estava me referindo a nenhuma pessoa em específica, estava me referindo aos dados bibliográficos de pesquisas.” Ele acrescenta que houve “negação da ciência” por parte de colegas que contestaram suas colocações em sala.
Em outro trecho, ao relembrar episódio ocorrido em 2017, o docente escreveu que “a homossexualidade (…) apresentava uma ligação muito forte, uma associação das formas de homossexualidade com a AIDS”, argumentando que se referia ao contexto histórico da identificação inicial da epidemia nos Estados Unidos na década de 1980.
Ainda na nota, o professor afirma que houve uma reação “com gritos” por parte de docentes que negaram a existência dos dados mencionados e classifica a situação como “fragrante com relação ao campo científico”. Ele sustenta que, dentro da universidade, estaria ocorrendo “negação da ciência” e critica a Associação dos Docentes da Universidade Federal do Acre (ADUfac), afirmando ser “simplesmente inaceitável” que a entidade tenha se posicionado sobre o caso.
LEIA A NOTA NA ÍNTEGRA:
NOTA PÚBLICA
Nota pública de esclarecimento contra as interpretações pseudocientíficas de um grupo de professores que me acusaram de homofobia quando estava falando de dados sobre pedofilia e da prática de violência sistemática contra crianças e adolescentes e que também negam a ciência.
Prezados leitores e leitoras dos jornais impressos, telespectadores dos noticiários jornalísticos e dos meios de comunicação em geral da cidade de Rio Branco – AC,
Nas minhas situações de classe — na verdade, em duas situações de classe na Universidade Federal do Acre (Ufac), onde trabalho como servidor público federal há mais de 22 anos —, em uma situação em 2023, numa disciplina de Métodos e Técnicas de Pesquisa em Ciências Sociais, durante uma discussão, o assunto sobre as formas de sexualidade contemporâneas apareceu.
Como nesta disciplina específica de iniciação aos procedimentos de investigação científica costumo realizar exemplos metodológicos para estimular a cognição, o juízo, o diagnóstico, a avaliação, a análise e a síntese, mencionei, como informação baseada em referências científicas de trabalhos publicados, que, no escopo amplo das formas de sexualidade contemporâneas — em que as pessoas, nas suas mais variadas maneiras de expressar sua liberdade de gênero, escolhem livremente suas práticas de sexualidade — existe um pequeno grupo, em situação muito específica, em que estas pessoas não tiveram opção de escolha porque haviam sido sistematicamente violentadas.
Não estava me referindo a nenhuma pessoa em específica, mas aos dados bibliográficos de pesquisas que demonstraram haver essa situação dentro deste contexto. Eu estava me referindo aos dados dos autores das pesquisas.
Esses dados foram negados de forma pública dentro de uma Instituição de Nível Superior. Abertamente, professores professaram a negação dessa situação (os nomes aparecem em matéria do Jornal A Gazeta), afirmando que tais dados não existem.
Referências mencionadas:
FUCK, L. B. Abuso Sexual, Homossexualismo, HIV e Suicídio. Congresso de Psicologia, Ciência e Profissão. São Paulo: 5-9 set. 2006.
GUIMARÃES, T. Abuso sexual de crianças e adolescentes: suas consequências psicológicas e tratamento. Curso de Psicologia. Faculdade de Ciências da Saúde da UNICEUB. Monografia. Brasília: 2007.
FLORENTINO, B. R. B. As possíveis consequências do abuso sexual praticado contra crianças e adolescentes. Fractal Revista de Psicologia, v. 27, n. 2, p. 139-144. Universidade Federal de São João Del Rei, 2015.
Nesta ocasião, estavam sendo mencionados estes dados. Não estava falando de nenhuma pessoa específica, mas de informações de natureza pública e acadêmico-científica.
A controvérsia que buscaram associar a essa situação remete também a um episódio ocorrido em 2017 no Curso de Jornalismo. Sou sociólogo de formação e pós-doutor em Sociologia Política pela Universidade de Havana (Cuba), título concluído em 2015.
Na ocasião, surgiu o assunto das formas de sexualidade contemporâneas. Embora não seja especialista no tema, mencionei, com base em dados bibliográficos, que a homossexualidade apresentava uma ligação histórica forte com a AIDS no momento inicial da identificação da síndrome nos Estados Unidos, a partir de 1980.
Os primeiros trabalhos que identificaram a síndrome indicavam que havia sido registrada em pessoas jovens que tinham práticas de sexualidade com o mesmo sexo — especialmente entre homens, naquele momento histórico.
Eu estava me referindo ao fenômeno histórico, ao acontecimento e à forma como ele se manifestou, com base em dados de artigos como os que seguem:
Referências históricas citadas
NASCIMENTO, D. R. A AIDS no Final do Século XX. In: As Pestes do século XX: tuberculose e AIDS no Brasil, uma história comparada. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2005, pp. 81-112.
NAVARRO, Raquel Maria; SALIMO, Zeca Manuel. Contextualização da origem e expansão do HIV-AIDS. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciência e Educação – REASE. São Paulo, 2024. v. 10, n. 08.
Existe, portanto, uma situação flagrante no campo científico: dentro da Universidade Federal do Acre, instituição orientada pelo Código de Ética dos Servidores Públicos Federais (Decreto nº 1.171, de 22 de junho de 1994), cuja função principal é a ciência, a razão e o conhecimento, ocorre a negação da ciência.
Além disso, utilizam-se argumentos sofísticos para alardear uma impostura política na esfera pública, apelando para acusações de preconceito.
Se houve alguma intencionalidade nas informações que apresentei, foi a defesa contra práticas de violência na infância e contra a pedofilia. Foi também a defesa para que crianças que sofreram violência tenham liberdade de escolha de suas formas de sexualidade e relações de gênero, assim como as formas de sexualidade LGBTQI+ tiveram.
É simplesmente inaceitável que a ADUfac assuma essa posição sem conhecimento de causa e, apoiando-se em um pequeno grupo de professores que negam a ciência, sugira argumentos falsos na esfera pública.
Rio Branco – AC, 26 de fevereiro de 2026.
Mauro Rocha
Pós-Doutor em Sociologia Política
Grupo de Pesquisa Cosmologia Humana
Tel.: (68) 99212-2032
