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Lançamento: Morra, Amor transforma desejo e obsessão em colapso emocional em thriller psicológico

Por Fhagner Soares, ContilNet

Lynne Ramsay nunca foi uma cineasta interessada em oferecer conforto ao espectador. Em Morra, Amor, thriller psicológico de 2025, ela aprofunda essa postura ao transformar o espaço íntimo de um relacionamento em território de tensão constante, onde desejo, frustração e obsessão se misturam até o limite do insuportável.

Morra, Amor/ Foto: Reprodução

Adaptando o romance de Ariana Harwicz, o filme acompanha uma mulher vivendo um relacionamento marcado por impulsos extremos e instabilidade emocional. Ramsay abandona qualquer estrutura clássica de thriller: não há mistério a ser resolvido, nem reviravoltas pensadas para aliviar o peso da narrativa. O interesse está no processo de deterioração psicológica, não em sua explicação.

A fotografia é essencial para essa construção. A câmera se mantém quase sempre próxima demais dos personagens, comprimindo corpos e emoções dentro de enquadramentos fechados. A luz natural rarefeita, os tons opacos e a ausência de composições esteticamente “bonitas” criam um ambiente visual sufocante, onde o espaço doméstico deixa de ser abrigo e se torna extensão do conflito interno. Ramsay filma o cotidiano como ameaça silenciosa.

A fotografia é essencial para essa construção/ Foto: Reprodução

É nesse cenário que Jennifer Lawrence entrega uma das atuações mais radicais de sua carreira. Sua personagem é construída pelo corpo antes da palavra: gestos inquietos, explosões repentinas, olhares que oscilam entre desejo e repulsa. Lawrence recusa qualquer tentativa de tornar a personagem palatável. O colapso emocional não surge como clímax, mas como estado permanente, sustentado com intensidade física e emocional raramente vistas em thrillers contemporâneos.

Robert Pattinson atua como contraponto direto a esse excesso. Seu personagem é marcado pela contenção, pela dificuldade de comunicação e por uma rigidez emocional que só amplia o abismo entre o casal. Pattinson aposta na economia de gestos e na frieza aparente, criando uma presença que não equilibra o caos apenas o empurra para dentro da relação. A dinâmica entre os dois nunca sugere harmonia: desejo e ressentimento coexistem de forma agressiva, sem qualquer promessa de conciliação.

É nesse cenário que Jennifer Lawrence entrega uma das atuações mais radicais de sua carreira/ Foto: Reprodução

O som e o silêncio reforçam essa sensação de instabilidade. Ruídos cotidianos ganham peso dramático, enquanto pausas prolongadas deixam o espectador em estado de alerta constante. Quando a violência surge, ela não funciona como espetáculo, mas como consequência inevitável de um acúmulo emocional ignorado por tempo demais.

Morra, Amor também se destaca por sua recusa em romantizar o sofrimento. Ramsay desmonta a ideia de que amar intensamente justifica a autodestruição, expondo como certas narrativas afetivas transformam dor em virtude. Aqui, o amor não redime desgasta, corrói e, em última instância, aprisiona.

Robert Pattinson  e  Jennifer Lawrence/ Foto: Reprodução

Não é um filme fácil, tampouco acolhedor. Exige envolvimento, paciência e disposição para lidar com o desconforto. Em troca, oferece uma experiência sensorial poderosa, ancorada em imagem, atuação e atmosfera. Um lançamento que reafirma Lynne Ramsay como uma das diretoras mais coerentes e implacáveis do cinema contemporâneo, interessada menos em respostas e mais em expor feridas abertas.

Fhagner Soares — o cinema sob outro olhar.

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