Liderança denuncia armadilha com arma de fogo após indígena ficar ferido em comunidade no Acre

episódio foi denunciado por uma liderança do povo Nuke Koí, que alerta para o risco à segurança das comunidades indígenas da região

Por Redação ContilNet 10/02/2026 Atualizado: hå 2 meses

Uma ocorrĂȘncia grave dentro da Terra IndĂ­gena Campinas-Katukina, em Cruzeiro do Sul, quase terminou em tragĂ©dia no Ășltimo domingo. O episĂłdio foi denunciado por uma liderança do povo Nuke KoĂ­, que alerta para o risco Ă  segurança das comunidades indĂ­genas da regiĂŁo. As informaçÔes foram divulgadas pelo site JuruĂĄ 24horas nesta terça-feira (10).

De acordo com PuĂĄ Nuke KoĂ­, liderança geral do povo, o caso aconteceu por volta das 11 horas da manhĂŁ, na aldeia Katukina. A vĂ­tima foi JoĂŁo Carlos Catoquina, seu tio, que havia entrado na mata para buscar ervas medicinais destinadas ao tratamento de um problema de saĂșde do neto, jĂĄ que os remĂ©dios convencionais nĂŁo estavam apresentando resultados.

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Durante o trajeto pela floresta, JoĂŁo Carlos acabou acionando uma armadilha improvisada com arma de fogo. O disparo atingiu sua perna, na altura da panturrilha. Apesar da gravidade da situação, o projĂ©til nĂŁo alcançou o osso, o que evitou consequĂȘncias ainda mais sĂ©rias.

Liderança denuncia armadilha com arma de fogo após indígena ficar ferido em comunidade no Acre

DenĂșncia foi revelada ao site JuruĂĄ 14 horas/Foto: Reprodução

“Ele caiu sobre a armadilha e acabou sendo baleado na perna. Por sorte, o osso não foi atingido, mas foi algo extremamente perigoso”, relatou Puá.

ApĂłs o acidente, o indĂ­gena recebeu os primeiros atendimentos de uma equipe de saĂșde indĂ­gena e, posteriormente, foi socorrido pelo Serviço de Atendimento MĂłvel de UrgĂȘncia (Samu). Em seguida, foi encaminhado para atendimento mĂ©dico em Cruzeiro do Sul.

A liderança também informou que, no mesmo dia e na mesma årea, outro disparo de arma de fogo foi registrado. Desta vez, ninguém ficou ferido, mas o tiro matou o cachorro de um parente indígena e quase atingiu a esposa do cacique, passando de raspão por sua perna.

Puå Nuke Koí enfatizou que o uso de armadilhas com armas de fogo não faz parte da cultura do povo Nuke Koí, nem mesmo para atividades de caça. Segundo ele, esse tipo de pråtica é completamente alheio aos costumes da comunidade.

“Nunca foi da nossa cultura colocar armadilhas, seja em varadouro, barreiro ou qualquer outro lugar. Isso nĂŁo foi feito por indĂ­genas. Essa armadilha foi colocada por alguĂ©m de fora, do entorno da terra indĂ­gena”, afirmou.

Diante da gravidade dos fatos, PuĂĄ esteve em Cruzeiro do Sul para registrar oficialmente a denĂșncia e cobrar providĂȘncias das autoridades. Ele informou que busca apoio de ĂłrgĂŁos como a Fundação Nacional dos Povos IndĂ­genas (Funai), a PolĂ­cia Federal e outras instituiçÔes responsĂĄveis.

“Viemos às autoridades para que esse caso seja devidamente investigado. O que aconteceu foi dentro do nosso território e representa um risco real à vida do nosso povo”, concluiu.

Com informaçÔes do Juruå 24horas

Os Noke Koi

Para contextualizar a importùncia da Terra Indígena Campinas/Katukina, é fundamental compreender quem é o povo que habita esse território e a relação histórica que mantém com a região.

O povo Noke Ko’í, tambĂ©m conhecido como Katukina, pertence ao tronco linguĂ­stico Pano e soma atualmente cerca de 895 pessoas, segundo dados da ComissĂŁo PrĂł-IndĂ­genas do Acre (CPI-Acre) e da Fundação Nacional dos Povos IndĂ­genas (Funai). As comunidades vivem em duas terras indĂ­genas: a TI Campinas/Katukina, com aproximadamente 32.633 hectares, e a TI Rio GregĂłrio, que se estende por cerca de 187.400 hectares. Esses territĂłrios estĂŁo localizados nos municĂ­pios de TarauacĂĄ e Cruzeiro do Sul, no Acre.

A histĂłria do povo Noke Ko’í Ă© profundamente ligada aos rios e Ă  floresta. De acordo com sua tradição oral, a origem do povo remonta a um mito ancestral que narra o surgimento dos primeiros Noke Ko’í a partir de uma oca situada Ă  beira do mar, semelhante a uma teia de aranha. Sem conseguir sair, eles clamaram por ajuda atĂ© que Deus os ouviu, abriu uma porta e permitiu que seguissem seu caminho. Na travessia de um grande rio, um jacarĂ© teria servido de ponte. Embora o mito mencione o mar, os prĂłprios Noke Ko’í afirmam que sua origem estĂĄ ligada Ă  regiĂŁo do rio JuruĂĄ, onde vivem atĂ© hoje, especialmente Ă s margens do rio Campinas.

O primeiro contato intenso com a população nĂŁo indĂ­gena ocorreu durante o ciclo da borracha. Os Katukina passaram a trabalhar nos seringais para garantir a prĂłpria sobrevivĂȘncia, cortando seringa em troca de alimentos e outros itens bĂĄsicos. AlĂ©m disso, realizavam trabalhos braçais, como o preparo e o cultivo de roças. Naquele perĂ­odo, tanto indĂ­genas quanto nĂŁo indĂ­genas viviam sem posse formal da terra, deslocando-se conforme a oferta de trabalho, a presença de peixes nos rios e a abundĂąncia de caça na mata.

Ao longo desse processo, os Noke Ko’í viveram em diferentes seringais da região, como o Seringal Rio Branco, no rio Tauarí, o Seringal Sete Estrelas, no rio Gregório, e, por fim, o Seringal Campina, área que deu origem à atual Terra Indígena Campinas/Katukina.

A luta pela garantia territorial ganhou força a partir da atuação do sertanista AntÎnio Macedo e do antropólogo Terri Valle de Aquino, que, à época, integravam a Comissão Pró-Indígenas do Acre. O trabalho resultou na demarcação da Terra Indígena em 1984, com homologação oficial em 1993. As principais lideranças envolvidas nesse processo histórico foram Francisco de Assis da Cruz e André Rodrigues de Souza.

Hoje, a Terra IndĂ­gena Campinas/Katukina representa nĂŁo apenas um espaço fĂ­sico, mas um territĂłrio de memĂłria, identidade cultural e sobrevivĂȘncia para o povo Noke Ko’í, cuja relação com a floresta e os rios permanece central para seu modo de vida.

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