Uma ocorrĂȘncia grave dentro da Terra IndĂgena Campinas-Katukina, em Cruzeiro do Sul, quase terminou em tragĂ©dia no Ășltimo domingo. O episĂłdio foi denunciado por uma liderança do povo Nuke KoĂ, que alerta para o risco Ă segurança das comunidades indĂgenas da regiĂŁo. As informaçÔes foram divulgadas pelo site JuruĂĄ 24horas nesta terça-feira (10).
De acordo com PuĂĄ Nuke KoĂ, liderança geral do povo, o caso aconteceu por volta das 11 horas da manhĂŁ, na aldeia Katukina. A vĂtima foi JoĂŁo Carlos Catoquina, seu tio, que havia entrado na mata para buscar ervas medicinais destinadas ao tratamento de um problema de saĂșde do neto, jĂĄ que os remĂ©dios convencionais nĂŁo estavam apresentando resultados.
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Durante o trajeto pela floresta, JoĂŁo Carlos acabou acionando uma armadilha improvisada com arma de fogo. O disparo atingiu sua perna, na altura da panturrilha. Apesar da gravidade da situação, o projĂ©til nĂŁo alcançou o osso, o que evitou consequĂȘncias ainda mais sĂ©rias.
âEle caiu sobre a armadilha e acabou sendo baleado na perna. Por sorte, o osso nĂŁo foi atingido, mas foi algo extremamente perigosoâ, relatou PuĂĄ.
ApĂłs o acidente, o indĂgena recebeu os primeiros atendimentos de uma equipe de saĂșde indĂgena e, posteriormente, foi socorrido pelo Serviço de Atendimento MĂłvel de UrgĂȘncia (Samu). Em seguida, foi encaminhado para atendimento mĂ©dico em Cruzeiro do Sul.
A liderança tambĂ©m informou que, no mesmo dia e na mesma ĂĄrea, outro disparo de arma de fogo foi registrado. Desta vez, ninguĂ©m ficou ferido, mas o tiro matou o cachorro de um parente indĂgena e quase atingiu a esposa do cacique, passando de raspĂŁo por sua perna.
PuĂĄ Nuke KoĂ enfatizou que o uso de armadilhas com armas de fogo nĂŁo faz parte da cultura do povo Nuke KoĂ, nem mesmo para atividades de caça. Segundo ele, esse tipo de prĂĄtica Ă© completamente alheio aos costumes da comunidade.
âNunca foi da nossa cultura colocar armadilhas, seja em varadouro, barreiro ou qualquer outro lugar. Isso nĂŁo foi feito por indĂgenas. Essa armadilha foi colocada por alguĂ©m de fora, do entorno da terra indĂgenaâ, afirmou.
Diante da gravidade dos fatos, PuĂĄ esteve em Cruzeiro do Sul para registrar oficialmente a denĂșncia e cobrar providĂȘncias das autoridades. Ele informou que busca apoio de ĂłrgĂŁos como a Fundação Nacional dos Povos IndĂgenas (Funai), a PolĂcia Federal e outras instituiçÔes responsĂĄveis.
âViemos Ă s autoridades para que esse caso seja devidamente investigado. O que aconteceu foi dentro do nosso territĂłrio e representa um risco real Ă vida do nosso povoâ, concluiu.
Com informaçÔes do Juruå 24horas
Os Noke Koi
Para contextualizar a importĂąncia da Terra IndĂgena Campinas/Katukina, Ă© fundamental compreender quem Ă© o povo que habita esse territĂłrio e a relação histĂłrica que mantĂ©m com a regiĂŁo.
O povo Noke KoâĂ, tambĂ©m conhecido como Katukina, pertence ao tronco linguĂstico Pano e soma atualmente cerca de 895 pessoas, segundo dados da ComissĂŁo PrĂł-IndĂgenas do Acre (CPI-Acre) e da Fundação Nacional dos Povos IndĂgenas (Funai). As comunidades vivem em duas terras indĂgenas: a TI Campinas/Katukina, com aproximadamente 32.633 hectares, e a TI Rio GregĂłrio, que se estende por cerca de 187.400 hectares. Esses territĂłrios estĂŁo localizados nos municĂpios de TarauacĂĄ e Cruzeiro do Sul, no Acre.
A histĂłria do povo Noke KoâĂ Ă© profundamente ligada aos rios e Ă floresta. De acordo com sua tradição oral, a origem do povo remonta a um mito ancestral que narra o surgimento dos primeiros Noke KoâĂ a partir de uma oca situada Ă beira do mar, semelhante a uma teia de aranha. Sem conseguir sair, eles clamaram por ajuda atĂ© que Deus os ouviu, abriu uma porta e permitiu que seguissem seu caminho. Na travessia de um grande rio, um jacarĂ© teria servido de ponte. Embora o mito mencione o mar, os prĂłprios Noke KoâĂ afirmam que sua origem estĂĄ ligada Ă regiĂŁo do rio JuruĂĄ, onde vivem atĂ© hoje, especialmente Ă s margens do rio Campinas.
O primeiro contato intenso com a população nĂŁo indĂgena ocorreu durante o ciclo da borracha. Os Katukina passaram a trabalhar nos seringais para garantir a prĂłpria sobrevivĂȘncia, cortando seringa em troca de alimentos e outros itens bĂĄsicos. AlĂ©m disso, realizavam trabalhos braçais, como o preparo e o cultivo de roças. Naquele perĂodo, tanto indĂgenas quanto nĂŁo indĂgenas viviam sem posse formal da terra, deslocando-se conforme a oferta de trabalho, a presença de peixes nos rios e a abundĂąncia de caça na mata.
Ao longo desse processo, os Noke KoâĂ viveram em diferentes seringais da regiĂŁo, como o Seringal Rio Branco, no rio TauarĂ, o Seringal Sete Estrelas, no rio GregĂłrio, e, por fim, o Seringal Campina, ĂĄrea que deu origem Ă atual Terra IndĂgena Campinas/Katukina.
A luta pela garantia territorial ganhou força a partir da atuação do sertanista AntĂŽnio Macedo e do antropĂłlogo Terri Valle de Aquino, que, Ă Ă©poca, integravam a ComissĂŁo PrĂł-IndĂgenas do Acre. O trabalho resultou na demarcação da Terra IndĂgena em 1984, com homologação oficial em 1993. As principais lideranças envolvidas nesse processo histĂłrico foram Francisco de Assis da Cruz e AndrĂ© Rodrigues de Souza.
Hoje, a Terra IndĂgena Campinas/Katukina representa nĂŁo apenas um espaço fĂsico, mas um territĂłrio de memĂłria, identidade cultural e sobrevivĂȘncia para o povo Noke KoâĂ, cuja relação com a floresta e os rios permanece central para seu modo de vida.


