Em pleno sábado à tarde, enquanto rolava a timeline, me peguei diante de mais um artigo proclamando “5 sinais de que você não se encaixa socialmente”, “Como sentir-se confortável em qualquer grupo”, “Pare de pensar demais e comece a viver”. Cada texto, uma promessa de encaixe imediato nesse grande molde social que todos fingimos perseguir.
Foi então que a lembrança de Maya surgiu com força. Não aquela personagem mística, nem alguém saindo de um filme indie mas uma mulher real, que anda entre nós, abana seus pensamentos como se fossem bandeiras ao vento e encara cada ambiente social com uma honestidade que muitos chamariam de… esquisita.
Ela pensa diferente e isso incomoda
Maya sempre se sentiu deslocada. Não porque não saiba conversar, rir ou ser gentil, mas porque pensa fora das bordas invisíveis que a sociedade tenta desenhar ao redor de todos nós. Enquanto a maioria se preocupa em dizer “o que é socialmente aceitável”, ela questiona o motivo pelo qual aquilo deveria ser aceitável.
Ela olha ao redor e percebe nuances que a maioria ignora:
a insegurança por trás de sorrisos forçados, a competição disfarçada de gentileza, o medo de silêncio em meio à conversa.
E por isso é vista como esquisita.
Intuição ou “Problema Social”?
Maya tem uma intuição afiada, aquele tipo de percepção que não se aprende em manual, nem se compra em workshop de fim de semana. Ela sente quando alguém está desconfortável antes de perceberem por si mesmos. Ela nota contradições entre palavras e olhares. Ela escuta o silêncio como quem lê um livro.
Em nossa cultura de conselhos rápidos e soluções prontas, isso é rotulado como “excesso de sensibilidade” ou “não se encaixa”. Mas eu pergunto: será que o estranho aqui realmente é ela ou somos nós, que fugimos da profundidade para nos esconder na superfície?
O espelho que incomoda: Enquanto os artigos nas redes sociais proliferam fórmulas
“Como se adaptar a qualquer grupo em 7 passos”,
“Pare de pensar demais em 3 dias”,
“Seja mais extrovertido com este truque simples” vemos uma mesma tendência: reduzir a singularidade humana a fichas prontas de comportamento.
Eles prometem pertencimento sem esforço, conformidade sem análise, socialização sem autenticidade. Mas Maya nos lembra de algo essencial:
pertencer não é se moldar é ser visto pelo que se é, inclusive com as perguntas que ninguém quer responder.
No final, o esquisito sempre são os outros
Porque, convenhamos:
O “normal” que todos perseguem nas redes é uma convenção, um tapete estendido sobre inseguranças não resolvidas. Maya não nega suas inquietações, ela conversa com elas. Enquanto muitos fazem posts polidos e frases feitas buscando aprovação social, ela oferece sinceridade e isso, em tempos de filtros e selfies ensaiadas, é revolucionário.
O que os textos virais esquecem de dizer é que não há brilho no encaixe perfeito, há liberdade na autenticidade desajeitada.
Talvez você, leitor entre 30 e 50 anos, tenha passado metade da vida tentando encaixar-se em moldes que nunca foram feitos sob medida para você. Talvez tenha lido dezenas de “guia de comportamentos sociais”, e ainda se veja inquieto, desconfortável, diferente.
Maya não é esquisita.
Ela é um espelho.
E talvez o que parece esquisito nos outros seja apenas aquilo que ainda não tivemos coragem de admitir sobre nós mesmos.
Não esqueça.
Não há brilho no encaixe perfeito, há liberdade na autenticidade desajeitada.
Maya e os “Esquisitos”: quando o diferente vira reflexo de nós mesmos
