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Mulheres nos espaços de poder: da invisibilidade histórica à transformação necessária, do mundo ao Acre

Por Redação ContilNet

Francinete Barros

Francinete Barros/Foto: Cedida

A história das mulheres nos espaços de poder é marcada por silenciamentos, resistências e conquistas tardias. Ao longo dos séculos, estruturas políticas, econômicas e científicas foram organizadas para privilegiar vozes masculinas, relegando mulheres à margem das decisões estratégicas. No entanto, mesmo diante de discriminações, violências e apagamentos, mulheres insistiram em ocupar, transformar e reinventar esses espaços. A trajetória de Hedy Lamarr, no cenário internacional, e o percurso das mulheres no Acre desde sua emancipação política ilustram como talento, inteligência e liderança feminina foram sistematicamente subestimados, mas jamais anulados.

Hedy Lamarr: genialidade silenciada

Na célebre formulação de Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher, torna-se”, a exclusão feminina dos espaços de poder não é natural, mas construída historicamente. A filósofa demonstrou que a sociedade moldou papéis e expectativas que limitaram a atuação das mulheres, muitas vezes reduzindo-as à aparência ou à função doméstica, mesmo quando possuíam capacidade intelectual e inventiva. A trajetória de Hedy Lamarr exemplifica de forma concreta essa análise.

Hedy Lamarr é frequentemente lembrada como atriz de Hollywood, símbolo de beleza nas décadas de 1930 e 1940. Durante muito tempo, essa imagem pública obscureceu outra dimensão fundamental de sua vida: a de inventora. Ao lado do compositor George Antheil, desenvolveu, durante a Segunda Guerra Mundial, um sistema de comunicação por salto de frequência, tecnologia baseada na alternância rápida de sinais para impedir interferências em torpedos guiados por rádio.

O mecanismo, inspirado na lógica das teclas de um piano, permitia a mudança simultânea de frequências entre transmissor e receptor, dificultando bloqueios e interceptações. A invenção foi patenteada em 1942. Embora não tenha sido imediatamente adotada pelas forças militares da época, o princípio desenvolvido por Hedy Lamarr tornou-se, décadas depois, fundamento para tecnologias de comunicação sem fio, como Wi-Fi, GPS e Bluetooth.

Apesar da relevância científica de sua contribuição, Hedy Lamarr não recebeu reconhecimento proporcional em vida. Enfrentou violência doméstica em seu primeiro casamento, teve sua autonomia restringida e viu sua inteligência ser constantemente questionada por ser mulher e atriz. Sua imagem foi amplamente explorada pela indústria cinematográfica, enquanto sua produção intelectual foi desconsiderada. O reconhecimento mais amplo de sua importância tecnológica ocorreu apenas muitos anos depois, especialmente a partir da década de 1990 e nos anos 2000.

A experiência de Hedy Lamarr confirma a reflexão de Beauvoir: o talento feminino não esteve ausente da história, mas foi frequentemente condicionado por estruturas que privilegiaram a visibilidade masculina. Sua trajetória evidencia que a invisibilização não apaga a contribuição, mas retarda seu reconhecimento.

Mulheres e poder no mundo: avanços e desafios

Globalmente, a presença feminina nos espaços de poder ainda é desigual. Apesar de avanços importantes, como mulheres assumindo presidências, liderando grandes empresas, coordenando pesquisas científicas e presidindo tribunais, a sub-representação permanece. Barreiras culturais, divisão desigual do trabalho doméstico, violência política de gênero e discriminação estrutural continuam limitando o acesso e a permanência das mulheres nos centros de decisão.

A experiência internacional demonstra que a ampliação da participação feminina melhora indicadores de governança, fortalece políticas públicas inclusivas e amplia a sensibilidade social nas decisões estratégicas. Onde há maior presença de mulheres no poder, observa-se maior atenção a temas como educação, saúde, equidade salarial e combate à violência.

O Acre, os Povos Indígenas e a presença feminina desde a emancipação

No contexto brasileiro, e especialmente no Acre, estado que conquistou sua emancipação após intensas lutas no início do século XX, a participação feminina também enfrentou barreiras históricas. A política acreana, assim como a nacional, foi inicialmente estruturada sob liderança masculina. Entretanto, mulheres acreanas tiveram papel fundamental nos movimentos sociais, nas comunidades tradicionais, nos sindicatos, na educação e na defesa da floresta.

O Acre avançou institucionalmente ao criar a Secretaria de Estado de Povos Indígenas, órgão governamental voltado à formulação e à execução de políticas públicas específicas para os povos originários, respeitando suas identidades, culturas, territórios e modos de vida. A criação dessa secretaria representa um reconhecimento político da diversidade étnica do estado e fortalece a participação indígena nos espaços de decisão, garantindo que mulheres indígenas também tenham voz ativa na construção das políticas que impactam suas comunidades.

Com o passar das décadas, especialmente após a Constituição de 1988 e a ampliação dos direitos políticos femininos, mulheres passaram a ocupar cargos no Legislativo, no Executivo municipal e estadual, no Judiciário e em espaços de gestão pública. Ainda assim, o desafio da representatividade persiste. A presença feminina na política acreana e brasileira não é proporcional à maioria demográfica que as mulheres representam na sociedade.

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O Acre, com sua história de resistência e defesa da floresta, pode também ser referência em liderança feminina, especialmente considerando o protagonismo de mulheres indígenas, ribeirinhas, extrativistas e urbanas que atuam na preservação ambiental e na preservação de suas crenças e culturas. Pode-se citar o município de Santa Rosa do Purus, que, em sua maioria, é composto por mulheres indígenas, em uma população na qual 70% são povos originários. São mulheres que contribuem significativamente para o desenvolvimento sustentável, mantendo vivas as tradições, fortalecendo a economia local e liderando processos comunitários.

Nesse cenário de pioneirismo feminino, destaca-se também a história de Irene, a primeira mulher a comandar a capital de todos os acreanos. Sua atuação representa um marco na política do estado, rompendo paradigmas e demonstrando que liderança não tem gênero. Irene trabalhou com a formação de professores indígenas em meados dos anos 1970, contribuindo para a valorização da educação intercultural e para o fortalecimento da identidade dos povos originários. Seu compromisso com a educação e com a inclusão social evidencia como mulheres no poder podem promover transformações estruturais e duradouras.

Violência, silenciamento e resistência

Assim como Hedy Lamarr enfrentou violência doméstica e descrédito intelectual, muitas mulheres que ousam ocupar espaços de poder enfrentam violência simbólica, psicológica e política. O Brasil registra altos índices de violência contra a mulher, o que evidencia que a desigualdade de gênero é estrutural e atravessa todas as esferas sociais.

A violência política de gênero tem sido instrumento de intimidação contra mulheres eleitas ou candidatas. Ataques à honra, questionamentos à capacidade intelectual e campanhas de deslegitimação são estratégias utilizadas para afastá-las da liderança.

Potencializar a participação feminina: um compromisso coletivo

Ampliar a presença de mulheres nos espaços de poder não é apenas uma questão de justiça social, é também uma estratégia de desenvolvimento. Para isso, é necessário:

Fortalecer políticas públicas de incentivo à participação política feminina;
Garantir financiamento adequado às candidaturas de mulheres;
Combater a violência política de gênero;
Valorizar a educação como instrumento de emancipação;
Reconhecer e divulgar referências femininas na ciência, na política e na cultura.

Conclusão: reconhecer para transformar

A história de Hedy Lamarr demonstra que o talento feminino não pode continuar sendo silenciado ou reconhecido apenas de forma tardia. O Acre e o Brasil precisam garantir que mulheres não sejam apenas lembradas depois de sua partida, mas valorizadas enquanto constroem o presente.

Potencializar a participação feminina nos espaços de poder é reconhecer que inteligência, sensibilidade estratégica e capacidade de liderança não têm gênero. É compreender que sociedades mais justas, democráticas e inovadoras dependem da inclusão plena das mulheres nas decisões que moldam o futuro.

Que as teclas do piano da inovação, da política e da transformação social sejam tocadas por mãos diversas e que nenhuma mulher precise esperar décadas para ter sua voz legitimada.

Artigo:
Francinete Barros
Ativista Política
Especialista em Gestão Hospital e Saúde e Segurança do Trabalho

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