Sempre defendi, em teoria, o respeito e a acessibilidade como pilares de uma sociedade justa. No entanto, uma lição que a vida me ensinou recentemente é que entender um conceito é muito diferente de vivê-lo.
Por conta de uma condição temporária, hoje me locomovo com o auxílio de uma cadeira de rodas, e a cidade que eu conhecia se transformou.
Onde antes haviam apenas calçadas, hoje vejo um campo de obstáculos. Essa experiência, ainda que provisória para mim, tem sido um profundo choque de realidade. Descobri que o mundo é radicalmente diferente quando visto de uma altura de 1,20 metro, sentado. A autonomia, algo que eu tomava como garantido, tornou-se uma conquista diária, repleta de desafios que a maioria das pessoas sequer percebe.
As calçadas, por exemplo, tornaram-se o primeiro grande inimigo. Buracos, desníveis e a falta de rampas adequadas transformam um simples trajeto em uma jornada perigosa. O acesso a muitos estabelecimentos comerciais é, por si só, um filtro social: um degrau na entrada é uma barreira que me impede de consumir, de existir naquele espaço. E, com frequência, encontro motocicletas estacionadas exatamente sobre as poucas rampas existentes, bloqueando a única via de acesso possível em um ato de puro descaso.
O que antes era uma simples ida à padaria virou uma operação logística. Em restaurantes, padarias e cafés, a falta de planejamento é gritante. As mesas são dispostas de forma tão próxima que criam um labirinto impossível de navegar. O corredor que parece “um pouco apertado” para quem anda, para mim é um bloqueio intransponível. Muitas vezes, as cadeiras de mesas desocupadas obstruem a passagem, transformando o que deveria ser um momento de lazer em um exercício de constrangimento e dependência.
A prateleira de pães, apenas “um pouco alta”, transformou-se em uma barreira que me obriga a depender da boa vontade de estranhos para pegar um produto básico. No supermercado, a cena se repete. A independência de escolher meus próprios itens foi substituída por um sentimento constante de vulnerabilidade.
Nas repartições públicas, o cenário é ainda mais desolador. Encontrei rampas que existem apenas “para constar” na fiscalização, com inclinações tão íngremes que desafiam a física e a segurança. Vi banheiros orgulhosamente sinalizados como “adaptados” servindo de depósito para materiais de limpeza, uma metáfora cruel de como a inclusão é, muitas vezes, tratada como um estorvo. Acessibilidade não é um anexo ou um favor; é a condição mínima para que um cidadão exerça seus direitos.
Contudo, nada se compara à frustração de ver a vaga de estacionamento destinada a Pessoas com Deficiência (PcD) ocupada por um veículo sem credencial. Aquele espaço, frequentemente visto como um privilégio, é na verdade uma necessidade funcional. A área extra não é luxo, é o espaço mínimo de que preciso para abrir a porta do carro por completo e manobrar a cadeira de rodas para fora. O seu “só um minutinho” pode custar o meu compromisso, o meu exame médico, a minha aula ou, simplesmente, o meu direito de ir e vir.
Essa vaga não é sobre conveniência, é sobre dignidade. O desrespeito a ela é um ato que diz, em alto e bom som, que as necessidades de uma pessoa são mais importantes que os direitos de outra. Minha experiência sobre rodas é temporária, mas a luta de milhões de brasileiros é permanente. Eles não têm a perspectiva de “voltar ao normal”, pois este é o normal deles.
Essa vivência me fez internalizar uma verdade poderosa: a acessibilidade não é um favor, é um direito garantido por lei. Mas, acima da lei, ela deveria ser uma prática natural de empatia. Não espere precisar de uma cadeira de rodas, de uma muleta ou ter que empurrar um carrinho de bebê por calçadas esburacadas para entender que acessibilidade, planejamento urbano e bom senso são fundamentais para todos. Uma cidade que é boa para uma pessoa com deficiência é, invariavelmente, uma cidade melhor e mais segura para crianças, idosos e para cada um de nós.
Vamos olhar mais ao nosso redor? Vamos cobrar dos nossos gestores e, principalmente, de nós mesmos, uma postura mais inclusiva? A mudança começa quando a dificuldade do outro passa a nos incomodar tanto quanto a nossa.

