Cinquenta e um rostos de trabalhadores da indústria com olhos cansados e sérios. Há mulheres, homens, de diferentes faixas etárias e cores de pele. Ao fundo, prédio e seis chaminés. A fumaça toma conta de parte do que antes era azul. 

Em meio Ă s discussões atuais no Congresso Nacional sobre o fim da escala 6 por 1, a tela “Operários”, de Tarsila do Amaral (1876-1973), produzida em 1933, pode provocar reflexões sobre o tema. Essa Ă© a opiniĂŁo da sobrinha-bisneta da pintora, a publicitária Paola Montenegro, que gere o legado artĂstico de Tarsila.Â
NotĂcias relacionadas:
- Orquestra de Câmara da USP faz pré-temporada com repertório plural.
- Flip anuncia Orides Fontela como autora homenageada de 2026.
“Hoje, a gente consegue observar obras que foram feitas há 100 anos e ainda verificar tanta força”, afirma.
Para ela, “Operários” Ă© uma obra em que os brasileiros conseguem se enxergar e afirmou que a escala 6 por 1 afasta as pessoas de direitos básicos. As pessoas tĂŞm direito Ă cultura, ao lazer, ao tempo livre”.Â
Operários Ă© uma das 63 obras da exposição “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral”, no Centro Cultural do Tribunal de Contas da UniĂŁo (TCU), em BrasĂlia, que começa nesta quarta (11), com entrada gratuita.
“A mostra marca o centenário da primeira exposição individual que a Tarsila fez em Paris”, diz a herdeira.Â
Olhar social
Mais duas obras cĂ©lebres da artista na exposição, que tambĂ©m tratam da desigualdade e exploração, sĂŁo “Segunda Classe” (1933) e “Costureiras” (1950). SĂŁo telas que, na mostra na capital, ocupam o tema do “olhar o outro”.Â
A mostra traz uma reuniĂŁo inĂ©dita de trabalhos da artista modernista (que nasceu há 130 anos), e tem curadoria das pesquisadoras Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco, que resolveram organizar os trabalhos por nĂşcleos de temas e nĂŁo por ordem cronolĂłgica.Â
A curadora Karina Santiago exemplifica que os olhares mĂşltiplos de Tarsila (espelhados na variedade de suas perspectivas, desde os trabalhos figurativos nos anos 1910 ao olhar social pĂłs-dĂ©cada de 1930) garantem uma compreensĂŁo de paĂs e de mundo que a artista vivia.
A pintora teria feito, então, um caminho de afastamento do privilégio econômico para se tornar a principal artista plástica do Brasil.
“Isso se revela, por exemplo, na influĂŞncia que a escola modernista imprime ao seu pensamento criativo. A criação de “Abaporu” (considerada a mais famosa obra da artista e que pertence Ă coleção de um museu na Argentina) demonstra essas influĂŞncias da dĂ©cada de 1920.Â
Os elementos religiosos e de atenção ambiental, aos poucos, se misturam Ă s crĂticas que ela passa a fazer Ă s desigualdades. Os preparativos demoraram mais de um ano para viabilização da mostra, tamanha a complexidade de transporte de obras que foram trazidas de institutos, museus e colecionadores de SĂŁo Paulo.
Além do tempo
Rachel Vallego considera que as obras de Tarsila conseguem atravessar o tempo e se comunicarem com temas do terceiro milĂŞnio. A pesquisadora contextualiza que, nos anos 1930, a partir do momento em que a famĂlia dela, de cafeicultores, sofre grandes perdas com a quebra da Bolsa de Nova York (em 1929), ela demonstra olhar social e passa a pensar o funcionamento da sociedade de outra forma.Â
“Eu acho muito interessante que, nessa obra, todas as pessoas nos olhem diretamente. Ela demonstra um olhar muito mais social e equilibrado. Ela nos provoca muito nesse lugar”, afirma.
AlĂ©m do “olhar para o outro”, as pesquisadoras dividiram as telas em mais trĂŞs temas que contemplam a formação da artista (o “estar no mundo”), a descoberta de cenários (olhar o mundo) e a exploração do sonho e da imaginação (mergulho no onĂrico). Há trabalhos como o Auto-Retrato (de 1923), Palmeiras (de 1925) e SĂŁo Paulo (de 1924) que revelam diferentes facetas e olhares da artista.
Em movimento
Outra atração da exposição Ă© uma sala imersiva com um videografismo que mistura, de forma original, o sĂmbolo do sapo, elemento recorrente nos quadros de Tarsila, com a animação em obras como “A Cuca” (1924), “Abaporu” (1928), “Sol Poente” (1929), “CartĂŁo Postal” (1929) e “Antropofagia” (1929). Uma das intenções dessa sala Ă© provocar a curiosidade tambĂ©m das crianças, com um conteĂşdo lĂşdico e oportunidades de fotos e vĂdeos.
Tudo ganha movimento nesse material, numa verdadeira “viagem tarsiliana” (criado sem utilização de inteligĂŞncia artificial) com curadoria da prĂłpria Paola Montenegro e da cientista social Juliana Miraldi. Aliás, Juliana destaca que a originalidade do vĂdeo tem a finalidade de homenagear a criatividade histĂłrica de Tarsila. Â
 “Na mostra, há o momento que Ă© o mergulho na histĂłria do Brasil, o mergulho nos outros e o mergulho do mundo”, afirma Paola Montenegro. A sobrinha-bisneta da artista plástica afirma que a intenção Ă© levar essa exposição para o paĂs inteiro sobre a mulher “à frente do seu tempo”.
Feminista
A pesquisadora Rachel Vallego acrescenta que Ă© possĂvel constatar olhares e atitudes que poderiam ser chamados de feministas. “Ela interrompe um casamento nos anos 1910, mesmo tendo um filho. E essa famĂlia ainda vai apoiá-la para ela ter uma carreira de pintora”.Â
A diretora do Instituto Serzedello CorrĂŞa, Ana Cristina Novaes, responsável pelo centro cultural, afirma que, durante o perĂodo em que a mostra estiver em cartaz em BrasĂlia (atĂ© 10 de maio), a intenção Ă© promover a visita de instituições de ensino, como escolas e faculdades para que mais pessoas conheçam o pensamento vivo de Tarsila.

