Obras de Tarsila do Amaral provocam reflexÔes sobre temas atuais

Por AgĂȘncia Brasil 11/02/2026 Ă s 08:11


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Cinquenta e um rostos de trabalhadores da indĂșstria com olhos cansados e sĂ©rios. HĂĄ mulheres, homens, de diferentes faixas etĂĄrias e cores de pele. Ao fundo, prĂ©dio e seis chaminĂ©s. A fumaça toma conta de parte do que antes era azul. Obras de Tarsila do Amaral provocam reflexĂ”es sobre temas atuaisObras de Tarsila do Amaral provocam reflexĂ”es sobre temas atuais

Em meio Ă s discussĂ”es atuais no Congresso Nacional sobre o fim da escala 6 por 1, a tela “OperĂĄrios”, de Tarsila do Amaral (1876-1973), produzida em 1933, pode provocar reflexĂ”es sobre o tema. Essa Ă© a opiniĂŁo da sobrinha-bisneta da pintora, a publicitĂĄria Paola Montenegro, que gere o legado artĂ­stico de Tarsila. 

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“Hoje, a gente consegue observar obras que foram feitas há 100 anos e ainda verificar tanta força”, afirma.

Para ela, “OperĂĄrios” Ă© uma obra em que os brasileiros conseguem se enxergar e afirmou que a escala 6 por 1 afasta as pessoas de direitos bĂĄsicos. As pessoas tĂȘm direito Ă  cultura, ao lazer, ao tempo livre”. 

OperĂĄrios Ă© uma das 63 obras da exposição “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral”, no Centro Cultural do Tribunal de Contas da UniĂŁo (TCU), em BrasĂ­lia, que começa nesta quarta (11), com entrada gratuita.

“A mostra marca o centenário da primeira exposição individual que a Tarsila fez em Paris”, diz a herdeira. 


BrasĂ­lia (DF), 10/02/2026 - Visita guiada no centro cultural TCU Ă  exposição “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral”, que estarĂĄ aberta ao pĂșblico a partir de 11 de fevereiro.
Foto: JoĂ©dson Alves/AgĂȘncia Brasil

Obras de Tarsila do Amaral podem ser vistas no Centro Cultural TCU, em BrasĂ­lia, na exposição “Transbordar o mundo” – Foto JoĂ©dson Alves/AgĂȘncia Brasil

Olhar social

Mais duas obras cĂ©lebres da artista na exposição, que tambĂ©m tratam da desigualdade e exploração, sĂŁo “Segunda Classe” (1933) e “Costureiras” (1950). SĂŁo telas que, na mostra na capital, ocupam o tema do “olhar o outro”. 

A mostra traz uma reuniĂŁo inĂ©dita de trabalhos da artista modernista (que nasceu hĂĄ 130 anos), e tem curadoria das pesquisadoras Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco, que resolveram organizar os trabalhos por nĂșcleos de temas e nĂŁo por ordem cronolĂłgica. 

A curadora Karina Santiago exemplifica que os olhares mĂșltiplos de Tarsila (espelhados na variedade de suas perspectivas, desde os trabalhos figurativos nos anos 1910 ao olhar social pĂłs-dĂ©cada de 1930) garantem uma compreensĂŁo de paĂ­s e de mundo que a artista vivia.

A pintora teria feito, então, um caminho de afastamento do privilégio econÎmico para se tornar a principal artista plåstica do Brasil.

“Isso se revela, por exemplo, na influĂȘncia que a escola modernista imprime ao seu pensamento criativo. A criação de “Abaporu” (considerada a mais famosa obra da artista e que pertence Ă  coleção de um museu na Argentina) demonstra essas influĂȘncias da dĂ©cada de 1920. 

Os elementos religiosos e de atenção ambiental, aos poucos, se misturam às críticas que ela passa a fazer às desigualdades.  Os preparativos demoraram mais de um ano para viabilização da mostra, tamanha a complexidade de transporte de obras que foram trazidas de institutos, museus e colecionadores de São Paulo.

Além do tempo


BrasĂ­lia (DF), 10/02/2026 - Visita guiada no centro cultural TCU Ă  exposição “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral”, que estarĂĄ aberta ao pĂșblico a partir de 11 de fevereiro.
Foto: JoĂ©dson Alves/AgĂȘncia Brasil

Trabalhos da pintora Tarsila do Amaral estĂŁo reunidos em exposição inĂ©dita no Centro Cultural TCU – Foto JoĂ©dson Alves/AgĂȘncia Brasil

Rachel Vallego considera que as obras de Tarsila conseguem atravessar o tempo e se comunicarem com temas do terceiro milĂȘnio. A pesquisadora contextualiza que, nos anos 1930, a partir do momento em que a famĂ­lia dela, de cafeicultores, sofre grandes perdas com a quebra da Bolsa de Nova York (em 1929), ela demonstra olhar social e passa a pensar o funcionamento da sociedade de outra forma. 

“Eu acho muito interessante que, nessa obra, todas as pessoas nos olhem diretamente. Ela demonstra um olhar muito mais social e equilibrado. Ela nos provoca muito nesse lugar”, afirma.

AlĂ©m do “olhar para o outro”, as pesquisadoras dividiram as telas em mais trĂȘs temas que contemplam a formação da artista (o “estar no mundo”), a descoberta de cenĂĄrios (olhar o mundo) e a exploração do sonho e da imaginação (mergulho no onĂ­rico). HĂĄ trabalhos como o Auto-Retrato (de 1923), Palmeiras (de 1925) e SĂŁo Paulo (de 1924) que revelam diferentes facetas e olhares da artista.

Em movimento

Outra atração da exposição Ă© uma sala imersiva com um videografismo que mistura, de forma original, o sĂ­mbolo do sapo, elemento recorrente nos quadros de Tarsila, com a animação em obras como “A Cuca” (1924), “Abaporu” (1928), “Sol Poente” (1929), “CartĂŁo Postal” (1929) e “Antropofagia” (1929).  Uma das intençÔes dessa sala Ă© provocar a curiosidade tambĂ©m das crianças, com um conteĂșdo lĂșdico e oportunidades de fotos e vĂ­deos.

Tudo ganha movimento nesse material, numa verdadeira “viagem tarsiliana” (criado sem utilização de inteligĂȘncia artificial) com curadoria da prĂłpria Paola Montenegro e da cientista social Juliana Miraldi.  AliĂĄs, Juliana destaca que a originalidade do vĂ­deo tem a finalidade de homenagear a criatividade histĂłrica de Tarsila.  

 “Na mostra, hĂĄ o momento que Ă© o mergulho na histĂłria do Brasil, o mergulho nos outros e o mergulho do mundo”, afirma Paola Montenegro. A sobrinha-bisneta da artista plĂĄstica afirma que a intenção Ă© levar essa exposição para o paĂ­s inteiro sobre a mulher “à frente do seu tempo”.

Feminista


BrasĂ­lia (DF), 10/02/2026 - Visita guiada no centro cultural TCU Ă  exposição “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral”, que estarĂĄ aberta ao pĂșblico a partir de 11 de fevereiro.
Foto: JoĂ©dson Alves/AgĂȘncia Brasil

Visita guiada à exposição “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral”, no Centro Cultural TCU, em BrasĂ­lia – Foto JoĂ©dson Alves/AgĂȘncia Brasil

A pesquisadora Rachel Vallego acrescenta que Ă© possĂ­vel constatar olhares e atitudes que poderiam ser chamados de feministas. “Ela interrompe um casamento nos anos 1910, mesmo tendo um filho. E essa famĂ­lia ainda vai apoiĂĄ-la para ela ter uma carreira de pintora”. 

A diretora do Instituto Serzedello CorrĂȘa, Ana Cristina Novaes, responsĂĄvel pelo centro cultural, afirma que, durante o perĂ­odo em que a mostra estiver em cartaz em BrasĂ­lia (atĂ© 10 de maio), a intenção Ă© promover a visita de instituiçÔes de ensino, como escolas e faculdades para que mais pessoas conheçam o pensamento vivo de Tarsila.

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