Pesquisa aponta problemas e prisÔes indevidas a partir do Smart Sampa

Por AgĂȘncia Brasil 04/02/2026 Ă s 09:05


Logo AgĂȘncia Brasil

Uma pesquisa elaborada pelo LaboratĂłrio de PolĂ­ticas PĂșblicas e Internet (LAPIN), o Instituto de ReferĂȘncia Negra Peregum e a Rede Liberdade aponta problemas no sistema de vigilĂąncia da prefeitura de SĂŁo Paulo, o Smart Sampa. De acordo com a nota tĂ©cnica Smart Sampa: TransparĂȘncia para quem? TransparĂȘncia de quĂȘ?, o sistema apresenta resultados questionĂĄveis e fragilidades estruturais.Pesquisa aponta problemas e prisĂ”es indevidas a partir do Smart SampaPesquisa aponta problemas e prisĂ”es indevidas a partir do Smart Sampa

A partir do RelatĂłrio de TransparĂȘncia da prefeitura, divulgado em junho de 2025, e com informaçÔes obtidas pela Lei de Acesso Ă  Informação (LAI), as entidades concluĂ­ram que o sistema de videomonitoramento e reconhecimento facial do municĂ­pio tem gerado falsos positivos, prisĂ”es indevidas e riscos Ă  privacidade, sem resultados concretos para a segurança pĂșblica.

NotĂ­cias relacionadas:

“Quanto mais se aprofunda a avaliação sobre o Smart Sampa, mais se questiona a razĂŁo de sua existĂȘncia. É preciso indagar se o alto gasto pĂșblico destinado ao programa tem produzido resultados concretos, diante dos riscos impostos a direitos fundamentais”, afirmou Pedro Diogo, coordenador do LAPIN no Grupo de Trabalho sobre VigilĂąncia.

Desde 2023, o Smart Sampa opera com atĂ© 40 mil cĂąmeras e um custo mensal de R$ 9,8 milhĂ”es. De acordo com a anĂĄlise, falta ainda transparĂȘncia na gestĂŁo de dados e nos nĂșmeros oficiais, alĂ©m de inconsistĂȘncias na operação do sistema.

“O Smart Sampa aprofunda desigualdades raciais e geogrĂĄficas, reforçando um modelo de segurança pĂșblica que criminaliza determinados corpos e territĂłrios”, avaliou Beatriz Lourenço, diretora de Áreas e EstratĂ©gia do Instituto de ReferĂȘncia Negra Peregum. 

De acordo com os dados do relatĂłrio, o sistema registrou 1.246 abordagens desde o inĂ­cio da operação, resultando em 1.153 prisĂ”es, das quais 540 foram classificadas pela prĂłpria prefeitura como “outros”, sem detalhamento da motivação.

>> Siga o canal da AgĂȘncia Brasil no WhatsApp

Crimes

Os tipos penais mais frequentes foram roubo (153), trĂĄfico de drogas (137) e furto (17). Segundo a anĂĄlise, os nĂșmeros reforçam “o carĂĄter patrimonialista e a adesĂŁo Ă  polĂ­tica criminal baseada na falida ‘guerra Ă s drogas’ – cujo alvo histĂłrico Ă© a população negra.”

A partir de informaçÔes obtidas por pedido da Lei de Acesso Ă  Informação (LAI), identificou-se que mais de 90% do que foi categorizado como “outros” eram prisĂ”es por pensĂŁo alimentĂ­cia. 

Para as entidades, o fato de os mandados relacionados Ă  pensĂŁo alimentĂ­cia estarem entre os principais crimes evidencia que parte das prisĂ”es nĂŁo tĂȘm relação com a segurança pĂșblica. Dados da Secretaria de Estado da Segurança PĂșblica apontam registros recordes de feminicĂ­dios e alta de homicĂ­dios e de estupros, entre 2024 e 2025, na capital paulista.

De acordo com os dados, predominam prisĂ”es de pessoas de gĂȘnero masculino (93,58%), sem menção a pessoas trans. As entidades afirmam ainda que o perfil das pessoas presas reflete o viĂ©s racial e territorial do sistema, jĂĄ que 25% sĂŁo negras (18,49% pardas e 6,60% pretas) e 16,01% sĂŁo brancas, enquanto 58,9% dos registros nĂŁo trazem qualquer informação sobre raça. A avaliação Ă© que essa lacuna de informação invisibiliza as desigualdades raciais no policiamento.

Segundo os dados apurados, houve também concentração geogråfica das prisÔes no centro da cidade e em bairros periféricos, com destaque para o bairro do Brås e operaçÔes na região da Cracolùndia.

“Esses dados sugerem que o Smart Sampa reforça processos históricos de segregação racial, vigilñncia desigual e policiamento seletivo, articulados ao racismo e às desigualdades socioeconîmicas”, diz trecho do documento.

A anĂĄlise destaca, ainda, falhas tĂ©cnicas e falsos positivos, denunciam as entidades. O relatĂłrio indica que ao menos 23 pessoas foram conduzidas indevidamente por inconsistĂȘncias no reconhecimento facial e 82 pessoas foram presas e posteriormente liberadas.

Outra falha apontada na anĂĄlise Ă© sobre o uso do Smart Sampa para a localização de pessoas desaparecidas. “[A prefeitura] declara nĂŁo armazenar dados pessoais, o que Ă© incompatĂ­vel com o uso de reconhecimento facial e levanta dĂșvidas sobre quais bases de dados alimentam o sistema e como sĂŁo tratadas informaçÔes de crianças e adolescentes, em desacordo com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD)”, alertam as organizaçÔes. 

Outro lado

A prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Segurança Urbana, informou que dados oficiais da SSP mostram redução de roubos em geral, roubos de veículos e latrocínios no ano de 2025 na capital paulista.

“O contrato de operação tem vigĂȘncia de agosto de 2023 a agosto de 2028, com investimento mensal de atĂ© R$ 10 milhĂ”es. As cĂąmeras sĂŁo utilizadas exclusivamente para fins de segurança pĂșblica, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), e apresentam Ă­ndice de assertividade de 99,5%”, diz nota da pasta.

A gestĂŁo municipal acrescenta que “todos os alertas gerados pelo sistema sĂŁo obrigatoriamente validados por agentes humanos”. “Esse rigor se reflete em um dado objetivo: nĂŁo houve registro de prisĂ”es injustas ou equivocadas decorrentes de abordagens iniciadas pelo sistema, conforme relatĂłrio de transparĂȘncia”.

Os resultados do programa Smart Sampa, atualizados pela secretaria, sĂŁo: prisĂŁo de 2.709 foragidos da Justiça, 3.650 prisĂ”es em flagrante, localização de 153 pessoas desaparecidas e o atendimento de 2.017 ocorrĂȘncias envolvendo veĂ­culos.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensĂŁo de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteĂșdo de qualidade gratuitamente.