O universo da neurodivergência passou por mudanças significativas nos últimos anos. O que antes era conhecido isoladamente como Síndrome de Asperger, hoje faz parte de um conceito mais amplo e unificado. A Síndrome de Asperger foi substituída por Nível I do Transtorno do Espectro Autista (TEA), classificado como um quadro mais funcional do espectro.
Neste dia 18 de fevereiro é celebrado o Dia Internacional da Síndrome de Asperger. O objetivo da data é conhecer a importância da integração das pessoas com o transtorno, sensibilizar a população e o seu impacto nos indivíduos com nível 1 de suporte do TEA.
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A neuropsicóloga Fernanda Souza explica que a Síndrome de Asperger passou a fazer parte do Transtorno do Espectro Autista porque, atualmente, entende-se que todas essas características estão dentro de um mesmo espectro, com diferentes níveis de apoio.
Fernanda é psicóloga, especialista em Neuropsicologia, atua com avaliação neuropsicológica de crianças e adultos, com foco em Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), TEA e demais transtornos do neurodesenvolvimento.
“A partir do DSM-5-TR, deixou-se de usar nomes separados para facilitar uma compreensão mais completa e um cuidado mais adequado para cada pessoa. Os níveis de suporte no TEA correspondem aos especificadores de gravidade relacionados às necessidades de apoio, ou seja, quanto a pessoa precisará de ajuda no seu dia-a-dia. O nível 1, definido como “exigindo apoio” de acordo com o DSM-5-TR, se refere a indivíduos que tenham dificuldades em algumas áreas do desenvolvimento e que necessitam de suporte nesses aspectos, como dificuldades nas interações sociais”, explicou.
O DSM-5-TR é Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision, publicado pela Associação Psiquiátrica Americana (APA) em março de 2022. Este manual é o padrão de referência mundial para o diagnóstico e classificação de transtornos mentais, utilizado por psiquiatras, psicólogos e outros profissionais de saúde mental para garantir uma avaliação objetiva e padronizada.
TEA nível 1 de suporte
De acordo com o Ministério da Saúde, o autismo nível 1 de suporte é frequentemente considerado uma forma funcional do TEA, que não apresenta comprometimento intelectual e atraso cognitivo, diferente do autismo clássico, por isso, os primeiros sintomas e sinais podem ser ignorados pelos pais ainda na infância, levando ao diagnóstico tardio na adolescência ou até mesmo na fase adulta.
A neuropsicóloga explica que embora o diagnóstico precoce seja fundamental, é importante considerar a importância do diagnóstico tardio.
“Mesmo após anos vivendo com o transtorno sem identificação, muitos adultos relatam que receber o diagnóstico traz maior compreensão sobre seus próprios sintomas e características, que frequentemente foram negligenciados ou mal interpretados ao longo da vida. Esse reconhecimento possibilita um novo olhar sobre a própria trajetória, favorece o acesso às intervenções adequadas e contribui significativamente para a melhoria da qualidade de vida e do bem-estar emocional”, destaca.
Fernanda conta, ainda, que tem recebido uma demanda significativa de possíveis casos de Transtorno do Espectro Autista nível 1 de suporte, “principalmente na avaliação neuropsicológica, através do histórico de vida, dos testes e da análise clínica, muitos pacientes apresentam características do Transtorno do Espectro Autista nível 1 de suporte, frequentemente associadas a uma funcionalidade preservada ao longo da vida, o que pode ter contribuído para a identificação apenas na fase adulta”.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é classificado em três níveis de suporte/apoio/Foto: Reprodução
Com maior acesso a informações sobre o Transtorno do Espectro Autista e crescimento expressivo de diagnósticos, principalmente infantis, apresenta-se uma tendência de maior entendimento sobre os sintomas, características e prejuízos, mas ainda há falas e olhares preconceituosos sobre a doença, mas, principalmente a invisibilidade das pessoas diagnosticadas com TEA nível 1 de suporte.
“É importante destacar que o nível 1 de suporte no autismo também envolve prejuízos reais, ainda que menos visíveis que o nível 2 e 3, as pessoas neste nível apresentam funcionalidade em algumas áreas e podem mascarar determinadas características, o que frequentemente pode levar à invalidação de suas dificuldades. Contudo, a ausência de sinais mais evidentes não significa ausência de sofrimento ou de necessidade de apoio, é necessário validar essas experiências para garantir cuidado adequado, inclusão e respeito às diferentes formas de vivenciar o espectro”, explica Fernanda.
O Dia Internacional da Síndrome de Asperger, agora TEA nível 1 de suporte, é um lembrete importante da necessidade de conscientização, compreensão e suporte para pessoas com o transtorno.

