O aumento de relatos sobre relacionamentos abusivos tem chamado a atenção de profissionais da saúde mental. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, esse tipo de relação não se resume apenas à agressão física. Ele pode estar presente de forma silenciosa, cotidiana e profundamente destrutiva, como explica a psicóloga e professora universitária Samara Pinheiro, de 32 anos.
Samara Pinheiro, psicóloga/Foto: Cedida
“Existe a ideia de que relacionamento abusivo só acontece quando há agressão física, mas não é assim. Ele também se manifesta quando a pessoa vai se anulando para que o outro exista”, explica.
Segundo a especialista, o abuso começa quando o amor deixa de ser troca e passa a funcionar como anulação.
Situações comuns que, muitas vezes, passam despercebidas, como abrir mão de gostos pessoais, interesses, hobbies e até opiniões para evitar conflitos ou o abandono são sinais claros.
“A pessoa começa a viver a partir do desejo do outro. Come o que o outro gosta, vai onde o outro quer, escuta o que o outro escuta, até não saber mais quem ela é”, afirma.
Nesse tipo de vínculo, o medo de perder o parceiro se torna maior do que o desejo de permanecer bem consigo mesma.
“É uma relação sustentada pela culpa, pela ameaça do abandono e pela confusão entre cuidado e controle. Às vezes a pessoa acha que está sendo cuidada, quando, na verdade, está sendo controlada”, alerta.
A psicóloga resume com uma frase que costuma usar em seus atendimentos: “Em alguns momentos, é preciso perder para não se perder.”
“Em alguns momentos, é preciso perder para não se perder.” diz Samara/Foto: Reprodução
De acordo com Samara Pinheiro, o comportamento abusivo pode partir tanto de homens quanto de mulheres. No entanto, os dados sociais e a realidade brasileira mostram uma incidência maior entre homens, especialmente em estados com altos índices de violência contra a mulher.
De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil” registrou seu patamar mais alto desde o início da série, em 2017. Os dados revelam que 37,4% das brasileiras foram vítimas de algum tipo de violência no último ano, o que corresponde a um contingente de 21,4 milhões de mulheres.
Ainda assim, ela reforça que o problema não está restrito a relacionamentos heterossexuais. “Ele pode acontecer em qualquer tipo de vínculo: hétero, homossexual e até dentro das relações familiares, como entre pais e filhos”, destaca.
Mais de 21 milhões de mulheres já sofreram algum tipo de violência/Foto: Reprodução
Conviver em um relacionamento abusivo gera impactos significativos na saúde mental. Entre as principais consequências estão a perda da autoestima, confusão emocional, culpa constante, ansiedade, medo de errar e sensação persistente de inadequação.
“A pessoa começa a duvidar do que sente, do que pensa, do que deseja. Chega um momento em que ela não sabe mais o que quer da vida, porque vive apenas em função do outro”, explica Samara.
Com o tempo, esse empobrecimento do desejo pode evoluir para quadros de depressão, ansiedade e dificuldade de estabelecer novos vínculos afetivos no futuro.
Abuso pode partir de homens ou mulheres e atingir diferentes tipos de relacionamento/Foto: Reprodução
A dificuldade de romper com um relacionamento abusivo, segundo a psicóloga, está diretamente ligada à história de vida da pessoa.
“Quem nos ensina a amar são nossos cuidadores. A forma como fomos amados na infância influencia profundamente os relacionamentos da vida adulta”, afirma.
Pessoas que cresceram em ambientes marcados por violência, negligência ou relações confusas entre amor e agressão tendem a naturalizar esse padrão.
“Quando a violência foi vivida como algo comum, ela pode ser interpretada como amor”, explica.
Medo do abandono e controle emocional sustentam vínculos abusivos/Foto: Reprodução
Esse aprendizado distorcido faz com que o abuso seja reconhecido, mas não necessariamente rompido.
Para superar esse tipo de relação e evitar repetições, Samara é enfática: psicoterapia e rede de apoio são fundamentais. Investir em autoconhecimento, autocuidado e reconstrução da própria identidade é parte essencial do processo.
“É preciso devolver a energia psíquica para si. Cuidar da saúde mental, retomar interesses, estabelecer limites e entender que, mesmo em um relacionamento, somos sujeitos únicos”, afirma.
Por fim, a psicóloga fala do poder da escolha consciente na autoestima. “Hoje, é possível escolher — e escolher também não aceitar qualquer coisa. Quando a gente se cuida, entende que não é qualquer relação que merece espaço.”
