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Quando a violência contra a mulher muda de alvo, e segue matando

Por Mayra Villasante para o ContilNet

Enquanto a violência contra a mulher for tratada como pauta secundária, ela seguirá cobrando o preço mais alto: a morte.

Advogada Mayra Villasante | Foto: Cedida

Não aguentamos mais falar sobre violência de gênero no Brasil. Ainda assim, este é um tema que precisa continuar em pauta — com seriedade, constância e compromisso. Porque, por mais repetido que pareça, o problema não diminui pelo cansaço de quem denuncia; diminui quando a sociedade decide enfrentá-lo de forma estrutural.
Que se trata de uma chaga crônica, com raízes profundas, não há dúvida. Em 2025, cerca de 3,7 milhões de brasileiras foram vítimas de violência doméstica ou familiar no país, segundo números divulgados em canais oficiais. Entre as agressões mais recorrentes, predominam a violência física e a violência psicológica, duas faces de um mesmo mecanismo de controle que, quase sempre, evolui em escalada.
O medo ainda governa a vida de muitas vítimas. Em parte, pela dependência financeira; em parte, pela descrença na punição — que não nasce do nada, mas da experiência coletiva de boletins de ocorrência que não viram investigação, de medidas protetivas descumpridas, de processos que se arrastam, de portas fechadas quando a urgência é agora. E é justamente nessa combinação — vulnerabilidade e impunidade — que o agressor aposta.
Nos últimos tempos, um termo passou a circular com força nas redes sociais e nos noticiários: a violência (ou vingança) vicária. O assunto ganhou destaque após uma tragédia no interior de Goiás, em que um homem, inconformado com o término do relacionamento, tirou a vida dos próprios filhos com a intenção explícita de “punir” a mãe, sua ex-companheira. O episódio choca — e precisa chocar —, mas o que ele revela é ainda mais perturbador: há violências que não se contentam em atingir a mulher diretamente; elas buscam destruir o que nela é mais vulnerável.
A violência vicária pode ser descrita como uma das formas mais cruéis de violência de gênero. Nela, o agressor — frequentemente um ex-companheiro — utiliza terceiros para ferir a mulher de maneira indireta. Na prática, isso significa instrumentalizar pessoas, vínculos e afetos: os filhos, os animais, objetos de valor emocional, familiares próximos. O alvo final é sempre a mulher, mesmo quando o golpe recai sobre outro.
O conceito foi desenvolvido pela psicóloga forense argentina Sonia Vaccaro, referência internacional na psicologia clínica e forense. Para ela, trata-se da violência “exercida contra os filhos(as), objetos, animais ou pessoas afetivamente significativas para a mulher, com o objetivo de machucá-la”. Em outras palavras: o agressor desloca a agressão para aquilo que ele sabe que terá o maior impacto emocional, como forma de prolongar o controle, reafirmar poder e impor sofrimento.
É um tipo de violência que, além de devastadora, costuma ser difícil de nomear e, por isso mesmo, difícil de enfrentar. Muitas vezes, aparece travestida de “disputa de guarda”, “desentendimento familiar”, “problema do casal”. A linguagem cotidiana tenta suavizar o que é, na essência, uma estratégia de dominação. Nomear importa porque dá visibilidade, organiza políticas e orienta decisões judiciais. Quando falta nome, sobra negligência.
No Brasil, a violência vicária ainda enfrenta desafios de reconhecimento jurídico explícito, mas o debate já chegou ao Congresso Nacional. Tramita o PL nº 3.880/2024, de autoria da deputada federal Laura Carneiro, que busca alterar a Lei Maria da Penha para incluir a violência vicária entre as definições de violência doméstica e familiar contra a mulher. É um passo relevante, embora não suficiente: lei é ferramenta; sem estrutura e execução, vira enfeite institucional.
E é justamente aí que mora o ponto mais incômodo. No Brasil, ainda estamos longe de superar essa “pandemia silenciosa”, não por falta de discurso, mas por falta de prioridade real. O governo prometeu destinar R$ 2,5 bilhões para prevenção, mas apenas 5,3% teria sido efetivamente gasto com essa finalidade. O resultado é o que se vê: rede de proteção frágil, atendimento irregular, baixa capacidade de resposta e, muitas vezes, a mensagem implícita de que a vítima deve “dar um jeito” com a própria vida.
No início de fevereiro de 2026, foi lançado o chamado “Pacto Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio”, com ampla divulgação. A campanha foi grande, ruidosa, visualmente imponente. O problema é que, sem política pública nova e sem mecanismos concretos de financiamento e execução, o risco é que tudo se resuma à comunicação. E comunicação, por si só, não segura agressor, não garante abrigo, não mantém delegacia aberta, não fiscaliza medida protetiva, não coloca equipe multiprofissional na ponta.
Os números não permitem maquiagem: apenas 12% das delegacias funcionam 24 horas; há o registro de uma mulher morta a cada 6 horas; e foram 1.518 feminicídios em 2025. São dados que deveriam produzir comoção contínua, não indignação de ocasião.
Ao mesmo tempo, o país mostra que sabe operar rapidamente quando quer. Em poucas semanas, foram liberados R$ 127 milhões para o Carnaval; instalaram-se câmeras com inteligência artificial nos blocos; montaram-se delegacias móveis; organizou-se logística, segurança, tecnologia e presença estatal. O evento movimenta bilhões, gera empregos, aquece a economia. Nada disso é, em si, condenável. A pergunta é outra — e ela é inevitável: se o Estado consegue ser eficiente para proteger a festa, por que não consegue ser eficiente para proteger a vida?
E, sobretudo: e a mulher que pede socorro no sábado à noite? A que está trancada no banheiro, com o celular tremendo na mão. A que tem uma medida protetiva em papel, mas não tem viatura, não tem equipe, não tem para onde ir. A que sabe que, se denunciar, pode voltar para casa e ficar ainda mais exposta. A que teme perder os filhos, o trabalho, o sustento, a dignidade. A que já denunciou antes e ouviu, como resposta, que era “briga de casal”.
Ainda há muito a discutir, mas, mais do que discutir, há muito a fazer. A proteção precisa sair do papel e alcançar a vida real: plantão permanente, delegacias e atendimento 24h, casas de acolhimento, equipes psicossociais, monitoramento efetivo de medidas protetivas, resposta rápida, integração de dados, responsabilização célere e prevenção com base em evidências. E tudo isso exige orçamento, gestão e cobrança pública — não só campanhas.
Enquanto a violência contra a mulher for tratada como pauta secundária, ela seguirá cobrando o preço mais alto: a morte. E não há ranking internacional que seja mais cruel do que o luto cotidiano, repetido, naturalizado. O Brasil não precisa de mais slogans; precisa de prioridades. Porque nenhuma sociedade pode se chamar de civilizada quando uma parte dela aprende a sobreviver com medo — e a outra se acostuma com isso.
Mayra Villasante
Advogada
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