Saiba como educar crianças e adolescentes para respeitar os animais

Por AgĂȘncia Brasil 03/02/2026


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A violĂȘncia contra animais gerou um debate no paĂ­s nas Ășltimas semanas, a partir do espancamento do cĂŁo comunitĂĄrio Orelha por quatro adolescentes em FlorianĂłpolis (SC). A punição dos autores e a banalização da violĂȘncia estĂŁo no centro das discussĂ”es, assim como a prevenção, a ressocialização e as medidas educativas. Saiba como educar crianças e adolescentes para respeitar os animaisSaiba como educar crianças e adolescentes para respeitar os animais

A AgĂȘncia Brasil procurou organizaçÔes nĂŁo governamentais (ONGs) voltadas ao apoio a animais abandonados ou vĂ­timas de violĂȘncia e a prefeitura de SĂŁo Paulo, responsĂĄvel por um dos maiores programas pĂșblicos de adoção e educação ambiental, para saber como o estĂ­mulo ao contato e os cuidados com animais podem prevenir e interromper ciclos de violĂȘncia.
 


SĂŁo Paulo (SP), 30/01/2026 - Adoção de Pets  na  Casa Adote na Vila Madalena em parceria com o Instituto Ampara Animal e a ONG Encontrei um Amigo.  Foto: Paulo Pinto/AgĂȘncia Brasil

Adoção de pets na Casa Adote na Vila Madalena em parceria com o Instituto Ampara Animal e a ONG Encontrei um Amigo – Foto Paulo Pinto/AgĂȘncia Brasil

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O instituto Ampara Animal, que atua hĂĄ 15 anos promovendo açÔes de cuidado, discussĂ”es pĂșblicas e apoio a abrigos e centros de adoção em todo o paĂ­s, começarĂĄ, nos prĂłximos dias, a campanha “Quebre o Elo”, que chama a atenção para a gravidade da violĂȘncia.

A organização parte do pressuposto de que a violĂȘncia com animais pode ser reflexo de outras Ă s quais o praticante estĂĄ exposto, sejam direcionadas a si ou a pessoas de seu convĂ­vio. AlĂ©m disso, é um importante indicador da possibilidade de outras violĂȘncias, principalmente contra grupos mais vulnerĂĄveis, como crianças, mulheres e idosos. 

“Temos que tentar ensinar saindo de uma visĂŁo e uma educação antropocĂȘntricas. A Ampara sempre entendeu que a educação Ă© o caminho para transformar em melhor a vida dos animais, principalmente quando voltada a crianças e adolescentes”, disse RosĂąngela Gerbara, diretora de relaçÔes institucionais da Ampara.

Ela explicou que esse modelo Ă© chamado de ‘educação humanitĂĄria em bem-estar animal’ e considerada uma solução para criar uma sociedade mais empĂĄtica, com menos violĂȘncia e com maior respeito. 

Para RosĂąngela, essa aproximação tem que ser feita de forma gradual, sempre ensinando a criança a ser gentil com os animais, a respeitar o tempo e o comportamento de cada espĂ©cie, de preferĂȘncia levando-a para ver os animais na natureza ou em locais que tĂȘm relação maior com o ambiente e modos de vida naturais. O desenvolvimento da empatia, defende, requer a interação com animais e ajuda a criança a entender os sentimentos e as necessidades do outro, o respeito e a reduzir comportamentos de violĂȘncia e intolerĂąncia. 

Quebrar a perspectiva do animal como um objeto ou um produto é outro passo importante. Viviane Pancheri é voluntåria hå 15 anos na ONG Toca Segura, que cuida de cerca de 400 animais em um abrigo no Guarå II, no Distrito Federal (DF), e em uma unidade maior na cidade do Novo Gama, em Goiås. O Toca desenvolveu por anos uma iniciativa direta em escolas do DF.

“É importante que as crianças tenham a percepção de que os animais sentem medo, abandono, felicidade, enfim, que sĂŁo sencientes [ indivĂ­duos capazes de sentir, perceber o mundo e vivenciar emoçÔes]”, explica.

No abrigo, recebem famílias, que ajudam como voluntårias, pontualmente ou com maior periodicidade. Lå realizam o que chama de educação empåtica, mostrando ao outro como o cuidado e a atenção são importantes. A partir daí, trabalham valores e a forma como as crianças percebem o cuidado, jå no convívio com os cães da Toca.
 


SĂŁo Paulo (SP), 30/01/2026 - Adoção de Pets  na  Casa Adote na Vila Madalena em parceria com o Instituto Ampara Animal e a ONG Encontrei um Amigo.  Foto: Paulo Pinto/AgĂȘncia Brasil

Aproximação com animais Ă© importante no combate Ă  violĂȘncia – Foto Paulo Pinto/AgĂȘncia Brasil

Essa interação Ă© sempre pensada com bastante cuidado, tanto para acolher a criança quanto para nĂŁo expor os animais a estresse ou alguma violĂȘncia.

“Lidamos com animais que jĂĄ passaram por situaçÔes de abandono e de violĂȘncia. Alguns passaram privaçÔes, outros tĂȘm um pouco mais de dificuldade, sĂŁo mais arredios”, afirma Viviane.

Para promover esses momentos de troca, uma das estratégias que adotaram foi promover pequenos eventos. Entre eles estão os domingos de passeio. Voluntårios pegam um animal e o levam para um passeio. Råpido, breve, mas importante, pois acostuma os animais com a presença humana, os torna mais dóceis e isso ajuda na busca por famílias para adoção. Crianças que atuam nesses eventos também desenvolvem a interação com os animais.

“Um caso que sempre gosto de contar é o de uma menina que começou a nos ajudar aos 15 anos. Ela tinha medo de cachorro e nos procurou para perder esse medo. NĂŁo demorou muito e jĂĄ conseguia fazer uma sĂ©rie de tarefas de cuidado. Hoje Ă© veterinĂĄria”, conta, emocionada.

Os voluntårios também apoiam as feirinhas de adoção, mantendo os animais limpos e hidratados. No Toca, essa função é realizada principalmente por adolescentes. Esse tipo de ação leva a acostumar com o trato comum e a importùncia que a rotina tem para os animais.

“É parecido com o cuidado com os animais comunitĂĄrios. O exemplo Ă© importante. Se tem um vizinho ou parente que tem um animal, Ă© recomendado levar a criança para conhecĂȘ-lo. Ela aprende muito com o exemplo”.

Segundo Viviane, para as crianças maiores e adolescentes, existe a questão da responsabilidade.

“É trazer esses animais para perto, mostrar a importĂąncia de ter esse cuidado, de forma supervisionada. NĂŁo deixar a criança solta, dizendo olha, isso Ă© errado, isso se faz desse jeito. A supervisĂŁo na construção da responsabilidade Ă© muito importante, tambĂ©m para os cĂŁes comunitĂĄrios. Alimentar, por exemplo, os animais na rua Ă© uma Ăłtima maneira. VĂȘ-la oferecer, fazer boas açÔes e elogiar isso, o que leva à formação de um ser humano melhor”, diz.

Programas pĂșblicos 

Com abrigos pĂșblicos, a prefeitura de SĂŁo Paulo tem hoje um centro de adoçÔes com centenas de animais, principalmente cĂŁes e gatos. O foco do programa municipal de adoçÔes Ă© a promoção da guarda responsĂĄvel e da educação ambiental. O espaço recebe grupos escolares, de atĂ© 30 crianças, com mediação do contato com os animais e o objetivo de criar consciĂȘncia nos pequenos, que agem como multiplicadores em seus lares.
 


SĂŁo Paulo (SP), 30/01/2026 - Adoção de Pets  na  Casa Adote na Vila Madalena em parceria com o Instituto Ampara Animal e a ONG Encontrei um Amigo.  Foto: Paulo Pinto/AgĂȘncia Brasil

AçÔes educativas sĂŁo estratĂ©gias para combater violĂȘncia contra animais, dizem organizaçÔes nĂŁo governamentais – Foto Paulo Pinto/AgĂȘncia Brasil

“A criança Ă© um agente multiplicador, leva para sua famĂ­lia e sua comunidade informaçÔes e o entendimento de como Ă© importante respeitar os animais”, explica Telma Tavares, da Secretaria Municipal de SaĂșde, gestora do espaço.

O foco da estratégia é usar a sensibilização, durante as visitas, como porta de entrada para as orientaçÔes. O projeto, chamado SuperguardiÔes, começou em 2019 e funciona por agendamento. Em 2025 foram mais de 1.900 visitantes. A esse programa de portas abertas, se soma outro de visitação dedicado aos pequenos que estão em alfabetização. O programa Leituras leva os pequenos a lerem para os cães e gatos do Centro Municipal de Adoção.

Segundo Telma, parte das escolas aproveitou e incluiu a iniciativa no processo de letramento: as crianças não apenas liam histórias para os animais, mas passaram a conhecer sua trajetória e a escrever sobre os bichinhos.

“SĂŁo açÔes que facilitam a adoção posterior. Os animais vĂŁo se tornando mais dĂłceis, se acostumando com as visitas. Claro que tomamos o cuidado de selecionar aqueles que nĂŁo sĂŁo agressivos, mas esse contato ajuda, inclusive, a conscientizar e educar para prĂĄticas sustentĂĄveis”, afirma Telma.


SĂŁo Paulo (SP), 30/01/2026 - Adoção de Pets  na  Casa Adote na Vila Madalena em parceria com o Instituto Ampara Animal e a ONG Encontrei um Amigo.  Foto: Paulo Pinto/AgĂȘncia Brasil

Sensibilização Ă© porta de entrada para combater violĂȘncia contra animais – Foto Paulo Pinto/AgĂȘncia Brasil

O processo de adoção, que resulta muitas vezes da convivĂȘncia e do cuidado com animais, tem algumas regras de ouro. Essas sĂŁo algumas, sugeridas por Telma e Viviane:

  • considerar se todos os membros da famĂ­lia estĂŁo de acordo e conscientes das responsabilidades que terĂŁo com o animal;
  • pensar de forma realista se a famĂ­lia tem condiçÔes de cuidar. NĂŁo apenas em relação Ă  questĂŁo material, mas tambĂ©m a ter tempo e condiçÔes de adaptar a rotina;
  • refletir se o planejamento de vida da famĂ­lia se adequa Ă  adoção;
  • planejar, para evitar abandono e manter cuidados de forma adequada.

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