“Não é uma dor que passa. É uma dor constante, que te obriga a aprender a conviver com ela todos os dias”. É assim que a professora universitária Gabriella de Lima Brasil, de 27 anos, descreve a realidade de quem vive com fibromialgia. O depoimento resume o espírito do Fevereiro Roxo, campanha nacional dedicada à conscientização sobre doenças crônicas sem cura, como a fibromialgia, o lúpus e o Alzheimer.
Diagnosticada após anos de tratamentos equivocados, Gabriella conta que a fibromialgia transformou completamente sua vida. Foto: arquivo pessoal
A campanha tem inclusive objetivos certeiros: informar, combater o preconceito e promover empatia. Além da fibromialgia, o mês chama atenção para o lúpus e o Alzheimer, doenças crônicas que exigem diagnóstico precoce e acompanhamento contínuo.
SAIBA MAIS: Projeto de lei propõe atendimento prioritário a pessoas com fibromialgia em Rio Branco
Diagnosticada após anos de tratamentos equivocados, Gabriella conta que a doença transformou completamente sua vida. “A minha vida mudou 100%: pessoal, profissional e emocional. Você precisa reaprender a viver em sociedade, e isso já é difícil normalmente, quanto mais nessas condições”, relata.
A fibromialgia é uma condição reumatológica caracterizada por dores musculares crônicas e generalizadas, além de fadiga intensa, distúrbios do sono, ansiedade, depressão e dificuldades cognitivas. Por não apresentar sinais visíveis, ainda é alvo de descrédito e preconceito. “As pessoas não acreditam porque não conseguem ver. Não é uma deficiência visível. Já sofri preconceito em fila de banco, supermercado e até em consultas médicas”, afirma. Segundo ela, mesmo com laudo e carteirinha que comprovam a condição, o julgamento social persiste. “Tem gente que acha que a gente está fingindo ou mentindo. Mas a dor é real”.
Dor, culpa e invisibilidade
Além do impacto físico, a doença afeta profundamente as relações pessoais. Gabriella explica que o cansaço extremo e as dores constantes interferem no humor e na convivência social. “Às vezes a gente só precisa ficar quieta, sozinha, mas as pessoas não entendem e a gente acaba se sentindo culpada”.
O apoio familiar em relação à fibromialgia, segundo ela, foi um processo difícil, mas fundamental. Foto: arquivo pessoal
O apoio familiar, segundo ela, foi um processo difícil, mas fundamental. “Meu pai foi atrás de estudar, de aprender sobre a fibromialgia. Hoje, minha família entende que não é falta de vontade, não é culpa minha”, diz. “O acolhimento muda tudo”.
Sem cura, a fibromialgia exige acompanhamento constante. Gabriella faz tratamento psicológico e psiquiátrico há anos e mantém uma rotina intensa de atividades físicas. “Eu corro, nado, faço musculação, yoga, pilates. Quanto mais ativa eu me mantenho, melhor é minha qualidade de vida”, explica.
Ela reforça que o tratamento não se resume a medicamentos. “Se eu não fizer terapia, se eu não me movimentar, se eu não tiver rotas de fuga emocionais, tudo desmorona”.
No Acre, um avanço importante ocorreu em 2023, com a promulgação da Lei nº 4.174, que reconhece pessoas com fibromialgia como pessoas com deficiência. “Hoje eu consigo viver bem, dentro do possível. Tenho uma vida quase ‘normal’, entre aspas. Mas isso só foi possível com informação, tratamento e apoio”, conclui Gabriella.
O que é fibromialgia
A fibromialgia é uma síndrome crônica caracterizada por dor musculoesquelética generalizada que persiste por mais de três meses, sem sinais de inflamação local. A condição costuma surgir após infecções, traumas físicos ou psicológicos e está relacionada a uma alteração no Sistema Nervoso Central, que passa a amplificar a percepção da dor. Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), a fibromialgia afeta cerca de 2,5% da população mundial, atingindo principalmente mulheres. A doença costuma se manifestar entre os 30 e 50 anos, podendo variar até os 55 anos.
Os principais sintomas são a dor difusa no corpo, descrita como queimação, pontadas ou sensibilidade extrema; fadiga intensa; sono não reparador; além de dificuldades de concentração e memória, conhecidas como “fibro-fog”. Ansiedade, depressão, dores de cabeça, formigamentos, tonturas e alterações intestinais também são frequentes.
O diagnóstico é clínico, baseado no histórico do paciente e na exclusão de outras doenças, já que não existem exames laboratoriais ou de imagem específicos que confirmem a síndrome.
Embora não tenha cura, o tratamento possibilita melhora significativa da qualidade de vida. Ele inclui exercícios físicos regulares, especialmente atividades aeróbicas, uso de medicamentos para controle da dor e do humor, além de acompanhamento multiprofissional, com apoio psicológico, fisioterapia e práticas de relaxamento.
