O Acre tem três unidades de conservação estaduais entre as dez mais ameaçadas pelo desmatamento na Amazônia no período de outubro a dezembro de 2025, o equivalente a 30% do ranking. Os dados fazem parte do relatório Ameaça e Pressão em Áreas Protegidas, divulgado pelo Imazon.
No mesmo levantamento, o Pará concentrou sete das dez áreas estaduais sob maior risco. Entre elas está a Floresta Estadual do Paru, que ocupou a segunda posição no ranking e já havia liderado o estudo no último trimestre de 2024.
A unidade paraense integra o maior bloco contínuo de áreas protegidas e terras indígenas do planeta e abriga a maior árvore conhecida da América Latina, um angelim-vermelho de 88,5 metros, além de outros exemplares de grande porte. Essa característica amplia a importância ambiental e estratégica da região para a conservação da biodiversidade amazônica.
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Segundo a diretora do Programa de Áreas Protegidas do Imazon, Jakeline Pereira, a floresta desempenha papel essencial na proteção do bioma. Ela destaca que, além de reunir espécies únicas, a área contribui para o equilíbrio climático e garante recursos que sustentam populações locais, como a coleta de castanha e outros produtos florestais.
O relatório utiliza metodologia distinta do Sistema de Alerta de Desmatamento. A Amazônia Legal é dividida em células de 10 por 10 quilômetros, onde são identificados registros de derrubada. Com base nesses dados, os pesquisadores classificam como pressionadas as áreas com desmatamento dentro de seus limites e como ameaçadas aquelas cercadas por destruição em um raio de até 10 quilômetros, o que permite antecipar a expansão do problema.
A pesquisadora Bianca Santos afirma que identificar essas ameaças com antecedência é decisivo para evitar que a devastação avance para dentro das unidades. Segundo ela, quando não há resposta rápida, o cenário costuma evoluir para invasões e ocupações ilegais.
Entre as áreas mais pressionadas da Amazônia, a Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, liderou o ranking entre outubro e dezembro de 2025. Em comparação com o mesmo período do ano anterior, houve redução de cerca de 40% nas áreas com registros de desmatamento, mas a unidade permaneceu na primeira posição e já vinha aparecendo em levantamentos anteriores ao longo de 2025.
O pesquisador Carlos Souza Jr. explica que a pressão indica derrubada ocorrendo dentro do território protegido, o que afeta diretamente comunidades tradicionais que dependem dos recursos naturais para sobreviver.
O estudo também aponta forte concentração das áreas sob risco no Pará, com seis unidades protegidas entre as mais pressionadas e sete entre as mais ameaçadas. No ranking geral de ameaça, a Floresta Nacional de Saracá-Taquera aparece na primeira posição, seguida pela Resex Chico Mendes.
As terras indígenas também seguem entre os territórios mais vulneráveis. No último trimestre de 2025, as TIs Trincheira/Bacajá e Arara, ambas no Pará, lideraram a lista de ameaça. Sete das dez áreas indígenas mais ameaçadas já figuravam no levantamento do mesmo período de 2024, indicando continuidade do avanço do desmatamento. Na análise de pressão, as primeiras posições ficaram com a TI Cachoeira Seca do Iriri, no Pará, e a TI Waimiri Atroari, localizada entre Amazonas e Roraima.
Para Bianca Santos, a repetição desses territórios nos rankings mostra que a destruição não ocorre de forma isolada, mas faz parte de um processo contínuo, que exige ações permanentes de fiscalização e proteção ambiental.
Estudo da Ufac aponta que segurança na posse da terra reduz o desmatamento no Acre
Um estudo liderado pelo professor João Paulo Santos Mastrangelo, do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza (CCBN) da Universidade Federal do Acre (UFAC), aponta que propriedades rurais com maior segurança na posse da terra apresentam menores taxas de desmatamento e maior cumprimento do Código Florestal no Acre. A pesquisa foi publicada na revista científica internacional World Development e analisa a relação entre governança fundiária e desmatamento na Amazônia brasileira.
O trabalho utilizou uma base de dados inédita com informações de 35.067 imóveis rurais privados registrados no Cadastro Ambiental Rural (CAR) no Acre. Juntas, essas propriedades somam cerca de 5,9 milhões de hectares, o equivalente a 36% do território estadual. O estudo avaliou o desmatamento ocorrido entre 2009 e 2018, período marcado tanto pela queda quanto pela retomada das taxas de desmatamento na Amazônia.
A análise considerou dois indicadores principais: a proporção da área desmatada em cada imóvel e a probabilidade de cumprimento do Código Florestal, que na Amazônia, em regra, limita o desmatamento a 20% da área das propriedades rurais. O estudo também diferenciou imóveis com situação fundiária regular daqueles com ocupações irregulares.
Como critério de segurança na posse da terra, os pesquisadores adotaram a ausência de sobreposição de polígonos no CAR, ou seja, a inexistência de disputas aparentes por uma mesma área. Propriedades sem sobreposição foram classificadas como tendo maior segurança fundiária, enquanto aquelas com áreas sobrepostas foram consideradas em situação de insegurança.
Os resultados indicam que imóveis com maior segurança na posse apresentaram uma proporção de área desmatada entre 1 e 2,6 pontos percentuais menor em comparação a propriedades semelhantes com insegurança fundiária. Em termos relativos, o desmatamento pode ser até cerca de um terço menor em áreas onde não há disputa por terra.

