A solidão de quem fica tem a mania cruel de brotar logo depois do fim da celebração, escondida naquele silêncio pesado que sucede a casa cheia. A vida atrai muita companhia enquanto o afeto não exige suor, mas basta a convivência encostar no osso para a ausência tomar conta da sala de uma vez.
Nenhum laço profundo sai ileso da rotina, pois a intimidade arrasta consigo uma carga indigesta de imperfeições e um atrito contínuo que esfolaria qualquer pele fina. A verdadeira lealdade prova-se nos dias difíceis e nas decisões que custam algo. A memória, porém, é um bicho de faro longo que não sossega até morder o pescoço de quem escolheu fugir, avisando que é impossível usar a porta do fundo sem deixar um pedaço de decência no caminho.
O apagamento é uma amnésia fabricada. Há quem nos ampute da própria história para não carregar o peso da gratidão, escolhendo o alívio de soltar a mão de quem pregou telha quando o vendaval sacudia a casa. É a deserção de quem só sabe ser fiel na luz, o abandono no meio do caminho de quem emudece logo que a travessia exige sacrifício e não há flashes e nem tapinhas nas costas para alimentar a vaidade.
A quem esperava a lealdade, bancar a própria cicatriz exige o esforço mudo de estancar a dor sem tentar devolvê-la. E no processo, erro. Com o tempo, o vazio que ocupa o espaço perde o corte da lâmina e vira apenas o lugar onde o sangue coagula. Aos poucos, a gente percebe que o fôlego curto de algumas companhias só consegue atravessar os dias de sol, não dá pra contar nos dias de chuva. É só observar a história. O que fica no peito é uma aceitação exausta, a certeza silenciosa de quem esteve, mesmo que aos que não estiveram.
Vinícius Charife é jornalista.

