A criatividade pode transformar crises em oportunidades e mudar vidas. Essa é a história da artesã acreana Márcia Silvia de Lima, que mudou a realidade da família quando passou a usar um hobby como trabalho para sustentar a casa e criar três filhos.
Neste domingo, 8 de março, é celebrado o Dia Internacional da Mulher, data marcada pelas lutas históricas por igualdade de direitos, melhores condições de trabalho e contra o machismo. Neste dia, a história de Márcia mostra a superação e a força da mulher.
Hoje, com 55 anos, Márcia mostra que a criatividade transforma. De uma empresária no ramo da panificação que enfrentou a falência, ela se transformou em uma das referências de biojoias no Acre, levando o nome do Acre para países como Luxemburgo, Colômbia e Espanha.
A trajetória de Márcia mudou drasticamente aos 28 anos. Com o fechamento de sua empresa e uma filha de apenas seis meses no colo, ela viu o que antes era apenas um hobby tornar-se sua principal renda. “O artesanato tem muita importância na minha vida. Hoje eu sou o que sou e tenho o que tenho, porque o artesanato supriu minhas necessidades. Eu sou pai e mãe dos meus filhos e a responsabilidade é muito grande, mas o artesanato configura isso na minha vida”, disse.
“Esse hobby veio ajudar a suprir as minhas necessidades. Comecei a ministrar cursos de design com com as peças de biojoias, e participei de várias atividades nacionais, como até hoje eu participo de feira nacional e internacional. Todos eles eu participei com muito êxito”, explicou.
Marcia Silvia já participou de eventos internacionais com as biojoias produzidas por ela/Foto: cedida
Hoje, Márcia e um grupo de mulheres, chamado Criare Biojoias, vivem exclusivamente da produção artesanal. Juntas, elas produzem entre 300 a 500 peças por mês, desde brincos e colares até itens decorativos com sementes beneficiadas da floresta.
“Hoje nós temos também um grupo de mulheres que também está na mesma linha que eu, de viver exclusivamente do artesanato e a gente que trabalha dia a dia e mostrando o nosso nosso trabalho, a nossa cultura, do nosso estado”, contou.
O prestígio da sua marca, focada no design sustentável e no uso de sementes da Amazônia, conquistou nomes de peso, como Fátima Bernardes, Ana Maria Braga, a primeira-dama Janja Lula da Silva e até a esposa do presidente francês, Emmanuel Macron, a Brigitte Macron, possuem peças criadas pelas mãos da artesã.
Essas personalidades tiveram acesso a arte produzida por Márcia após uma parceria com a estilista Flávia Aranha, que levou o trabalho artesanal da criança para o cenário da alta moda. As peças de Márcia já estiveram em desfiles em Madri e foram destaque em publicações renomadas com a revista Vogue.
Junto com outras mulheres, produziu uma alegoria inteira da Escola de Samba Beija-Flor, do Rio de Janeiro. Com o contrato com a estilista Flávia Aranha, Márcia reforça o orgulho que sente ao ver o próprio nome batizando as peças que produz em sites.
Apesar do sucesso, os desafios de ser uma mulher artesã na Região Norte são diários. Márcia destaca que a logística e o preconceito local ainda são barreiras. “A minha tristeza é que no Acre o povo não dá valor ao produto dos artesãos. Por isso apostamos tanto nas feiras nacionais; lá fora, as pessoas dão muito valor ao nosso trabalho”, disse.
Além do mercado, há o desafio físico. Para conseguir a matéria-prima, Márcia e seu grupo trabalham diretamente com extrativistas, enfrentando ramais e o rigoroso inverno amazônico para coletar e tratar sementes. Na oficina, Márcia também aprendeu a dominar maquinários pesados e perigosos, antes vistos como ferramentas masculinas. “Hoje trabalho com qualquer equipamento, sem medo nenhum”, afirma com orgulho.
“O artesanato não é tão bonito como a pessoa já vê na loja, até chegar lá passou por um processo. Os equipamentos são perigosos, porque o artesão não tem o equipamento próprio para fazer a peça, mas participamos de muitas palestras na questão de segurança do trabalho e a questão dos EPI, hoje a gente tem isso”, explica.
Artesanato como principal renda
Para Márcia, o artesanato foi o motor que permitiu realizar seu maior sonho: educar seus três filhos. Com a renda que as biojoias davam, ela formou a filha mais velha em Administração e Letras, e agora encaminha o filho para a conclusão do curso de Engenharia Florestal.
“Minha mãe dizia que a maior herança que se deixa para um filho é o estudo. E eu faço isso com muito esforço através do meu trabalho”, diz Márcia, que na próxima semana embarca para Brasília para mais um evento nacional, com tudo pago, colhendo os frutos de uma semente que plantou há quase três décadas.
A artesã trabalha no ramo desde o final da década de 80. Hoje, Márcia recebe encomendas de diversas partes do país. “O artesanato, ele veio para mudar a minha vida, mudar a minha história”, afirma.
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