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Dia da Mulher: professora e parteira, conheça a história de Maria José

Por Ricardo Amaral, ContilNet

Em um tempo em que o acesso à saúde era extremamente difícil nas regiões mais isoladas, ela também se tornou parteira, ajudando dezenas de crianças a virem ao mundo. Foto: Reprodução

Em meio a tantas histórias que marcam a vida das comunidades do interior do Acre, algumas se destacam pela força, pelo amor ao próximo e pela dedicação ao bem coletivo. Na data em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a trajetória de Maria José Lira de Almeida, de 77 anos, emociona moradores de Sena Madureira e representa a essência da mulher acreana: guerreira, generosa e determinada. Nascida na comunidade Tabatinga, às margens do Rio Iaco, dona Maria cresceu em um tempo em que a vida no interior exigia coragem e muito esforço diário. Ainda jovem, aprendeu que ajudar o próximo era uma missão que dava sentido à vida.

Após se casar com o senhor Chico Almeida, com quem construiu uma linda história de companheirismo e está casada há 60 anos, ela se mudou para a região do Rio Caeté. Foi ali, em meio às dificuldades e à simplicidade da vida ribeirinha, que começou a escrever uma história que jamais seria esquecida por quem conviveu com ela. Com forte participação na igreja católica e espírito de liderança, dona Maria atuava como monitora da comunidade. Seu compromisso e dedicação chamaram a atenção do saudoso padre Paolino, que confiou a ela uma missão transformadora: tornar-se a primeira professora da comunidade Granja.

Em uma época em que muitas crianças não tinham acesso à escola, dona Maria passou a ensinar com paciência, carinho e dedicação. Na pequena sala de aula improvisada, ela ajudou a alfabetizar centenas de crianças, plantando sonhos e abrindo caminhos para um futuro melhor.

Entre os alunos estavam também seus próprios filhos Gilberto, Altemir, Maria, Gersineide e Gessy, que cresceram acompanhando de perto o exemplo da mãe e hoje são todos formados. A família ainda acolheu com amor Jonas, filho de criação que recebeu o mesmo cuidado e educação.

Em um tempo em que o acesso à saúde era extremamente difícil nas regiões mais isoladas, ela também se tornou parteira. Foto: Reprodução

Mas a missão de dona Maria na comunidade ia muito além do ensino.

Em um tempo em que o acesso à saúde era extremamente difícil nas regiões mais isoladas, ela também se tornou parteira, ajudando dezenas de crianças a virem ao mundo. Muitas mães lembram até hoje da presença calma e segura daquela mulher que chegava para ajudar nos momentos mais delicados da vida.

Mesmo com tantas responsabilidades, ela ainda dividia o tempo ajudando o marido nas tarefas do dia a dia. Trabalhava como agricultora, pescadora, cuidava da casa e da família, sempre mantendo o coração aberto para quem precisasse. Com o passar dos anos e os filhos crescendo, o casal decidiu se mudar para a cidade para garantir que todos pudessem continuar os estudos. A mudança, porém, não diminuiu o compromisso de dona Maria com as pessoas do interior.

Sua casa passou a ser um verdadeiro ponto de acolhimento para moradores da zona rural que chegavam à cidade em busca de ajuda. Com paciência e generosidade, ela orientava homens e mulheres simples a conseguirem documentos e aposentadorias, em uma época em que tudo era muito mais difícil e burocrático. Ao lembrar de tudo que viveu, dona Maria se emociona. Com os olhos marejados, ela resume sua trajetória com humildade e gratidão.

“Naquele tempo a gente tinha que se virar. Não tinha esses benefícios como hoje. Eu sempre fiz questão de ajudar quem estava ao meu redor sem esperar nada em troca. Mas Deus sempre me deu o dobro. Eu me sinto uma mulher realizada. Quando vejo meus filhos todos formados e pessoas que eu ensinei a ler hoje com faculdade e sendo pessoas de bem… isso não tem preço”, disse.

Hoje, morando no bairro Cidade Nova, em Sena Madureira, dona Maria continua sendo uma figura respeitada e muito querida. Sua casa permanece de portas abertas, recebendo amigos, antigos alunos e moradores da zona rural que nunca esqueceram o bem que ela fez.

“Naquele tempo a gente tinha que se virar. Não tinha esses benefícios como hoje”, diz dona Maria. Foto: Reprodução

A história de Maria José Lira de Almeida é daquelas que aquecem o coração e lembram que a verdadeira grandeza está nos gestos simples de quem dedica a vida a cuidar dos outros. Um exemplo vivo de fé, amor e da força transformadora da mulher acreana.

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