A todo momento, sempre há uma discussão sobre o peso ideal: enquanto muitos falam em romantização da obesidade, outros enfatizam que a beleza, de fato, está no corpo magro. No Dia Mundial da Obesidade, celebrado nesta terça-feira (4), o ContilNet conversou com Marcos Santana, médico que atua há 15 anos no tratamento de sobrepeso e obesidade. Para ele, há sim uma mudança real no comportamento alimentar da população, embora não esteja ocorrendo de forma homogênea.
“Isso vem acontecendo nos últimos anos com o avanço nos tratamentos medicamentosos para sobrepeso e obesidade, e sobretudo pelo aumento no nível de consciência da população mundial sobre a doença obesidade”, afirma.
Segundo ele, a busca por longevidade tem sido um fator determinante. “A longevidade, que é viver mais tempo e com qualidade, é um desejo de vários públicos”, destaca.
LEIA TAMBÉM: Obesidade: Procedimento sem cortes surge como alternativa à bariátrica e às canetas emagrecedoras
De acordo com o especialista, a transformação não se limita a adultos com doenças associadas ao excesso de peso.
“Desde o adulto com várias doenças e complicações decorrentes do excesso de peso, temos hoje também adolescentes mudando muito o padrão de consumo alimentar, optando por alimentos mais saudáveis por conta da onda global de estar bem. A obesidade vem deixando de ser vista como ‘normal’ e está sendo tratada como doença que gera problemas”, pontua.
Impacto no mercado e mudança de consumo
A mudança de comportamento já começa a impactar grandes setores da economia. Redes internacionais de fast-food, como o McDonald’s, vêm adaptando seus cardápios para atender um público que faz uso de medicamentos para emagrecimento e busca opções menos calóricas.
Para o médico, trata-se de uma tendência mundial. “Há uma redução de quase 10% no consumo de ultraprocessados após o aumento do uso dos novos medicamentos para obesidade. É uma tendência mundial reduzir o consumo desses alimentos e de bebidas alcoólicas, o que vai diminuir a evolução para doenças como diabetes, hipertensão e outras decorrentes da obesidade”, explica.
“Temos hoje também adolescentes mudando muito o padrão de consumo alimentar”, diz Marcos Santana. Foto: acervo pessoal
O perigo das “dietas emprestadas”
Apesar do avanço na consciência alimentar, o especialista faz um alerta sobre os riscos da desinformação nas redes sociais. “A onda digital vem trazendo ‘gurus’ da informação, que muitas vezes é desinformação, sem base científica alguma, relacionada a experiências pessoais”, afirma.
Ele explica que muitas pessoas acabam reproduzindo estratégias que funcionaram para influenciadores digitais, sem considerar individualidades biológicas e clínicas.
“O ser humano prefere começar por algo que alguém está fazendo e que está dando certo, porque é mais fácil. Mas quando dá certo, geralmente é no curto prazo. A maioria das vezes não dá certo a médio e longo prazo, porque quem propaga aquela vivência está sendo acompanhado por vários profissionais para dar o suporte necessário. E várias pessoas acabam ‘emprestando’ o meio, desejando o mesmo fim”, ressalta.
A frustração, segundo ele, é comum. “O que dá certo para Maria pode não dar certo para João, e isso gera uma sensação negativa. A pessoa abandona aquela mudança temporária ‘emprestada’”, completa.
Risco do extremismo alimentar
No consultório, o médico afirma que um dos erros mais frequentes é a busca por uma alimentação “perfeita”, sem orientação adequada. “Saber comer saudável qualquer pessoa sabe. Mas como fazer isso para ter resultados duradouros, precisa de ajuda profissional”, destaca.
Ele reforça que o primeiro passo é compreender a origem do problema. “O importante é entender o que está errado para fazer do jeito certo. Muitos indivíduos demoram para buscar ajuda e investem em medidas simples, que geram resultados insatisfatórios e levam à desistência da mudança de comportamento alimentar”, explica.
Marcos Santana. Foto: Acervo pessoal
No Dia Mundial da Obesidade, o principal recado, segundo o especialista, é tratar a condição com seriedade e base científica.
A obesidade deixou de ser encarada como uma questão meramente estética e passou a ser reconhecida como doença crônica, associada a complicações como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e redução da expectativa de vida.

