Em cinco anos, feminicídios deixaram 111 crianças órfãs no estado do Acre

A legislação foi aprimorada em 2025 para ampliar sua efetividade

Por Matheus Mello, ContilNet 05/03/2026 Atualizado: hĂĄ 1 mĂȘs

Entre 2021 e 2025, o Acre registrou 111 crianças e adolescentes que perderam a mĂŁe em decorrĂȘncia de feminicĂ­dio. O nĂșmero expĂ”e uma face ainda mais dolorosa da violĂȘncia de gĂȘnero no estado: os ĂłrfĂŁos que ficam apĂłs o crime. Diante dessa realidade, o fortalecimento da polĂ­tica pĂșblica que ampara esses menores entrou no centro do debate institucional nesta quarta-feira (4).

A presidente do Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC), conselheira Dulce BenĂ­cio, reuniu representantes dos Poderes Executivo, Legislativo e JudiciĂĄrio, alĂ©m de integrantes do sistema de Justiça e da rede de proteção social, para alinhar medidas voltadas Ă  efetiva implementação da PolĂ­tica Estadual de Proteção e Atenção Integral aos ÓrfĂŁos e ÓrfĂŁs de FeminicĂ­dio.

VEJA TAMBÉM: NĂșmero de vĂ­timas de feminicĂ­dio supera em 38% registros oficiais

No Brasil, em mĂ©dia, quatro mulheres sĂŁo vĂ­timas de feminicĂ­dio por dia. No Acre, a mĂ©dia Ă© de um caso por mĂȘs. Cada ocorrĂȘncia, alĂ©m de interromper uma vida, deixa filhos que passam a enfrentar nĂŁo apenas o luto, mas tambĂ©m impactos sociais, emocionais e econĂŽmicos profundos.

A polĂ­tica estadual foi instituĂ­da pela Lei Estadual nÂș 4.065/2022 e prevĂȘ apoio psicossocial, acompanhamento institucional, acesso Ă  educação e auxĂ­lio financeiro Ă s crianças e adolescentes afetados. A legislação foi aprimorada em 2025 para ampliar sua efetividade.

FEMINICIDIOTCE

ReuniĂŁo aconteceu nesta quarta-feira no TCE/Foto: Assessoria

Durante o encontro, Dulce Benício destacou que o enfrentamento ao feminicídio exige respostas estruturadas e atenção especial às vítimas indiretas.

A dor causada pelo feminicĂ­dio nĂŁo se encerra no ato criminoso. Ela se prolonga na vida dos filhos que permanecem e precisam do amparo do Estado, afirmou. Segundo ela, o compromisso das instituiçÔes Ă© garantir que a polĂ­tica pĂșblica se traduza em proteção concreta, dignidade e oportunidades.

A conselheira Naluh Gouveia, que tem atuado na articulação técnica da pauta, ressaltou que muitas das mulheres vítimas eram arrimo de família, o que agrava ainda mais a situação dos filhos. Para ela, a política representa também o reconhecimento de uma responsabilidade coletiva do Estado diante dessas falhas.

O presidente da Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), deputado Nicolau JĂșnior, lembrou que a lei foi aprovada em 2022 e ajustada neste ano, demonstrando que o tema segue como prioridade. Ele afirmou que o Parlamento estĂĄ disposto a contribuir, inclusive na garantia de previsĂŁo orçamentĂĄria para assegurar a continuidade do benefĂ­cio.

JĂĄ a secretĂĄria de Estado da Mulher, MĂĄrdhia El-Shawwa, informou que a pasta jĂĄ recebeu quatro solicitaçÔes de auxĂ­lio financeiro, atualmente em anĂĄlise. Segundo ela, a polĂ­tica nĂŁo se limita ao pagamento do benefĂ­cio, mas envolve acompanhamento nas ĂĄreas de educação, saĂșde fĂ­sica e saĂșde mental.

Representantes do MinistĂ©rio PĂșblico, da Defensoria PĂșblica e do JudiciĂĄrio tambĂ©m participaram da reuniĂŁo. Entre os encaminhamentos definidos estĂĄ o fortalecimento da rede de proteção e a priorização dos processos de guarda das crianças que ficaram ĂłrfĂŁs.

Para o procurador-geral de Justiça, Oswaldo D’Albuquerque, a uniĂŁo das instituiçÔes Ă© fundamental. Quanto menor o nĂșmero de feminicĂ­dios, menor serĂĄ o nĂșmero de crianças ĂłrfĂŁs. Enquanto essa realidade existir, precisamos assegurar proteção e amparo aos que permanecem, afirmou.

A mobilização institucional ocorre em um mĂȘs simbĂłlico dedicado Ă s mulheres e reforça o papel do TCE-AC como indutor de polĂ­ticas pĂșblicas estruturantes.

Com informaçÔes do TCE/AC

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