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Entre terapias, cansaço e amor, mães atípicas transformam o Dia da Mulher em símbolo de resistência

Por Dry Alves, ContilNet

Mães atípicas transformam o Dia da Mulher em símbolo de resistência

Mães atípicas transformam o Dia da Mulher em símbolo de resistência/Foto: Reprodução

No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, histórias de mães que vivem a maternidade atípica ganham ainda mais significado. No Acre, mulheres que fazem parte da Associação Família Azul do Acre (AFAC) dividem uma rotina marcada por desafios intensos, amor incondicional e uma luta diária por direitos, inclusão e compreensão.

A maternidade atípica, vivida por mães de crianças com transtorno do espectro autista (TEA), exige uma reorganização completa da vida. Terapias, consultas, crises inesperadas, preconceito e a constante busca por informação fazem parte do cotidiano. Muitas dessas mulheres relatam que, em determinado momento, deixaram de ser vistas como mulheres para serem reconhecidas apenas pelo papel de cuidadoras.

Ao ContilNet, sete mães da AFAC aceitaram compartilhar suas experiências, desafios e sentimentos sobre a maternidade atípica. Em relatos marcados por sinceridade e emoção, elas falam sobre a rotina intensa de cuidados, o impacto na saúde emocional, a falta de reconhecimento social e, ao mesmo tempo, a força que encontram diariamente para seguir lutando pelos filhos.

Heloneida da Gama, mãe de João Vitor Gama

Heloneida relata que a maternidade atípica trouxe mudanças profundas em sua vida social e na forma como passou a ser vista pelas pessoas ao redor. Segundo ela, em diversos momentos deixou de ser convidada para atividades simples do cotidiano, algo que evidencia como muitas mães acabam se afastando involuntariamente da convivência social.

Heloneida da Gama/Foto: Cedida

“Sim, muitas vezes, faltas de convites para festa, tomar um chopp…”, conta. Para Heloneida, a luta das mães atípicas ainda não é reconhecida pela sociedade, que muitas vezes desconhece a intensidade da rotina dessas famílias.

Com o passar dos anos, ela diz que tem buscado resgatar pequenos momentos para si mesma. “Após os 5 anos do meu filho sim, eu tento ter esse tempo para mim, ir ao cinema, conversar com os verdadeiros, comer um lanche.” Para ela, ser mulher e mãe atípica significa viver um amor que transforma o cansaço em força diária.

Karoliny Gonçalves, mãe de Kersam Gonçalves

Para Karoliny, a maternidade atípica ocupa praticamente todos os espaços da vida, o que faz com que muitas mulheres acabem sendo vistas apenas pelo papel de cuidadoras. Ela afirma que a rotina intensa acaba reduzindo o tempo para outras dimensões da vida.

“Sim, a vida atípica pouco nos permite não ser só a mãe”, relata. Na avaliação dela, o reconhecimento da luta das mães atípicas ainda está restrito a quem vive a mesma realidade.

Karoliny Gonçalves/Foto: Cedida

A sobrecarga emocional também aparece em seu relato. “Sinceramente não, brincadeiras à parte saúde mental ficaram para outro mundo rsrs, alguns dias são de sorrisos e em outros é o choro escondido embaixo do chuveiro só pra que meu filho não veja que eu estou desmoronando.” Ainda assim, ela reforça que é preciso viver um dia de cada vez.

Danielle Freitas dos Santos, mãe de Angelina Santos Silvestre

Danielle conta que houve momentos em que a intensidade da maternidade atípica fez com que ela mesma deixasse de se enxergar como mulher. Segundo ela, a rotina de cuidados e as cobranças sociais acabaram impactando sua identidade pessoal.

“Sim, até porque houve momentos que até eu mesma deixei de me enxergar como mulher. Foram tantos momentos de dor que eu mesma me perdi de mim.” Ela também lembra que muitas famílias enfrentam cobranças para que as crianças se encaixem em padrões considerados normais.

Danielle Freitas dos Santos/Foto: Cedida

A falta de compreensão social, segundo Danielle, reforça a invisibilidade da causa. “Infelizmente não, porque são tantas nuances que entendo até que, de alguma maneira, a sociedade não consegue visualizar.” Ela também relata que enfrentou depressão e obesidade durante esse processo, até conseguir retomar o autocuidado e reorganizar a própria vida.

Rauana Batalha Albuquerque Mendes, mãe de Amora Albuquerque Mendes

Rauana afirma que manter a própria identidade dentro da maternidade atípica exige esforço constante. Segundo ela, a dedicação às necessidades da filha muitas vezes faz com que as mães deixem de lado gostos pessoais e hábitos do cotidiano.

“Sim. Na verdade, é uma busca intensa para não se perder de si. Já me perdi algumas vezes e recorri à terapia, pois estava adoecida.” Ela lembra que até pequenas escolhas passaram a ser adaptadas para evitar crises da filha.

Rauana Batalha Albuquerque Mendes/Foto: Cedida

 

Para Rauana, a sociedade até percebe a existência dessas dificuldades, mas muitas vezes prefere ignorá-las. “Acredito que percebe, mas não liga, porque não é problema deles.” Mesmo diante das dificuldades, ela define a maternidade atípica como um renascimento diário.

Maria Leonilza Gomes Silva, mãe de Eduardo Gomes da Silva

Maria Leonilza afirma que a maternidade atípica também mudou a forma como passou a ser vista socialmente. Segundo ela, a dedicação ao filho acaba ocupando grande parte do tempo e das prioridades.

“Acho que sim”, responde ao ser questionada se já se sentiu vista apenas como mãe. A rotina intensa faz com que, na maioria das vezes, o filho a acompanhe em praticamente todas as atividades do dia a dia.

Maria Leonilza Gomes Silva/Foto: Cedida

“Quase sempre tenho que levar meu filho comigo, a não ser para fazer unha ou cabelo.” Ela também relata que o diagnóstico trouxe impactos significativos para sua saúde emocional, mas reforça que a força para continuar vem do amor pelo filho.

Bárbara Maia, mãe de Eduardo Jorge

Bárbara relata que a mudança na forma como passou a ser vista começou ainda durante a gravidez. Para ela, muitas vezes a sociedade demonstra empatia de forma superficial, sem compreender de fato os desafios enfrentados pelas famílias atípicas.

“Sim e não, os que demonstram empatia demonstram com olhar de pena, com misto visível de alívio por não ser com eles.” Segundo ela, encontrar empatia verdadeira ainda é algo raro.

Bárbara Maia/Foto: Cedida

Ela também destaca a importância da rede de apoio e do autocuidado. “Quando eu não conseguia tirar um tempo para mim eu estava definhando, a ponto de perder a visão de um olho por pura falta de cuidados.” Hoje, ela afirma que reservar momentos para si mesma é essencial para manter o equilíbrio emocional.

Katianny Poesrch, mãe de Pedro Luis

Katianny afirma que a maternidade atípica redefiniu completamente a forma como passou a ser vista pelas pessoas ao redor. Segundo ela, muitas mulheres acabam sendo rotuladas apenas como mães guerreiras, deixando de lado outras dimensões da própria identidade.

“Várias vezes deixamos de ser vistas como uma mulher que pode ser capaz de realizar sonhos, para ser vista como a mãe guerreira e batalhadora.” Ela também acredita que existe uma distância entre o discurso de apoio e a prática social.

Katianny Poesrch/Foto: Cedida

Na rotina diária, encontrar tempo para si mesma ainda é um desafio. “No cotidiano acabo fazendo sempre o que é preciso ao meu redor, mas pra mim sempre fica de lado.” Mesmo assim, ela afirma que desistir não é uma opção e que a luta pelos filhos continua todos os dias.

As histórias dessas mulheres mostram que o Dia Internacional da Mulher também é um momento de reconhecer a força de mães que enfrentam uma maternidade marcada por desafios constantes, mas também por um amor profundo que sustenta cada passo da caminhada.

Mais do que enfrentar consultas, terapias, crises e a rotina exaustiva de cuidados, mães atípicas aprendem a reconstruir a própria vida todos os dias. Entre o cansaço e a esperança, elas seguem firmes, transformando amor em força para continuar lutando pelos filhos, mesmo quando o mundo parece não compreender sua caminhada. No Dia Internacional da Mulher, as histórias dessas mães revelam que ser mulher também é resistir, recomeçar quantas vezes for preciso e encontrar, no amor pelos filhos, a coragem para enfrentar cada novo amanhecer.

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