Conteúdo XP O mercado premia resultados. No entanto, a ciência mostra que a busca cega por sucesso pode corroer a saúde mental silenciosamente. Em um ambiente que valoriza a performance constante, muitos profissionais acabam confundindo reconhecimento com bem-estar — e pagam um preço emocional alto por isso.
Nesse contexto, a psicóloga Carina Pirró, convidada do episódio 11 da 4ª temporada do programa Mapa Mental, no canal GainCast, apresentou evidências científicas que desafiam uma das crenças mais difundidas no mundo corporativo e no mercado financeiro: a ideia de que primeiro vem o sucesso e, só depois, a felicidade. Segundo a especialista, essa lógica pode estar invertida.
A fórmula invertidaEm primeiro lugar, Carina destaca que o foco excessivo em ser feliz pode produzir exatamente o efeito contrário. Para ela, a literatura científica já demonstrou que a tentativa forçada de alcançar felicidade tende a gerar frustração e isolamento emocional. “Quando a gente foca em ser mais feliz, olha só que loucura isso. Se você foca em ser mais feliz, você tem mais chance de ser infeliz, de ter sintomas depressivos e sentir solidão”, afirma.
Viva do lucro de grandes empresas
Além disso, ela observa que muitas pessoas acreditam que o sucesso profissional será o passaporte definitivo para o bem-estar. No entanto, os estudos conduzidos pela Universidade de Harvard sobre felicidade e saúde mental apontam outra direção: a felicidade é que aumenta a probabilidade de sucesso, e não o contrário. “As pessoas acham que se ela tiver sucesso, então ela será feliz”, observa.
Portanto, a lógica precisa ser ajustada. Em vez de condicionar o bem-estar a metas externas, a proposta é construir bases internas sólidas. Nesse sentido, a felicidade deixa de ser consequência e passa a ser pré-requisito para desempenho sustentável. “Na verdade, você precisa estar feliz, porque você estar feliz aumenta a chance do tal do sucesso”, explica.
Propósito e espiritualidadeUm dos pilares estudados na ciência da felicidade é a espiritualidade. Contudo, Carina faz questão de diferenciar espiritualidade de religião, ampliando o conceito para algo mais profundo e existencial. “A religião tá dentro da espiritualidade, mas a espiritualidade é algo muito maior”, ressalta.
Além disso, ela provoca uma reflexão direta sobre o sentido de vida. Ainda que nem todos saibam responder qual é o propósito maior da existência, é possível responder qual sentido atribuem às próprias ações diárias. “Mas qual o sentido que eu dou na minha vida?” questiona.
Nesse contexto, a especialista explica que o trabalho pode ser vivido como simples obrigação, como carreira ou como propósito. Essa diferença, por sua vez, altera profundamente o nível de engajamento, satisfação e até mesmo os indicadores de saúde mental.
Quando o indivíduo enxerga significado no que faz, a segunda-feira deixa de ser um peso e passa a ser continuidade de algo relevante. “Sentir propósito naquilo que você está fazendo, seja no trabalho ou na vida”, afirma.
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O erro não é o estressePor outro lado, um dos pontos mais técnicos da entrevista surge quando Carina aborda o estresse. Diferentemente do que muitos imaginam, o problema não está na pressão em si. O corpo humano, inclusive, é biologicamente preparado para lidar com desafios. “O trader entra em burnout por isso é a pouca capacidade de recuperação do estresse”, alerta.
Além disso, ela explica que o organismo é antifrágil, ou seja, tende a se fortalecer após desafios, desde que haja tempo de recuperação. Assim como na musculação, o crescimento ocorre no descanso, não apenas no esforço. “É exatamente esse conceito. É o antifrágil nosso”, observa.
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Portanto, o ponto central não é eliminar o estresse, mas estruturar pausas estratégicas. Nesse sentido, Carina detalha três níveis de recuperação que, segundo ela, são fundamentais para evitar colapsos emocionais. “Pequena, levanta, vai andar, encontra o amigo, abraça, pergunta do filho dele, vai tomar um café, né? Sai do olho do furacão, sai do olho, respira, pensa, né?” orienta.
Sem pausa, você quebraAlém das pausas curtas ao longo do dia, a especialista também defende pausas médias e longas. Finais de semana respeitados, desconexão digital e férias reais não são luxo — são estratégia de sobrevivência emocional. Caso contrário, o desgaste se acumula silenciosamente. “Vocês precisam se desconectar, vocês precisam respeitar”, enfatiza.
Ao mesmo tempo, ela ressalta que a recuperação não é apenas física, mas também emocional. Conexões sociais, presença genuína e momentos de atenção plena funcionam como amortecedores psíquicos. Quando esses elementos desaparecem, aumentam os riscos de ansiedade, depressão e burnout.
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Por fim, a mensagem é direta: alta performance sem recuperação cobra um preço alto. Ela exige equilíbrio deliberado entre esforço e recuperação. Caso contrário, o sucesso pode até chegar, mas será acompanhado de exaustão. “Você precisa respeitar, porque você vai trabalhar melhor e as pesquisas mostram quem desconecta mais e respeita isso, além de ter menos chance de burnout”, conclui.
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