FeminicidĂŽmetro do MPAC expĂ”e violĂȘncia de gĂȘnero e gargalos da Justiça

Desde 2018, o Acre registrou 91 feminicĂ­dios consumados e 158 tentativas

Por Redação ContilNet 28/03/2026 às 14:12 Atualizado: hå 3 semanas

O MinistĂ©rio PĂșblico do Estado do Acre (MPAC) dispĂ”e, desde 2021, de um dos mais completos instrumentos de monitoramento da violĂȘncia contra a mulher no Brasil – o FeminicidĂŽmetro. Criado pelo ObservatĂłrio de ViolĂȘncia de GĂȘnero (OBSGĂȘnero), o FeminicidĂŽmetro transforma processos de feminicĂ­dio em informaçÔes pĂșblicas qualificadas, acessĂ­veis e atualizadas em tempo real. A plataforma consolidou-se como ferramenta essencial de transparĂȘncia, diagnĂłstico preciso e planejamento de polĂ­ticas tanto para o MinistĂ©rio PĂșblico quanto para a rede de atendimento — universidades, veĂ­culos de comunicação e formuladores de polĂ­ticas pĂșblicas.

Os nĂșmeros sĂŁo alarmantes. Desde 2018, o Acre registrou 91 feminicĂ­dios consumados e 158 tentativas. Os dados recolocam o Estado entre as unidades federativas com as mais altas taxas de violĂȘncia letal contra a mulher no paĂ­s. Conforme a Nota TĂ©cnica “Retrato dos FeminicĂ­dios no Brasil”, do FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica, o Ă­ndice atingiu 3,2 feminicĂ­dios por 100 mil mulheres em 2025 — exatamente o mesmo patamar de 2018, ano que marcou o recorde de ocorrĂȘncias no Acre.

Em entrevista Ă  AgĂȘncia MPAC, a promotora de Justiça Bianca Bernardes de Moraes, coordenadora-geral do Centro de Atendimento Ă  VĂ­tima (CAV) e do ObservatĂłrio de ViolĂȘncia de GĂȘnero (OBSGĂȘnero), afirma que os nĂșmeros vĂŁo muito alĂ©m de estatĂ­sticas frias. “O MinistĂ©rio PĂșblico compreende o feminicĂ­dio como a expressĂŁo mais extrema de um continuum de violĂȘncias estruturais baseadas em gĂȘnero”, explica. Segundo ela, cada caso consumado representa “o desfecho letal de uma cadeia de violaçÔes progressivas” que, na maioria das vezes, começa com violĂȘncia psicolĂłgica, moral, patrimonial e fĂ­sica. A anĂĄlise institucional do MPAC mostra que “na maioria das situaçÔes havia sinais anteriores de risco”, o que exige “abordagem preventiva, intersetorial e territorializada”.

A tentativa de feminicĂ­dio, por sua vez, Ă© interpretada como clara demonstração de risco letal. “Manifesta a intenção do agressor de ceifar a vida da vĂ­tima, geralmente em um contexto de controle, possessividade, ciĂșme ou inconformismo com o tĂ©rmino da relação”, diz a promotora. Do ponto de vista criminolĂłgico e jurĂ­dico, a tentativa evidencia que o risco letal jĂĄ estava presente e que, muitas vezes, havia antecedentes claros de violĂȘncia domĂ©stica e familiar. Para o MinistĂ©rio PĂșblico, portanto, o feminicĂ­dio nĂŁo Ă© fenĂŽmeno criminal isolado: â€œĂ© um grave problema social, que demanda respostas estruturais do Estado e da coletividade”.

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FeminicidĂŽmetro quebra a invisibilidade dos casos

O principal mĂ©rito do FeminicidĂŽmetro, segundo Bianca Bernardes, foi romper com a invisibilidade. A ferramenta permitiu diagnĂłsticos mais precisos, identificação de padrĂ”es de violĂȘncia e planejamento estratĂ©gico de açÔes preventivas e repressivas. “Internamente, aprimorou a atuação do MinistĂ©rio PĂșblico”, avalia. O crescimento dos acessos — 26.990 desde o lançamento — demonstra a confiança da sociedade na plataforma, que Ă© utilizada pela rede de atendimento Ă  mulher, instituiçÔes de ensino superior, sistema de Justiça, veĂ­culos de comunicação e pela sociedade em geral, servindo como fonte de dados, instrumento de controle social e subsĂ­dio para formulação de polĂ­ticas e estudos acadĂȘmicos.

A confiabilidade dos nĂșmeros decorre do rigor metodolĂłgico. O ObservatĂłrio cruza trĂȘs bases oficiais: o Sistema Nacional de InformaçÔes da Segurança PĂșblica (SINESP/PPE), o Sistema de Automação da Justiça do MinistĂ©rio PĂșblico (SAJ/MPAC) e o Sistema de Automação da Justiça do Tribunal de Justiça (SAJ/TJAC). Esse cruzamento reduz subnotificaçÔes, corrige inconsistĂȘncias e evita duplicidades, assegurando que cada caso seja devidamente qualificado. A anĂĄlise permanente da equipe tĂ©cnica garante rigor e atualização contĂ­nua. A metodologia Ă© tĂŁo sĂłlida que Ă© reconhecida e citada pelo FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica, referĂȘncia nacional em transparĂȘncia de dados sobre violĂȘncia.

Investigação råpida, mas julgamento demora até quatro anos

Apesar dos avanços na fase investigativa, que se tornou mais cĂ©lere e tecnicamente qualificada, os processos ainda levam, em mĂ©dia, trĂȘs a quatro anos para chegar ao fim. “Na prĂĄtica, o principal gargalo situa-se na fase judicial, especialmente no percurso procedimental atĂ© a submissĂŁo do caso ao Tribunal do JĂșri”, aponta a promotora. Os entraves sĂŁo conhecidos: elevado volume de demandas, limitação estrutural de varas criminais, complexidade dos atos processuais — notadamente na fase de instrução — e as sucessivas intercorrĂȘncias recursais. A prĂłpria dinĂąmica do rito do jĂșri, com etapas formais rigorosas, contribui para a dilação temporal.

Os dados revelam, de fato, um problema estrutural no JudiciĂĄrio acreano: investigação rĂĄpida, mas julgamento lento. Bianca Bernardes reconhece que se trata da “soma de fatores, como insuficiĂȘncia de estrutura material e humana e um modelo processual padrĂŁo que pode se tornar moroso”. Ainda assim, o JudiciĂĄrio do Acre tem sido referĂȘncia na realização frequente de mutirĂ”es de audiĂȘncias para casos de violĂȘncia domĂ©stica, focados na celeridade dos processos da Lei Maria da Penha.

Hoje tramitam entre 15 e 20 processos de feminicĂ­dio. Considerando a dimensĂŁo populacional e a estrutura do sistema de justiça estadual, o nĂșmero “demanda atenção institucional contĂ­nua”. Para a promotora, cada caso em andamento representa, alĂ©m da necessidade de responsabilização penal, “um dever estatal de resposta cĂ©lere e eficaz”. Ainda que nĂŁo seja um quantitativo desproporcional em termos absolutos, ele se torna especialmente sensĂ­vel diante da gravidade dos fatos e da prioridade que esses crimes exigem.

Medidas protetivas salvam vidas, mas faltam na maioria dos casos

O padrĂŁo dos crimes Ă© claro e persistente: a grande maioria ocorre no ambiente domĂ©stico e Ă© praticada por companheiros ou ex-companheiros. “Esse padrĂŁo persiste porque estĂĄ diretamente ligado a uma cultura de controle e dominação sobre o corpo e a vida das mulheres”, afirma Bianca Bernardes. RelaçÔes marcadas por ciĂșmes, sentimento de posse, dificuldade de aceitação do tĂ©rmino e histĂłrico de violĂȘncia prĂ©via sĂŁo fatores recorrentes. Sem a desconstrução social dessas bases patriarcais, machistas e misĂłginas, e sem intervençÔes precoces, o ciclo da violĂȘncia tende a se repetir e, em muitos casos, a escalar para o feminicĂ­dio.

A violĂȘncia domĂ©stica e familiar costuma seguir um padrĂŁo cĂ­clico, com perĂ­odos de agressĂŁo seguidos de fases de aparente reconciliação, o que dificulta a ruptura definitiva da relação. Muitas mulheres permanecem em contextos de risco por fatores estruturais: dependĂȘncia financeira, responsabilidade pelo cuidado dos filhos, ausĂȘncia de redes de apoio e medo de represĂĄlias. Embora existam instrumentos jurĂ­dicos relevantes, como as medidas protetivas da Lei Maria da Penha, sua efetividade depende de uma rede de proteção suficientemente robusta.

Outro dado alarmante Ă© a ausĂȘncia de medidas protetivas na maior parte dos casos. “As medidas protetivas salvam vidas, na maior parte dos casos”, ressalta a promotora. No entanto, a maioria das vĂ­timas sequer chegou ao Sistema de Justiça: elas estavam na rede de atendimento do SUS e do SUAS. NĂŁo se trata de falha pontual de instituiçÔes especĂ­ficas, mas de “limitaçÔes estruturais da rede de proteção” — insuficiĂȘncia de estrutura fĂ­sica e de pessoal, equipamentos especializados, baixa capacitação dos profissionais, dificuldades de monitoramento de agressores, barreiras territoriais de acesso a serviços e fragilidades na articulação interinstitucional. “NĂŁo basta a previsĂŁo legal; Ă© necessĂĄrio garantir acesso, efetividade e acompanhamento contĂ­nuo”, conclui.

Alta taxa de condenaçÔes mostra força das denĂșncias do MP

O painel do FeminicidĂŽmetro mostra que cerca de 60% dos processos jĂĄ foram julgados. Dos 90 autores de feminicĂ­dio consumado identificados, 46 foram condenados pelo Tribunal do JĂșri. Houve apenas uma absolvição. AlĂ©m disso, hĂĄ autores presos preventivamente, outros que cometeram suicĂ­dio apĂłs o crime e autores mortos. “Esse percentual manifesta que o feminicĂ­dio Ă© um crime que produz um elevado Ă­ndice de condenaçÔes”, avalia Bianca Bernardes. O nĂșmero deve ser interpretado como reflexo da consistĂȘncia das investigaçÔes e da robustez das denĂșncias oferecidas pelo MinistĂ©rio PĂșblico. “NĂŁo se trata apenas de punir, mas da responsabilização penal dos agressores.”

Os dados jĂĄ geraram resultados concretos. A partir dos estudos do ObservatĂłrio foi instituĂ­da a PolĂ­tica de Proteção Ă s ÓrfĂŁs e ÓrfĂŁos do FeminicĂ­dio (Lei nÂș 4.065/2022), importante instrumento de reparação aos filhos e filhas das vĂ­timas. Os nĂșmeros tambĂ©m subsidiaram a criação e o aprimoramento de fluxos de atendimento, capacitaçÔes de profissionais da rede de proteção, articulação interinstitucional, elaboração de projetos especĂ­ficos, campanhas educativas e a formulação de polĂ­ticas pĂșblicas mais direcionadas e baseadas em evidĂȘncias.

Morosidade alimenta impunidade: o que precisa mudar

A demora na tramitação, contudo, pode reforçar a sensação de impunidade. Para superĂĄ-la, a promotora defende um conjunto articulado de medidas: priorização efetiva dos processos de feminicĂ­dio com gestĂŁo diferenciada de tramitação; ampliação da estrutura do JudiciĂĄrio, inclusive com fortalecimento ou criação de unidades especializadas; otimização das pautas do Tribunal do JĂșri; investimento em ferramentas tecnolĂłgicas que promovam maior eficiĂȘncia processual; e aprimoramento da articulação interinstitucional, sem prejuĂ­zo das garantias fundamentais.

Diante da persistĂȘncia do problema, Bianca Bernardes Ă© clara sobre o que ainda precisa mudar. No plano institucional, Ă© indispensĂĄvel fortalecer a rede de atendimento com serviços especializados em todo o territĂłrio, com equipes multidisciplinares capacitadas e recursos adequados. É fundamental aplicar de forma eficaz os mecanismos de avaliação e gestĂŁo de risco, como o FormulĂĄrio Nacional de Avaliação de Risco (FONAR) e o recĂ©m-criado Instrumento de Avaliação de ViolĂȘncia PsicolĂłgica (IAVP), que permitem identificar precocemente casos de alta letalidade. No Ăąmbito da segurança pĂșblica, Ă© essencial fiscalizar a execução da Lei 15.125/2025, que autoriza o monitoramento de agressores por tornozeleiras eletrĂŽnicas. AlĂ©m disso, Ă© necessĂĄrio investir em estratĂ©gias de prevenção primĂĄria, voltadas Ă  educação para equidade de gĂȘnero desde a infĂąncia, Ă  promoção dos direitos das meninas e mulheres, Ă  desconstrução de padrĂ”es culturais violentos e ao fortalecimento da autonomia econĂŽmica.

Culturalmente, o desafio Ă© profundo: “consolidar o reconhecimento da mulher como sujeito pleno de dignidade, autonomia e liberdade” e romper com a ideia, ainda disseminada, de que relaçÔes Ă­ntimas conferem ao homem “um suposto direito de controle sobre a vida da mulher”. É preciso inserir conteĂșdos obrigatĂłrios sobre equidade de gĂȘnero e prevenção da violĂȘncia nas polĂ­ticas educacionais e tratar o feminicĂ­dio como um problema de toda a sociedade.

Os dados do FeminicidĂŽmetro mostram ainda que a maior parte das denĂșncias oferecidas pelo MPAC resulta em condenação. Dos 90 autores identificados, 46 jĂĄ foram condenados — percentual expressivo, especialmente quando considerado o conjunto de processos jĂĄ finalizados. “Esse panorama revela que os casos de feminicĂ­dio, no Ăąmbito do Estado do Acre, apresentam um elevadĂ­ssimo Ă­ndice de condenação”, afirma a promotora. Trata-se, para ela, de reflexo de uma atuação ministerial fundamentada em elementos probatĂłrios coligidos na fase investigativa e da solidez tĂ©cnico-jurĂ­dica das denĂșncias, visando Ă  garantia da resposta penal aos autores do crime.

Por Chico AraĂșjo
AgĂȘncia de NotĂ­cias do MPAC

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