O MinistĂ©rio PĂșblico do Estado do Acre (MPAC) dispĂ”e, desde 2021, de um dos mais completos instrumentos de monitoramento da violĂȘncia contra a mulher no Brasil – o FeminicidĂŽmetro. Criado pelo ObservatĂłrio de ViolĂȘncia de GĂȘnero (OBSGĂȘnero), o FeminicidĂŽmetro transforma processos de feminicĂdio em informaçÔes pĂșblicas qualificadas, acessĂveis e atualizadas em tempo real. A plataforma consolidou-se como ferramenta essencial de transparĂȘncia, diagnĂłstico preciso e planejamento de polĂticas tanto para o MinistĂ©rio PĂșblico quanto para a rede de atendimento â universidades, veĂculos de comunicação e formuladores de polĂticas pĂșblicas.
Os nĂșmeros sĂŁo alarmantes. Desde 2018, o Acre registrou 91 feminicĂdios consumados e 158 tentativas. Os dados recolocam o Estado entre as unidades federativas com as mais altas taxas de violĂȘncia letal contra a mulher no paĂs. Conforme a Nota TĂ©cnica âRetrato dos FeminicĂdios no Brasilâ, do FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica, o Ăndice atingiu 3,2 feminicĂdios por 100 mil mulheres em 2025 â exatamente o mesmo patamar de 2018, ano que marcou o recorde de ocorrĂȘncias no Acre.
Em entrevista Ă AgĂȘncia MPAC, a promotora de Justiça Bianca Bernardes de Moraes, coordenadora-geral do Centro de Atendimento Ă VĂtima (CAV) e do ObservatĂłrio de ViolĂȘncia de GĂȘnero (OBSGĂȘnero), afirma que os nĂșmeros vĂŁo muito alĂ©m de estatĂsticas frias. âO MinistĂ©rio PĂșblico compreende o feminicĂdio como a expressĂŁo mais extrema de um continuum de violĂȘncias estruturais baseadas em gĂȘneroâ, explica. Segundo ela, cada caso consumado representa âo desfecho letal de uma cadeia de violaçÔes progressivasâ que, na maioria das vezes, começa com violĂȘncia psicolĂłgica, moral, patrimonial e fĂsica. A anĂĄlise institucional do MPAC mostra que âna maioria das situaçÔes havia sinais anteriores de riscoâ, o que exige âabordagem preventiva, intersetorial e territorializadaâ.
A tentativa de feminicĂdio, por sua vez, Ă© interpretada como clara demonstração de risco letal. âManifesta a intenção do agressor de ceifar a vida da vĂtima, geralmente em um contexto de controle, possessividade, ciĂșme ou inconformismo com o tĂ©rmino da relaçãoâ, diz a promotora. Do ponto de vista criminolĂłgico e jurĂdico, a tentativa evidencia que o risco letal jĂĄ estava presente e que, muitas vezes, havia antecedentes claros de violĂȘncia domĂ©stica e familiar. Para o MinistĂ©rio PĂșblico, portanto, o feminicĂdio nĂŁo Ă© fenĂŽmeno criminal isolado: âĂ© um grave problema social, que demanda respostas estruturais do Estado e da coletividadeâ.
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FeminicidĂŽmetro quebra a invisibilidade dos casos
O principal mĂ©rito do FeminicidĂŽmetro, segundo Bianca Bernardes, foi romper com a invisibilidade. A ferramenta permitiu diagnĂłsticos mais precisos, identificação de padrĂ”es de violĂȘncia e planejamento estratĂ©gico de açÔes preventivas e repressivas. âInternamente, aprimorou a atuação do MinistĂ©rio PĂșblicoâ, avalia. O crescimento dos acessos â 26.990 desde o lançamento â demonstra a confiança da sociedade na plataforma, que Ă© utilizada pela rede de atendimento Ă mulher, instituiçÔes de ensino superior, sistema de Justiça, veĂculos de comunicação e pela sociedade em geral, servindo como fonte de dados, instrumento de controle social e subsĂdio para formulação de polĂticas e estudos acadĂȘmicos.
A confiabilidade dos nĂșmeros decorre do rigor metodolĂłgico. O ObservatĂłrio cruza trĂȘs bases oficiais: o Sistema Nacional de InformaçÔes da Segurança PĂșblica (SINESP/PPE), o Sistema de Automação da Justiça do MinistĂ©rio PĂșblico (SAJ/MPAC) e o Sistema de Automação da Justiça do Tribunal de Justiça (SAJ/TJAC). Esse cruzamento reduz subnotificaçÔes, corrige inconsistĂȘncias e evita duplicidades, assegurando que cada caso seja devidamente qualificado. A anĂĄlise permanente da equipe tĂ©cnica garante rigor e atualização contĂnua. A metodologia Ă© tĂŁo sĂłlida que Ă© reconhecida e citada pelo FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica, referĂȘncia nacional em transparĂȘncia de dados sobre violĂȘncia.
Investigação råpida, mas julgamento demora até quatro anos
Apesar dos avanços na fase investigativa, que se tornou mais cĂ©lere e tecnicamente qualificada, os processos ainda levam, em mĂ©dia, trĂȘs a quatro anos para chegar ao fim. âNa prĂĄtica, o principal gargalo situa-se na fase judicial, especialmente no percurso procedimental atĂ© a submissĂŁo do caso ao Tribunal do JĂșriâ, aponta a promotora. Os entraves sĂŁo conhecidos: elevado volume de demandas, limitação estrutural de varas criminais, complexidade dos atos processuais â notadamente na fase de instrução â e as sucessivas intercorrĂȘncias recursais. A prĂłpria dinĂąmica do rito do jĂșri, com etapas formais rigorosas, contribui para a dilação temporal.
Os dados revelam, de fato, um problema estrutural no JudiciĂĄrio acreano: investigação rĂĄpida, mas julgamento lento. Bianca Bernardes reconhece que se trata da âsoma de fatores, como insuficiĂȘncia de estrutura material e humana e um modelo processual padrĂŁo que pode se tornar morosoâ. Ainda assim, o JudiciĂĄrio do Acre tem sido referĂȘncia na realização frequente de mutirĂ”es de audiĂȘncias para casos de violĂȘncia domĂ©stica, focados na celeridade dos processos da Lei Maria da Penha.
Hoje tramitam entre 15 e 20 processos de feminicĂdio. Considerando a dimensĂŁo populacional e a estrutura do sistema de justiça estadual, o nĂșmero âdemanda atenção institucional contĂnuaâ. Para a promotora, cada caso em andamento representa, alĂ©m da necessidade de responsabilização penal, âum dever estatal de resposta cĂ©lere e eficazâ. Ainda que nĂŁo seja um quantitativo desproporcional em termos absolutos, ele se torna especialmente sensĂvel diante da gravidade dos fatos e da prioridade que esses crimes exigem.
Medidas protetivas salvam vidas, mas faltam na maioria dos casos
O padrĂŁo dos crimes Ă© claro e persistente: a grande maioria ocorre no ambiente domĂ©stico e Ă© praticada por companheiros ou ex-companheiros. âEsse padrĂŁo persiste porque estĂĄ diretamente ligado a uma cultura de controle e dominação sobre o corpo e a vida das mulheresâ, afirma Bianca Bernardes. RelaçÔes marcadas por ciĂșmes, sentimento de posse, dificuldade de aceitação do tĂ©rmino e histĂłrico de violĂȘncia prĂ©via sĂŁo fatores recorrentes. Sem a desconstrução social dessas bases patriarcais, machistas e misĂłginas, e sem intervençÔes precoces, o ciclo da violĂȘncia tende a se repetir e, em muitos casos, a escalar para o feminicĂdio.
A violĂȘncia domĂ©stica e familiar costuma seguir um padrĂŁo cĂclico, com perĂodos de agressĂŁo seguidos de fases de aparente reconciliação, o que dificulta a ruptura definitiva da relação. Muitas mulheres permanecem em contextos de risco por fatores estruturais: dependĂȘncia financeira, responsabilidade pelo cuidado dos filhos, ausĂȘncia de redes de apoio e medo de represĂĄlias. Embora existam instrumentos jurĂdicos relevantes, como as medidas protetivas da Lei Maria da Penha, sua efetividade depende de uma rede de proteção suficientemente robusta.
Outro dado alarmante Ă© a ausĂȘncia de medidas protetivas na maior parte dos casos. âAs medidas protetivas salvam vidas, na maior parte dos casosâ, ressalta a promotora. No entanto, a maioria das vĂtimas sequer chegou ao Sistema de Justiça: elas estavam na rede de atendimento do SUS e do SUAS. NĂŁo se trata de falha pontual de instituiçÔes especĂficas, mas de âlimitaçÔes estruturais da rede de proteçãoâ â insuficiĂȘncia de estrutura fĂsica e de pessoal, equipamentos especializados, baixa capacitação dos profissionais, dificuldades de monitoramento de agressores, barreiras territoriais de acesso a serviços e fragilidades na articulação interinstitucional. âNĂŁo basta a previsĂŁo legal; Ă© necessĂĄrio garantir acesso, efetividade e acompanhamento contĂnuoâ, conclui.
Alta taxa de condenaçÔes mostra força das denĂșncias do MP
O painel do FeminicidĂŽmetro mostra que cerca de 60% dos processos jĂĄ foram julgados. Dos 90 autores de feminicĂdio consumado identificados, 46 foram condenados pelo Tribunal do JĂșri. Houve apenas uma absolvição. AlĂ©m disso, hĂĄ autores presos preventivamente, outros que cometeram suicĂdio apĂłs o crime e autores mortos. âEsse percentual manifesta que o feminicĂdio Ă© um crime que produz um elevado Ăndice de condenaçÔesâ, avalia Bianca Bernardes. O nĂșmero deve ser interpretado como reflexo da consistĂȘncia das investigaçÔes e da robustez das denĂșncias oferecidas pelo MinistĂ©rio PĂșblico. âNĂŁo se trata apenas de punir, mas da responsabilização penal dos agressores.â
Os dados jĂĄ geraram resultados concretos. A partir dos estudos do ObservatĂłrio foi instituĂda a PolĂtica de Proteção Ă s ĂrfĂŁs e ĂrfĂŁos do FeminicĂdio (Lei nÂș 4.065/2022), importante instrumento de reparação aos filhos e filhas das vĂtimas. Os nĂșmeros tambĂ©m subsidiaram a criação e o aprimoramento de fluxos de atendimento, capacitaçÔes de profissionais da rede de proteção, articulação interinstitucional, elaboração de projetos especĂficos, campanhas educativas e a formulação de polĂticas pĂșblicas mais direcionadas e baseadas em evidĂȘncias.
Morosidade alimenta impunidade: o que precisa mudar
A demora na tramitação, contudo, pode reforçar a sensação de impunidade. Para superĂĄ-la, a promotora defende um conjunto articulado de medidas: priorização efetiva dos processos de feminicĂdio com gestĂŁo diferenciada de tramitação; ampliação da estrutura do JudiciĂĄrio, inclusive com fortalecimento ou criação de unidades especializadas; otimização das pautas do Tribunal do JĂșri; investimento em ferramentas tecnolĂłgicas que promovam maior eficiĂȘncia processual; e aprimoramento da articulação interinstitucional, sem prejuĂzo das garantias fundamentais.
Diante da persistĂȘncia do problema, Bianca Bernardes Ă© clara sobre o que ainda precisa mudar. No plano institucional, Ă© indispensĂĄvel fortalecer a rede de atendimento com serviços especializados em todo o territĂłrio, com equipes multidisciplinares capacitadas e recursos adequados. Ă fundamental aplicar de forma eficaz os mecanismos de avaliação e gestĂŁo de risco, como o FormulĂĄrio Nacional de Avaliação de Risco (FONAR) e o recĂ©m-criado Instrumento de Avaliação de ViolĂȘncia PsicolĂłgica (IAVP), que permitem identificar precocemente casos de alta letalidade. No Ăąmbito da segurança pĂșblica, Ă© essencial fiscalizar a execução da Lei 15.125/2025, que autoriza o monitoramento de agressores por tornozeleiras eletrĂŽnicas. AlĂ©m disso, Ă© necessĂĄrio investir em estratĂ©gias de prevenção primĂĄria, voltadas Ă educação para equidade de gĂȘnero desde a infĂąncia, Ă promoção dos direitos das meninas e mulheres, Ă desconstrução de padrĂ”es culturais violentos e ao fortalecimento da autonomia econĂŽmica.
Culturalmente, o desafio Ă© profundo: âconsolidar o reconhecimento da mulher como sujeito pleno de dignidade, autonomia e liberdadeâ e romper com a ideia, ainda disseminada, de que relaçÔes Ăntimas conferem ao homem âum suposto direito de controle sobre a vida da mulherâ. Ă preciso inserir conteĂșdos obrigatĂłrios sobre equidade de gĂȘnero e prevenção da violĂȘncia nas polĂticas educacionais e tratar o feminicĂdio como um problema de toda a sociedade.
Os dados do FeminicidĂŽmetro mostram ainda que a maior parte das denĂșncias oferecidas pelo MPAC resulta em condenação. Dos 90 autores identificados, 46 jĂĄ foram condenados â percentual expressivo, especialmente quando considerado o conjunto de processos jĂĄ finalizados. âEsse panorama revela que os casos de feminicĂdio, no Ăąmbito do Estado do Acre, apresentam um elevadĂssimo Ăndice de condenaçãoâ, afirma a promotora. Trata-se, para ela, de reflexo de uma atuação ministerial fundamentada em elementos probatĂłrios coligidos na fase investigativa e da solidez tĂ©cnico-jurĂdica das denĂșncias, visando Ă garantia da resposta penal aos autores do crime.
Por Chico AraĂșjo
AgĂȘncia de NotĂcias do MPAC

