O setor da construção civil no Brasil enfrenta um desafio que vai além dos juros altos ou da insegurança jurídica: a crise de vocação. Luciano Amaral, CEO da Benx — incorporadora focada no segmento de altíssimo luxo —, trouxe à tona uma realidade que preocupa os grandes canteiros de obras.
Segundo o executivo, o setor vive um apagão de mão de obra provocado por mudanças geracionais e novas opções de renda, como o trabalho em aplicativos e cursos técnicos.
De acordo com o portal Política Livre, Amaral foi enfático ao afirmar que as novas gerações não desejam mais seguir os passos de seus pais em trabalhos que exigem grande esforço físico.
“O filho do pedreiro não quer mais ser pedreiro, o filho do mestre não quer mais ser mestre”, declarou o CEO, destacando que essa escassez está afetando diretamente o prazo de entrega e o lançamento de novos empreendimentos.
Inovação Chinesa e o Fim da Escala 6×1
Para tentar contornar a falta de trabalhadores, a Benx enviou uma equipe de dez especialistas à China em busca de tecnologias que possam automatizar processos e reduzir a dependência da mão de obra pesada.
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Tecnologia como Saída: O foco é trazer parcerias com fornecedores chineses para implementar métodos construtivos que substituam funções que hoje não encontram preenchimento no mercado brasileiro.
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Produtividade em Queda: O executivo também manifestou preocupação com a discussão sobre o fim da escala 6×1. Segundo ele, reduzir o tempo de trabalho em um cenário onde a produtividade já está caindo pode gerar pressões inflacionárias e aumento nos custos da construção civil.
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Segmento de Luxo: Para fugir da concorrência agressiva do programa Minha Casa, Minha Vida, a Benx aposta em projetos exclusivos, como o 280 Art, no Itaim, onde unidades podem chegar a R$ 180 milhões.
Raio-X dos Desafios: Construção Civil 2026
Confira os principais pontos que estão moldando o planejamento estratégico das grandes construtoras:
| Desafio Setorial | Impacto na Operação | Solução Proposta pela Benx |
| Falta de Mão de Obra | Atraso em obras e aumento de custos | Importação de tecnologia da China |
| Juros Variáveis | Incerteza no financiamento de longo prazo | Foco no público de altíssimo padrão (Agro/Executivos) |
| Insegurança Jurídica | Imbróglios em bairros planejados | Fortalecimento de marcas próprias (Arbórea) |
| Mudança Social | Migração de trabalhadores para o setor de serviços | Industrialização do canteiro de obras |
A visão de Luciano Amaral reflete uma transformação profunda na economia brasileira. Com o crescimento do mercado financeiro e do agronegócio, houve um aumento na demanda por prédios de altíssimo luxo em São Paulo, mas a base da pirâmide produtiva da construção civil está encolhendo.
Conforme publicado pelo Política Livre, o setor agora corre contra o tempo para se reinventar tecnologicamente, sob o risco de não conseguir dar vazão ao atual boom imobiliário. Para o executivo, a chave para a sobrevivência no mercado atual é a agilidade em revisitar o planejamento todos os anos, adaptando-se a um país onde a estabilidade é uma exceção e a inovação tornou-se obrigatória.
Qual problema é maior para o setor? Juros ou mão de obra?
A falta de mão de obra é muito preocupante. Ainda não conseguimos desenvolver tecnologias em massa que substituam essa mão de obra. O filho do pedreiro não quer mais ser pedreiro, o filho do mestre não quer mais ser mestre. Tenho feito reuniões para buscar soluções. Fizemos uma incursão recente com dez pessoas na China, visitando obras, para tentar trazer alguma tecnologia de lá em parceria com fornecedores.
A que o sr. atribui essa falta de mão de obra?
É bem claro que as pessoas não querem mais. O mundo mudou. É um trabalho muito pesado, de muito esforço físico. Hoje, em vez disso, é possível fazer um curso técnico. Podem ser Uber, há muitas opções que não existiam. Outro fator é o boom imobiliário. Não formamos profissionais e aumentamos a produção. Como é que faz? Falta mão de obra.
E o possível fim da escala 6×1? Com que olhos o sr. enxerga?
O governo não pode tomar uma medida assim, de repente. Precisa pensar e tratar as consequências. O que eu mais ouço é que o país não investe em educação e não investe em produtividade, que está caindo no Brasil. Se a produtividade está caindo e você ainda diminui o tempo de trabalho, é preciso pensar como isso influencia na vida das pessoas, nos custos, na inflação.
A Benx se afastou da classe média. O movimento é uma guinada permanente ou é um porto temporário?
Nada é permanente. O mercado imobiliário é muito cíclico. Estamos num momento de explosão imobiliária, baseada no Minha Casa, Minha Vida, mas a classe média é sempre muito forte no consumo. Uma empresa do tamanho da nossa tem que revisitar o planejamento estratégico todos os anos. Até porque o Brasil é país no qual os juros vão de 2% a 15%, de 15% a 10%, não dá para ter uma estabilidade com essas taxas.
Vocês esperam que as unidades do 280 Art, projeto no Itaim, cheguem a até R$ 180 milhões. O aumento de preços no mercado se deve a um aumento real da riqueza e da demanda ou vivemos uma bolha especulativa em regiões específicas?
Não é uma bolha. Há riqueza em São Paulo. No agro há riqueza, mas é setorizado. Se pegamos dez ou 15 indústrias brasileiras, vemos quantos executivos elas geraram. Cada prédio de altíssimo padrão tem 20, 25 apartamentos, 30 é o máximo. Não é como se fizéssemos 200 unidades. Basta olhar o mercado financeiro, que têm crescido uns 500 mil executivos ganhando dinheiro. Para dar vazão, você precisa de vários prédios.
O Parque Global demorou 21 anos para sair do papel, em grande parte devido a imbróglios judiciais. Ainda pensa em investir no modelo bairro planejado?
O Parque Global é um “case” sob todos os ângulos. A insegurança jurídica é o problema mais grave do país. Essa á uma opinião compartilhada por muita gente. O modelo de bairro, no entanto, é tão forte, que saiu vencedor depois desse problema de insegurança jurídica.
A marca Arbórea é aposta para o segmento de luxo. Há espaço para empresa nativa brasileira?
Não tenho nada contra o brand residence, acho que é mercado importante, mas depende do local e do público para funcionar. Nem todo brand residence vai atingir altíssimo padrão. Nós decidimos criar essa marca agora e temos três projetos direcionados para esse cliente.
