Fim da escala 6×1: proposta pode aliviar dupla jornada das mulheres

Por AgĂȘncia Brasil 08/03/2026


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O governo federal defende o debate pĂșblico com a sociedade – trabalhadores, empregadores, pequenos empreendedores – e com o Congresso Nacional sobre a redução da jornada mĂĄxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais no Brasil, junto com o fim da escala de seis dias de trabalho a cada um de descanso, a escala 6×1.ebcebc

A intenção ao revisar o modelo de trabalho e chegar Ă  jornada de cinco dias de trabalho a cada dois de folga (5×2) Ă© dar mais qualidade de vida Ă  população, com aumento do tempo de descanso e lazer dos trabalhadores.


BrasĂ­lia (DF), 05/03/2026 - A cobradora Denise Ulisses dĂĄ entrevista Ă  AgĂȘncia Brasil sobre o impacto da escala de trabalho 6x1. Foto: Marcelo Camargo/AgĂȘncia Brasil

Denise Ulisses faz planos para quando trabalhar seguindo a escala 5×2 – Marcelo Camargo/AgĂȘncia Brasil

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A cobradora de ĂŽnibus do Distrito Federal, Denise Ulisses, de 46 anos, conhece bem a realidade dura do 6×1. HĂĄ 15 anos, ela trabalha seis horas corridas por dia de segunda-feira a sĂĄbado e folga somente aos domingos.

Se por um lado, Denise se divide entre o itinerĂĄrio repetitivo do transporte coletivo, liberação da catraca e conferĂȘncia do troco aos passageiros, a outra parte da vida dela Ă© ocupada pelas tarefas de casa e o acompanhamento dos dois filhos, atualmente, com 18 e 22 anos. “Quando as crianças eram pequenas, foi bem pesado.”

Denise Ulisses faz planos para quando tiver mais tempo livre, caso a redução da jornada 6×1 passe no Congresso Nacional.

“Eu sairia na sexta-feira à noite para o sítio e só voltaria no domingo à noite. Então, este seria um tempo bom de folga: dois dias.”

Peso da dupla jornada

A pauta do fim da escala 6×1 Ă© considerada prioritĂĄria pelo governo federal. Desde 2025, a ministra da Secretaria de RelaçÔes Institucionais da PresidĂȘncia da RepĂșblica, Gleisi Hoffmann, explica que carga de trabalho da escala 6×1 recai, principalmente, sobre os ombros das mulheres devido Ă  dupla jornada, ou seja, para aquelas que trabalham para ganhar dinheiro, mas que tambĂ©m sĂŁo responsĂĄveis pelo trabalho domĂ©stico nĂŁo remunerado.

O entendimento é confirmado pelos dados de 2022 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que mostram as mulheres dedicadas, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas.

A diferença de 9,6 horas semanais evidencia quase o dobro do tempo de dedicação feminina. Quando consideradas somente as mulheres pretas e pardas, o trabalho doméstico não remunerado é 1,6 hora a mais por semana, se comparado ao de mulheres brancas.


BrasĂ­lia (DF), 06/03/2026 - Entrevista com a secretĂĄria nacional de Articulação Institucional do MinistĂ©rio das Mulheres, Sandra Kennedy. Foto: Valter Campanato/AgĂȘncia Brasil

Sandra Kennedy aponta a redução da escala como um passo para reduzir a jornada de trabalho feminina- Valter Campanato/AgĂȘncia Brasil

A secretĂĄria Nacional de Articulação Nacional, AçÔes TemĂĄticas e Participação PolĂ­tica do MinistĂ©rio das Mulheres, Sandra Kennedy, explica que a primeira questĂŁo a ser enfrentada para reduzir a sobrecarga das mulheres com a dupla jornada Ă© estrutural: a sociedade precisa rever a desigualdade de gĂȘnero.

“Na soma entre o trabalho domĂ©stico e o trabalho formal, nĂłs trabalhamos muito mais do que os homens”, destaca Sandra.

Para a representante do MinistĂ©rio das Mulheres, o fim da jornada mĂĄxima 6×1 pode impactar positivamente na divisĂŁo de tarefas em casa.

“O cuidado tem que ser compartilhado entre homens e mulheres. Isso nĂŁo Ă© uma questĂŁo sĂł cultural. É tambĂ©m de os homens terem mais tempo em casa para compartilharem o cuidado.”

A secretåria entende que as mulheres estão adoecendo mais por serem afetadas pela dupla jornada.

“A gente tem menos tempo para estudar, para se qualificar, tem muito menos tempo para conciliar o trabalho pessoal com o trabalho social. O adoecimento Ă© evidente.”

Tempo e dinheiro


BrasĂ­lia (DF), 05/03/2026 - A auxiliar de serviços gerais Tiffane Raany dĂĄ entrevista Ă  AgĂȘncia Brasil sobre o impacto da escala de trabalho 6x1. Foto: Marcelo Camargo/AgĂȘncia Brasil

Tiffane Raany sente falta de ter mais tempo para o filho – Marcelo Camargo/AgĂȘncia Brasil

A jovem Tiffane Raane sente no corpo e no bolso o excesso de trabalho. Contratada como auxiliar de serviços gerais em uma rede de academias do Distrito Federal, ela trabalha das 7h às 18h, com uma hora de almoço, de segunda a sexta-feira, e se somam ao dia a dia o såbado ou o domingo alternadamente a cada semana. No tempo fora do emprego, Tiffane se desdobra nos cuidados com a casa e com o filho de 7 anos.

“Eu pago R$ 350 por mĂȘs a uma cuidadora para ficar com meu filho no tempo em que estĂĄ fora da escola. Ele sente mais falta por eu nĂŁo conseguir ajudĂĄ-lo todos os dias nas atividades escolares. Eu chego tarde do trabalho. Estou cansada e ele tambĂ©m.”

Com a rotina, Tiffane Raane tem adiado o desejo de retomar a faculdade de educação física para tentar alcançar uma melhor remuneração. O curso foi trancado no quarto semestre.

Articulação de mulheres

Na quinta-feira (5), a Articulação Nacional de 8 de Março – apoiada por mais de 300 organizaçÔes de movimentos sociais do Brasil em defesa dos direitos das mulheres – entregou ao MinistĂ©rio das Mulheres o Manifesto Nacional do 8 de Março Unificado 2026: Pela vida das mulheres: contra o imperialismo, por democracia, soberania e pelo fim da escala 6×1. (foto em destaque)

O documento explica o que motiva a luta.

“Esse modelo rouba o tempo, adoece corpos e aprofunda desigualdades. Defender o fim da escala 6×1 Ă© defender o direito de viver com dignidade, enfrentando a lĂłgica neoliberal que transforma a vida em mercadoria.”

O manifesto foi elaborado a partir das decisĂ”es da 5ÂȘ ConferĂȘncia Nacional de PolĂ­ticas para as Mulheres, em 2025, na capital federal.

Aprovação popular

Uma pesquisa de opiniĂŁo da Nexus (janeiro/fevereiro de 2026) revela que cerca de 84% dos brasileiros defendem ao menos dois dias de descanso semanal. O levantamento aponta ainda que 73% dos entrevistados apoiam o fim da escala 6×1, desde que os salĂĄrios sejam mantidos.

A opiniĂŁo de Jeisiane MagalhĂŁes Faria reforça as estatĂ­sticas. HĂĄ cinco anos, ela é balconista de uma farmĂĄcia no Plano Piloto, em BrasĂ­lia, e trabalha na escala 6×1. Jeisinane relembra que jĂĄ perdeu a conta de quantos eventos familiares nĂŁo esteve presente devido ao emprego. 

A balconista faz graduação em farmåcia e gostaria de ter mais tempo para se dedicar aos estudos e a outros aspectos de sua vida. 

O descanso, para Jeisiane, longe de ser uma perda de tempo, pode gerar um impacto positivo tambĂ©m no rendimento laboral. “VocĂȘ pode trabalhar melhor, porque tem dias que realmente Ă© cansativo devido, por exemplo, ao transtorno de passar muito tempo no ĂŽnibus lotado para vir trabalhar.”

Embate econĂŽmico

Apesar do apoio popular, setores da indĂșstria e do comĂ©rcio contestam a ideia e projetam consequĂȘncias negativas em caso de aprovação do fim da jornada 6×1.

A Confederação Nacional da IndĂșstria (CNI) estima que a medida pode aumentar o custo empresarial em atĂ© R$ 267 bilhĂ”es ao ano, com empregados formais na economia, o equivalente a um acrĂ©scimo de atĂ© 7% na folha de pagamentos. E vai alĂ©m, “caso as horas nĂŁo sejam repostas, a redução do limite semanal [de horas trabalhadas] resultarĂĄ em queda da atividade econĂŽmica”, diz a CNI.

Outro estudo apresentado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) explica os efeitos da redução da jornada de trabalho podem impactar na preservação de 631 mil empregos formais e na competitividade.

Segundo a entidade, a diminuição do limite constitucional atual (44 horas semanais) para 40 horas de trabalho, com o fim da escala 6×1, pode elevar o preço dos produtos consumidos pela população em atĂ© 13%. Outra conclusĂŁo do estudo Ă© que a mudança na legislação resultarĂĄ na elevação de custos na ordem de R$ 122,4 bilhĂ”es por ano, no comĂ©rcio. A CNC defende que as possĂ­veis alteraçÔes sejam feitas a partir de negociação coletiva.

Bem-estar social

A secretåria do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, contesta os posicionamentos dos empregadores e destaca que, ao longo da história, as trabalhadoras e os trabalhadores sempre enfrentaram esse tipo de argumento quando querem melhorar as vidas.

“Imagine quando tĂ­nhamos as cargas horĂĄrias de 12, 14, 16 horas. Obviamente que quem representa os interesses do capital no Congresso usa uma narrativa que Ă© uma falĂĄcia, quando associa a melhor qualidade de vida do trabalhador ao aumento do desemprego.”

O estudo O Brasil estĂĄ pronto para trabalhar menos: a PEC da redução da jornada e o fim da escala 6×1, do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (Cesit/Unicamp) , respalda o entendimento da secretĂĄria.

A pesquisa projeta um cenĂĄrio distinto dos dimensionados pela CNC e pela CNI. Com base na PNAD ContĂ­nua do IBGE, caso o fim da escala 6 x 1 seja aprovado no Congresso Nacional, pelo menos 37% dos trabalhadores brasileiros serĂŁo afetados beneficamente.

A pesquisadora do Cesit/Unicamp, a economista Marilane Teixeira, estima que a mudança pode gerar 4,5 milhÔes de empregos e elevar a produtividade no país.

Tramitação no Legislativo

Atualmente a questão estå em debate na Cùmara dos Deputados. Em fevereiro deste ano, o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e, posteriormente, o tema deve seguir para uma comissão especial. Motta considera viåvel a votação da proposta em maio pelo plenårio da Cùmara.

O governo federal tem pressa. O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, jĂĄ afirmou que o Executivo poderĂĄ enviar um projeto de lei com urgĂȘncia para o Congresso Nacional, para unificar as diversas propostas que jĂĄ tramitam no parlamento, caso as discussĂ”es que tratam do tema nĂŁo caminhem na “velocidade desejada”.

Mobilização e política

Uma petição pĂșblica online  criada em setembro de 2023 pelo Movimento Vida AlĂ©m do Trabalho (VAT) e endereçada ao Congresso Nacional, ganhou repercussĂŁo nacional ao pedir um modelo mais flexĂ­vel de trabalho.

O texto sugere a reavaliação das prĂĄticas de trabalho que afetam a saĂșde e o equilĂ­brio entre vida profissional e pessoal. “Trabalhadores saudĂĄveis e satisfeitos sĂŁo mais produtivos e contribuem para o desenvolvimento sustentĂĄvel do paĂ­s”, diz o documento. O abaixo-assinado conta com quase 3 milhĂ”es de assinaturas.

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