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Há 16 anos, Brasil perdia Armando Nogueira, acreano que idealizou o Jornal Nacional

Por Maria Fernanda Arival, ContilNet

Jornalista acreano, Armando Nogueira, foi testemunha do episódio que mudou a história do Brasil

Jornalista acreano, Armando Nogueira, foi testemunha do episódio que mudou a história do Brasil/Foto: O Explorador

O jornalista acreano Armando Nogueira morreu em 29 de março de 2010, no Rio de Janeiro, aos 83 anos. Ele sofria de câncer no cérebro desde 2007. O jornalista foi velado no Maracanã e sepultado no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro.

Na época, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o governador Sérgio Cabral, decretaram luto oficial de três dias pela morte do jornalista. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também decretou luto de três dias e determinou que em todos os jogos de quarta-feira pela Copa do Brasil tivessem um minuto de silêncio em homenagem ao jornalista.

Nascido em Xapuri, município do interior do Acre, em 14 de janeiro de 1927, Armando deixou o Acre aos 17 anos, onde se formou na Faculdade de Direito, no Rio de Janeiro.

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Em 1950, Armando Nogueira foi trabalhar na seção de esportes do Diário Carioca. Ao longo dos 60 anos de carreira, passou também pela Revista Manchete, O Cruzeiro, Jornal do Brasil.

Fez história

O acreano foi testemunha ocular do atentado contra o jornalista Carlos Lacerda. Ao escrever sobre o episódio, Armando Nogueira fez história no jornalismo brasileiro: pela primeira vez uma reportagem tinha fato narrado em primeira pessoa.

Na Rede Globo, o jornalista implantou, junto com Alice Maria, o telejornalismo da emissora. Armando Nogueira, então diretor de jornalismo da TV Globo, foi responsável pela idealização do Jornal Nacional, segundo a Memória Globo.

Alice-Maria e Armando Nogueira no cenário do Jornal Nacional, década de 1980/Foto: Agência O Globo

No início de 1990, Nogueira deixou a Rede Globo para se dedicar ao jornalismo esportivo.

Seu amor pelo esporte o levou a cobrir diversas Copas do Mundo a partir de 1954 e dos Jogos Olímpicos, a partir de 1980, em Moscou. Ao longo da carreira, Armando Nogueira escreveu dez livros, todos sobre esporte: “Drama e Glória dos Bicampeões”, “Na Grande Área”, “Bola na Rede”, “O Homem e a Bola”, “Bola de Cristal”, “O Voo das Gazelas”, “A Copa que Ninguém Viu e a que Não Queremos Lembrar”, “O Canto dos Meus Amores”, “A Chama que não se Apaga” e “A Ginga e o Jogo”.

Armando Nogueira foi colunista de esporte/Foto: Reprodução

Em 2008, Armando Nogueira recebeu a medalha de Honra da Ordem ao Mérito de Comunicações das mãos do ministro Hélio Costa, pelos serviços prestados ao jornalismo brasileiro. Em 2009, o Botafogo o homenageou dando o nome do jornalista à sala de imprensa do Centro de Treinamento de General Severiano.

No Acre, em homenagem ao jornalista, há uma escola para alunos do ensino médio que leva o nome do acreano. A Escola Estadual Armando Nogueira foi inaugurada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante seu primeiro mandato, e pelo então governador Jorge Viana, em 2003.

Escola Estadual Armando Nogueira/Foto: Reprodução

A escola tem capacidade para mais de 1000 alunos e conta com a primeira piscina olímpica do Estado. A instituição fica na Estrada Dias Martins, em Rio Branco e é referência dentre as escolas estaduais.

Segundo a Agência de Notícias do Acre, em uma publicação de 2010, Armando Nogueira fazia referência ao Acre em diversas produções, inclusive sua empresa, seu avião, seu endereço de email levavam a marca “Xapuri”, o berço da nascença.

Em “O reencontro da infância” Armando narra a volta ao Acre ocorrida em 2003, quando palestrou para alunos da escola estadual que leva seu nome.

Leia a crônica “O reencontro da infância”:

O sol nasce pra todos, diz o provérbio. Não é uma verdade irrefutável, mas todos fazemos de conta que é. Não custa nada a criatura acordar, cada dia, com a esperança de que vai chover na sua horta.

Na hora de fazer o balanço do ano que passou, a voz mais ouvida é a do alívio: 2003 já foi tarde! Poucos rendem ao tempo recém-findo uma palavra de gratidão pelas coisas que poderiam ter sido e que acabaram sendo.

No meu caso pessoal, não me lembro de outro ano mais generoso na minha vida adulta. Não ganhei no bicho, sequer tentei a mega-sena, não cai nas graças de ninguém. Só não diria que passei em brancas nuvens porque a imagem não faria justiça ao doce enlevo de tantos vôos, meu aviãozinho e eu, a triscar estratos de algodão pelo céu de tantas rotas.

Foi um ano de reencontro. Viajei ao Acre, minha terra querida. Revi a gameleira secular em cuja sombra afetuosa transcorreu a parte melhor de minha infância.

Um dia, eu era o próprio Leônidas, o “homem de borracha” fazendo gol atrás de gol, na Copa de 58. Só não fazia gol de bicicleta pra ninguém achar que estava exagerando. No dia seguinte, eu trocava de pele. Vestia a túnica de general ateniense e, sob o mesmo nome de Leônidas, estava derrotando o exército persa, nas batalhas do desfiladeiro das Termópilas.

Passei horas de uma madrugada, em Rio Branco, a relembrar a voz gasguita do poeta Juvenal Antunes, na frente do Hotel Madrid, declamando, aos berros, seus poemas de amor: “Perdoa, Laura, o meu atevimento/ Lê esta carta, rasga e solta ao vento.”

Tinha eu, se tanto, dez anos de idade. Matava aula pra ficar ouvindo o canto de um poeta enfeitiçado, a quem devo a descoberta de duas paixões. Venerei Laura em cada verso que o bardo recitava à beira do rio Acre. Amor sem corpo, abstração de um poeta de água doce.

A segunda descoberta foi o meu súbito amor pela palavra. Juvenal Antunes apurou meu ouvido pra magia da palavra. Ele alternava cânticos de êxtase e de irreverências: “Bendita sejas tu, preguiça amada/ Que não consentes que eu me ocupe em nada.”

Aprendi com ele que a preguiça é um nobre sentimento que habita o coração dos poetas. Preguiça, teu verdadeiro nome é contemplação.

Na viagem que fiz ao Acre, fiquei amigo do governador Jorge Vianna, um moço que está fazendo na minha terra uma revolução sem armas. Sublimação da epopéia acreana em que uma geração de seringueiros anônimos morreu na floresta pela cívica teimosia de ser cidadão brasileiro. Não é uma simples retórica de poeta o verso do hino acreano: “Fulge um astro na nossa bandeira/ que foi tinto com sangue de herois.” Correu sangue, de fato, nos combates de ferro e fogo contra o exército regular da Bolívia.

O neologismo florestania, em lugar de cidadania, é uma bolação de Jorge Vianna, inspirada, certamente, nos ideais de Chico Mendes, cujo martírio converteu-se em bandeira da floresta.

Visitei Xapuri, cidade em que nasci. Reencontrei, confluentes, em doce comunhão, os rios Acre e Xapuri, cúmplices ambos de um remoto devaneio que os anos acabam de me trazer de volta, íntegros. Águas silenciosas que nunca choraram por mim. Nelas, nada mudou. A fluidez é a mesma; mesmo é o remanso, em cujo vagaroso rodeio, até hoje, voltejam as minhas essências.

Louvado seja 2003, o ano que me devolveu a minha infância.

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