Tarde quente, sol escaldante, temperatura térmica: estufa. Ao sair pela garagem do supermercado vejo uma mulher madura rodeada de gatos e cachorros aguardando ansiosamente por um pouco de ração. Todas as tardes, os animais aguardam por ela e ela nunca falta. Eles ficam próximo à caçamba de lixo.
Na mesma semana, no exato trajeto anterior, ouço choro de gatos filhotes implorando por comida, água e abrigo. Sem saber o que fazer, aguardei com eles a senhora que alimenta os animais. Ela me disse que isso era comum, todos os dias, alguém abandona filhotes no lixo do supermercado. Virou um ponto de abandono. Explicou para mim como as coisas funcionavam por ali enquanto abria o bagageiro do carro e retirava uma caixa de transporte para gatos. Ela anda preparada para o resgate. Peguei o número dela e passamos a conversar, desde então passei por um portal desafiador.
Conheci o mundo das protetoras de animais. Um termo muito belo, mas pesado, quase esmagador. As protetoras anularam a própria vida para resgatar animais que não conseguem se expressar e pedir ajuda. Elas acordam cedo para distribuir ração em colônias de animais de rua, que gastam o próprio salário em remédios veterinários, que transformam suas casas em abrigos improvisados, que perdem o sono com filhotes resgatados do lixo.
Em Rio Branco, como em todo o Brasil, essas mulheres sustentam, quase sozinhas, um sistema que deveria ser público. Castração, vacinação, alimentação, tratamento de doenças, socialização para adoção: tudo sai do bolso delas. Quando o dinheiro acaba – e sempre acaba – vem o pedido de ajuda nas redes sociais e o apelo aos conhecidos. A exaustão é silenciosa e constante.
O Acre possui legislação específica sobre o tema. A Lei Estadual de Controle Populacional de Animais Domésticos estabelece, em seu Art. 5°, que são objetivos da política estadual:
“III – buscar a redução dos níveis de abandonos e maus-tratos de animais domésticos; promover articulação entre as esferas do poder público com o setor privado, prevendo cooperações técnicas e financeiras”.
São diversos objetivos. Mas algum deles é minimamente executado?
A resposta, infelizmente, é conhecida por quem convive com essa realidade. Os mutirões de castração são esporádicos. Os abrigos públicos são insuficientes. E as protetoras continuam fazendo, com recursos próprios e a duras penas, o que o Estado deveria garantir por política pública.
O abandono de animais é um problema de saúde pública. Animais errantes sem controle sanitário representam risco de zoonoses, como raiva e leishmaniose. O correto não é exterminar, mas sim controlar a população animal de forma humanitária, por meio de castração em massa e adoção responsável e isso é uma obrigação do Estado, especialmente da prefeitura.
O voluntarismo tem limites. Uma protetora com dez, quinze, vinte animais está prestando um serviço público sem remuneração, sem reconhecimento e sem suporte. Há um custo real que ultrapassa o financeiro: casamentos abalados, empregos comprometidos, saúde mental fragilizada, isolamento social.
A síndrome do acúmulo involuntário, pois ouço relatos de que se resgata mais do que se consegue cuidar. O Estado transferiu para elas uma responsabilidade que é coletiva. O nome disso é omissão.
A regulamentação e execução efetiva das leis já existentes, especialmente a Lei Estadual de Controle Populacional, é o primeiro passo. Além disso, é necessário criar programas municipais e estaduais permanentes de castração gratuita, com parceria entre poder público, universidades e clínicas veterinárias. Também é fundamental estabelecer um cadastro oficial de protetoras e organizações de proteção animal, reconhecendo formalmente o serviço que prestam. Por fim, a destinação de verba pública específica para manutenção de canis e gatis comunitários deve estar prevista nas leis orçamentárias.
Aquela senhora do estacionamento com seu carro cheio de ração e sua caixa de transporte sempre à mão representa milhares de mulheres invisíveis espalhadas pelo Brasil. Elas não pedem aplausos. Pedem o básico: que o Estado cumpra seu papel e que a sociedade pare de terceirizar a própria consciência para quem já está exausta.
Quando passo pelo local, não enxergo mais a cena da mesma forma. A caçamba que é lixo para mim, é o sustento para muitos. A senhora continua indo lá.
E se ela não for? Quem vai? Afinal, os filhotes não param de chegar. E a vida segue.

