Uma descoberta inédita feita no Acre durante a seca extrema de 2024 surpreendeu cientistas e acendeu um alerta sobre os impactos das mudanças climáticas na Amazônia. Pela primeira vez, pesquisadores identificaram formações semelhantes a recifes, até então típicas do ambiente marinho, em um rio amazônico.
As estruturas foram encontradas no rio Muru e descritas em estudo publicado na revista científica Acta Amazonica, com base em pesquisa conduzida pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). A reportagem original é do site (o) eco.
Os chamados “recifes” são formados por densas agregações da ostra de água doce Bartlettia stefanensis, aderidas a plataformas naturais de calcário conhecidas como calcrete, que ficaram expostas com a queda drástica do nível do rio.
Descoberta inesperada em meio à seca
O achado ocorreu em agosto de 2024, no auge da estiagem, quando os níveis dos rios estavam excepcionalmente baixos. Foi nesse cenário que os pesquisadores perceberam algo incomum: extensas áreas cobertas por conchas, formando estruturas contínuas semelhantes a bancos de ostras marinhas.
Segundo o biólogo Fábio Olmos, autor principal do estudo, a descoberta foi totalmente inesperada.
“Quando vi aquilo, pensei: o que isso está fazendo aqui?”, relatou o pesquisador, que tem experiência com ecossistemas costeiros.
Até então, essa espécie era conhecida por viver escondida em cavidades submersas ou nas margens dos rios, o que dificultava sua observação. A formação de estruturas recifais em água doce nunca havia sido documentada na Amazônia.
Durante a expedição, os pesquisadores encontraram áreas com mais de 20 metros de extensão cobertas por conchas, além da presença de outras espécies de moluscos.
As formações também atraíam aves como o chupim-grande e a jaçanã, que se alimentavam no local — indicando que esses “recifes” funcionam como micro-habitats importantes para a fauna.
Além disso, as ostras desempenham um papel ecológico relevante: dependem de peixes para completar seu ciclo de vida e, ao mesmo tempo, ajudam a criar ambientes que abrigam outros organismos aquáticos.
A descoberta está diretamente ligada à seca severa que atingiu o Acre em 2024. Dados da Agência Nacional de Águas (ANA) indicam que o estado enfrentou um período de “seca excepcional” entre agosto e outubro daquele ano.
Esse cenário extremo não apenas revelou o fenômeno, como também expôs um problema: muitas das ostras encontradas estavam mortas ou em processo de morte, possivelmente devido às condições ambientais adversas.
Especialistas alertam que a intensificação de eventos climáticos extremos — agravados pelo desmatamento — pode comprometer a sobrevivência da espécie.
Segundo o engenheiro ambiental Gabriel Caram, a descoberta é tão relevante quanto preocupante.
“Ambientes antes pouco acessíveis estão mais expostos, aumentando o risco de perda de espécies antes mesmo de serem plenamente conhecidas pela ciência”, destacou.
Apesar da descoberta ampliar a área conhecida de ocorrência da espécie, isso não significa maior segurança. A Bartlettia stefanensis já foi classificada como vulnerável no Brasil e hoje aparece como “dados insuficientes” em avaliações nacionais, além de “quase ameaçada” em listas internacionais.
Os pesquisadores alertam que a repetição de secas severas pode dificultar a recuperação dessas populações e até levar à perda definitiva de habitats.
A revelação dos “recifes” amazônicos, portanto, vai além da curiosidade científica: expõe um ecossistema ainda pouco conhecido — e cada vez mais ameaçado antes mesmo de ser totalmente compreendido.

