A Paraíso do Tuiuti é a primeira escola a anunciar o enredo para 2027 e escolheu um tema potente: Ciata: a mãe preta do samba. A personagem tem participação direta no carnaval, na fundação de escolas de samba do Rio de Janeiro, no desenvolvimento do próprio gênero musical e na história do candomblé na cidade.
Tia Ciata ou Aciata veio da Bahia para o Rio. Hilária Batista de Almeida, o nome dela de batismo, nasceu no dia 13 de janeiro de 1854, em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano.
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“Ela é a história do samba, é a religião, a luta por ser uma mulher negra que nem carioca era”, disse o historiador, compositor e enredista, Cláudio Russo em entrevista à Agência Brasil.
“Veio da Bahia e conseguiu se estabelecer, até com um relativo sucesso financeiro, para ajudar outros irmãos que chegavam à Pequena África [região central do Rio de forte presença da cultura preta e por onde chegaram as pessoas escravizadas]”, acrescentou.
Já na adolescência, aos 16 anos, Hilária participava da tradicional Irmandade da Boa Morte, criada em Salvador, em 1810, mas transferida em 1820, para a cidade de Cachoeira, também no Recôncavo, conforme relatos passados pela oralidade de pessoas que viviam na época.
A irmandade, composta de mulheres negras, atuava como uma rede de apoio para comprar a liberdade de pessoas escravizadas. A devoção à Nossa Senhora da Boa Morte se misturou ao candomblé e a festa, entre os dias 14 e 17 de agosto, é repleta de sincretismo.
Candomblé
A religião entrou cedo na vida de Tia Ciata, a filha de Oxum no candomblé, foi iniciada no santo na casa de Bambochê, da nação Ketu. A mudança para o Rio foi aos 22 anos. Trouxe uma filha e formou nova família, quando se casou com João Baptista da Silva, funcionário público. Com ele teve 14 filhos.
A Azul e Amarelo do Morro do Tuiuti, no bairro de São Cristóvão, na zona norte do Rio, vai apresentar na Marquês de Sapucaí a trajetória de uma das matriarcas do samba. O enredo vai ser desenvolvido pelo carnavalesco Renato Lage, que estreia na escola, e escrito pelo professor Luiz Antônio Simas e pelo historiador, compositor e enredista, Cláudio Russo.
“Ela (Ciata) acolhia numa época em que a palavra acolhimento não era nem utilizada. Ela tinha isso de enganar a polícia para manter a religião e o samba. Os ranchos passavam pela casa dela”, contou Russo.
A ideia do enredo surgiu, segundo o historiador, de uma conversa com o irmão dele, que sugeriu levar o tema de Tia Ciata para a avenida. Como já conhecia a personagem, aprofundou a pesquisa e escreveu uma apresentação, com a participação de Simas, para mostrar ao presidente da agremiação, Renato Thor.
“Quando a gente se sentou para uma reunião eu, o presidente, o Simas e o Renato, foi uma unanimidade. É a hora da Tuiuti falar do matriarcado, da liderança feminina, uma mulher preta”, ressaltou.
“A gente já falou de João Cândido, grande herói nacional; a gente falou de Xica Manicongo [considerada a primeira travesti do Brasil] uma trans; então estava faltando na nossa galeria de enredos o empoderamento de uma mulher preta”, completou Russo.
Ele destacou que ao mesmo tempo a Tuiuti vai contar uma história muito relacionada ao Rio de Janeiro, mas que até agora não tinha sido enredo de escola de samba, embora o nome de Tia Ciata já tivesse sido citado em sambas das agremiações em anos anteriores.
Para o presidente da Paraíso do Tuiuti, que participou da discussão para a escolha do enredo, o importante é continuar exaltando o povo preto, uma marca da escola nos últimos carnavais.
“A Tia Ciata sempre foi citada em desfiles, mas ainda não teve a sua história contada”, disse Thor em um texto divulgado pela escola.
“A gente vai manter por um bom tempo essa linha, porque carnaval também é trazer visibilidade a alguns personagens que estão esquecidos”, completou Russo.
Russo informou que o carnavalesco Renato Lage recebeu bem o tema em homenagem à Tia Ciata. “O Renato está de braços e coração abertos e falou: Cláudio, nós vamos trabalhar juntos e, com certeza, vamos fazer um grande carnaval na Tuiuti”, disse o enredista.
“O Renato quando faz enredos dessa linha faz muito bem feito. É um gênio com muita vontade de acertar. A gente confia muito no visual do Renato. Ele não é chamado de mago à toa”, acrescentou.
Russo revelou, ainda, que embora ainda não esteja acertado como será a narrativa do enredo, já há alguns rumos que passam pela história de Tia Ciata vindo da Bahia.
O candomblé, quando ela é feita na Oxum, e a história dela dialogando com o Rio de Janeiro, época em “que [o Rio] passava por uma transformação urbana e expulsava os corpos pretos do centro da cidade”.
“Os cortiços foram jogados abaixo. Isso tudo a gente vai mencionar. A polícia ia contra o samba e a macumba. O candomblé era combatido também. A gente vai falar dela, mas também do Rio de Janeiro que ela viveu e das relações que aconteciam no Rio”, contou.
Samba
Como tem feito todos os desde 2018, para o desfile de 2027, a escola vai se apresentar no Sambódromo com um samba encomendado, que será feito pelo trio de compositores Cláudio Russo, Luiz Antônio Simas e Gustavo Clarão.
Em 2021, por causa da pandemia, não houve desfile. E em 2022, pelo mesmo motivo, foi adiado para abril, mas este foi o único ano do período que houve disputa de samba enredo na quadra da Tuiuti.
“A gente está com uma responsabilidade do tamanho do mundo pelo enredo que é e pelo samba deste ano ter sido tão aclamado. A gente, então, tem que fazer um samba, no mínimo, com o mesmo valor”, observou Russo.
A família de Tia Ciata vai participar do desenvolvimento do enredo. A bisneta da matriarca, Gracy Mary Moreira, que preside a Casa Tia Ciata, um ponto de cultura na Rua Camerino, nº 5, na região central da cidade, que permite ao visitante conhecer a história desta importante personagem brasileira, vai se reunir com a diretoria na semana que vem.
“A gente quer que participe de tudo, que seja uma narrativa que a família se veja ali também e desfile com a gente”, disse.
Lançamento
O historiador e compositor Cláudio Russo adiantou que no dia 5 de abril a Tuiuti comemora mais um aniversário e, possivelmente, no fim de semana seguinte, vai fazer a festa de apresentação oficial do enredo e de toda a equipe do Carnaval 2027 na Cidade do Samba, região portuária do Rio. O lançamento do samba será em data mais adiante, ainda não marcada.

