Realizar cinema na Amazônia é um exercício que exige tanto sensibilidade artística quanto precisão estatística. Para Francisco Teddy Falcão, a intersecção entre tecnologia, cultura e memória é o chão onde se constrói uma indústria audiovisual real. Cientista de dados e realizador, ele traz uma visão que vai além do “discurso bonito”: para ele, o cinema é uma cadeia produtiva capaz de mudar a história econômica de um estado como o Acre.
Em entrevista profunda, Teddy analisa os gargalos estruturais, a recente política de investimentos federais e a urgência de o estado enxergar o audiovisual não como um “enfeite cultural”, mas como um setor estratégico de desenvolvimento.

Francisco Teddy Falcão utiliza ciência de dados para mapear gargalos do cinema no Acre/ Foto: Fhagner Soaraes
A alavanca dos Arranjos Regionais: uma vitória com ressalvas
Recentemente, o Acre recebeu um aporte de R$ 3 milhões via Política de Arranjos Regionais, uma iniciativa do Ministério da Cultura e da Ancine que funciona como uma “alavanca”: o investimento local destrava recursos federais. Teddy comemora o montante como uma vitória para a profissionalização do setor, mas utiliza sua expertise em dados para fazer um alerta sobre a escala do investimento.

Setor audiovisual defende que o Acre seja protagonista de suas próprias narrativas urbanas/ Foto: Instagram
“O valor de R$ 3 milhões revela uma escolha política: entrar no mínimo”, explica. Pelas regras do edital, o Acre poderia ter pleiteado até R$ 30 milhões em complementação federal do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) caso a contrapartida local fosse maior. “A diferença entre R$ 3 milhões e R$ 24 ou R$ 30 milhões não é detalhe, é projeto. Quando o governo local escolhe o mínimo, ele deixa de aproveitar uma chance gigante de formar mercado e dar previsibilidade para quem trabalha aqui”.

O Acre não é só floresta; é também cidade, contradição, tecnologia e conflito urbano”, defende/ Foto: Fhagner Soares
O “Custo Amazônia” e a régua desigual
Um dos maiores entraves para o cineasta nortista é o que ele chama de “Custo Amazônia”. Editais nacionais que aplicam valores padronizados ignoram as distâncias continentais, a logística de transporte por rios e aviões e a necessidade de equipamentos protegidos para climas extremos.
“A métrica uniforme transforma desigualdade geográfica em desigualdade de oportunidade”, pontua Teddy. Segundo ele, orçamentos iguais para realidades diferentes forçam o realizador acreano a cortes drásticos: “Corta-se diária de equipe, encurta-se a pesquisa de campo e elimina-se justamente o que faz a narrativa ser verdadeira: o tempo do território”. Para ele, o Norte não quer privilégios, mas métricas justas que reconheçam o custo real de produzir na floresta e nas cidades amazônicas.
Além da floresta: O Acre urbano e contemporâneo
Teddy também faz uma provocação necessária sobre o “olhar exotificado” que festivais do Sudeste e cineastas de fora ainda lançam sobre a região. Existe uma expectativa pré-formatada de que o cinema amazônico deve se restringir a temas de ancestralidade e paisagens intocadas.

Teddy Falcão analisa os desafios da indústria do cinema no Acre/ Foto: Instagram
“O Acre não é só floresta; é também cidade, contradição, juventude, tecnologia e conflito urbano”, defende. Ele argumenta que a autonomia financeira é o que permite ao cineasta local decidir sua própria narrativa, deixando de ser apenas o “objeto filmado” para se tornar o sujeito da memória. Sem esse controle editorial, a Amazônia corre o risco de virar apenas uma “commodity narrativa” para produções que chegam de fora, utilizam o cenário e vão embora sem fortalecer a economia local.
O ecossistema privado e o desafio da permanência
Diferente do Sul e Sudeste, onde o mercado publicitário e empresas privadas investem via renúncia fiscal, o Acre ainda depende quase exclusivamente de editais públicos. Essa intermitência impede que as equipes se mantenham unidas e que o conhecimento técnico se sedimente.

Desequilíbrio: Norte concentra o menor número de salas de cinema por habitante no país/ Foto: Instagram
Os dados da Ancine reforçam essa disparidade: o Sudeste concentra mais de 52% das salas de cinema do país, enquanto o Acre registra apenas sete salas em funcionamento. No acesso territorial, o abismo é maior: no Norte, mais de 50% da população vive em cidades sem nenhuma sala de cinema.
Para Teddy, a solução passa por políticas integradas:
- Regionalização das cotas de tela: Garantir que filmes acreanos tenham prioridade nas salas do próprio Acre para formar plateia e identificação local.
- Formação contínua: Entender que técnica se aprende no set. Sem produção constante, o talento local acaba migrando para o Rio ou São Paulo em busca de sobrevivência.
- Engajamento empresarial: Aproximar as empresas locais do setor audiovisual, mostrando o potencial de retorno de marca e memória.
Um horizonte para 2036

Defesa de um cinema acreano urbano e contemporâneo busca romper com a imagem de “commodity narrativa” imposta pelo Sudeste/ Foto: Fhagner Soares
Ao olhar para o futuro, Teddy Falcão não busca apenas reconhecimento nacional, mas dignidade profissional no seu território. “O Teddy de daqui a 10 anos não deve precisar sair de Rio Branco para ser reconhecido. Ele deve escolher estar aqui, com estrutura e mercado”. Para ele, a mudança não depende de falta de capacidade, mas de visão estratégica e compromisso público para tratar o audiovisual como o que ele realmente é: uma indústria cheia de vontade de acontecer.