O que deveria ser um marco no avanço da saúde pública no interior do Acre está se transformando em um retrato contundente de descaso com a população. A obra do novo Hospital João Câncio Fernandes, em Sena Madureira, arrasta-se há mais de cinco anos e agora enfrenta suspeitas graves de falhas estruturais, um cenário que penaliza diretamente milhares de pessoas que dependem da unidade.
A crise vai além de concreto e ferro. Trata-se de vidas impactadas diariamente por um sistema de saúde limitado, que continua funcionando em um prédio pequeno, antigo e claramente insuficiente para atender a demanda de Sena Madureira, terceiro maior município do estado. Enquanto isso, a promessa de um novo hospital segue distante da realidade.
A situação é ainda mais grave porque a unidade não atende apenas o município. Toda a região do Alto Purus depende daquele hospital, incluindo Manoel Urbano, Santa Rosa do Purus e inúmeras comunidades ribeirinhas espalhadas ao longo do Rio Purus, muitas delas isoladas e sem alternativas de atendimento. Para essa população, o atraso não é apenas incômodo: é uma ameaça concreta à saúde e à vida.
As informações de que a obra pode ter sido executada com materiais fora das especificações técnicas, como ferro de qualidade inferior, elevam o caso a outro patamar. Se confirmadas, não se trata apenas de erro, trata-se de irresponsabilidade com dinheiro público e, principalmente, com a população que mais precisa.
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O resultado desse possível desvio de qualidade é brutal, de uma estrutura que pode não ser segura, que pode precisar de reparos caros ou até ser parcialmente demolida. Em qualquer um dos cenários, quem paga a conta é o cidadão, seja no bolso, com mais recursos públicos sendo consumidos, seja na pele, com a continuidade de um atendimento precário.
O prejuízo é duplo e inaceitável. De um lado, milhões de reais já investidos em uma obra que não cumpre sua função. De outro, uma população inteira abandonada à própria sorte, espremida em um sistema de saúde que não acompanha suas necessidades.
Diante desse quadro, não há mais espaço para silêncio ou lentidão. O secretário de Saúde, José Bestene, um gestor experiente e que já fez muito pela saúde no Acre, terá que tratar o caso como prioridade absoluta. Já a governadora Mailza Assis precisa agir com firmeza, indo pessoalmente ao local, determinando auditorias rigorosas e cobrando responsabilização de todos os envolvidos.
Se houve erro técnico, que seja corrigido. Se houve negligência ou má-fé, que os responsáveis sejam punidos com o rigor da lei.
O que não é mais aceitável é que a população de Sena Madureira e de todo o Alto Purus continue pagando o preço de uma obra mal conduzida. O hospital que deveria salvar vidas não pode continuar sendo símbolo de abandono.


