Ícone do site ContilNet Notícias

O poder do batom na urna: por que a política brasileira precisa de mulheres

Por Mayra Villasante, para o ContilNet

A democracia brasileira padece de uma anemia de representatividade que não pode mais ser ignorada

Mayra Villasante. — Foto: Reprodução

A democracia brasileira padece de uma anemia de representatividade que não pode mais ser ignorada. Embora sejamos a maioria da população e do eleitorado, ocupamos um espaço marginal nos centros de decisão. Hoje, as mulheres representam apenas 17,8% a 18% do Congresso Nacional – um número que, embora histórico para os nossos padrões, é um retrato fiel da exclusão. São apenas 91 deputadas em um universo de 513, e 16 senadoras entre 81 parlamentares. Essa conta não fecha e o prejuízo é de toda a sociedade.

Historicamente, o Congresso Nacional foi desenhado por homens e para homens. As barreiras enfrentadas pelas parlamentares vão desde o fomento escasso pelos partidos até a violência política de gênero, que tenta silenciar vozes femininas nos plenários. Sem igualdade de condições para disputar, a sub-representação torna-se um ciclo vicioso.

Recentemente, assistimos a uma vitória estratégica na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A mobilização das parlamentares barrou a tentativa de retirar o direito aos 30% de candidaturas proporcionais nas chapas e garantiu a reserva de 20% de cadeiras efetivas no Legislativo dentro do novo Código Eleitoral. Essa movimentação impediu um retrocesso institucional que nos empurraria décadas para trás.

LEIA TAMBÉM: Não estamos seguras nas ruas, mas também não estamos no recôndito dos nossos lares

Um argumento comum é que homens podem legislar para mulheres. Em teoria, sim; na prática, a realidade é outra. Existe uma subjetividade da vivência feminina que nenhum homem, por mais bem-intencionado que seja, consegue mimetizar.

Somente uma mulher compreende a urgência de políticas públicas para a rede de cuidados, a dor da violência obstétrica, as nuances do assédio no ambiente de trabalho e a desigualdade salarial que persiste mesmo com currículos idênticos. O pensamento coletivo feminino não é um “clube”, mas uma rede de proteção e defesa de direitos básicos que, muitas vezes, são invisíveis aos olhos masculinos.

A mudança não virá apenas por decreto; ela nasce na ponta do dedo, na urna eletrônica. O voto consciente é o nosso maior instrumento de pressão. Ao votar, não estamos escolhendo apenas um nome, mas decidindo se queremos mais mulheres sentadas à mesa onde o futuro do país é decidido ou se aceitaremos continuar como espectadoras das leis que regem nossas próprias vidas.

Precisamos de mulheres que defendam mulheres. Precisamos de representantes que entendam que a nossa presença na política não é uma concessão, mas um direito. Que nas próximas eleições, o nosso dever de cidadã seja exercido com a clareza de que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive – e principalmente – no poder.

Sair da versão mobile