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Polícia penal: a engrenagem esquecida da segurança pública

Por Adriano Marques para o ContilNet

Polícia Penal/Foto: Reprodução

Por muito tempo, o debate sobre segurança pública no Brasil girou em torno de duas figuras centrais: a polícia que investiga e a polícia que reprime. No meio desse duelo institucional, uma força permaneceu à margem — silenciosa, invisível e, paradoxalmente, essencial: a Polícia Penal.

Desde a promulgação da Emenda Constitucional nº 104 de 2019, não há mais dúvida jurídica: a Polícia Penal é, formalmente, parte do sistema de segurança pública brasileiro. Mas entre o reconhecimento constitucional e a realidade concreta existe um abismo — e ele é medido, sobretudo, em estrutura e remuneração.

A pergunta que precisa ser feita — sem rodeios — é simples: como o Estado brasileiro trata aqueles que lidam diariamente com o núcleo mais organizado e violento do crime?

O EPICENTRO DO CRIME ESTÁ ATRÁS DAS GRADES

Diferentemente da Polícia Civil do Brasil, cuja atuação se concentra na investigação, e da Polícia Federal do Brasil, que opera em âmbito nacional com forte aparato técnico, a Polícia Penal ocupa um espaço exclusivo: sistema penitenciário e execução penal.

É ali que o crime organizado se articula, se fortalece e, muitas vezes, se expande. Facções não apenas sobrevivem nas prisões — elas se estruturam nelas.

Nesse cenário, o policial penal não é um mero agente de custódia. Ele é:

Ainda assim, em muitos estados, esse profissional continua sendo tratado como peça secundária.

O QUE OS NÚMEROS REVELAM (E O DISCURSO ESCONDE)

Uma forma objetiva de compreender essa realidade é observar, de maneira direta e organizada, o que cada força policial executa na prática:

Comparativo de Atuação Institucional

Polícia penal: a engrenagem esquecida da segurança pública

O quadro é revelador. Ele desmonta a ideia — ainda presente em parte do debate público — de que a Polícia Penal exerce função limitada.

Na prática, o que se observa é o oposto: trata-se da única força que atua de forma contínua no ambiente onde o crime organizado se estrutura, se comunica e se fortalece.

“Enquanto outras instituições operam predominantemente fora dos muros, o policial penal enfrenta o problema em sua origem cotidiana — sem interrupção, sem recuo e sob risco permanente.”

Enquanto outras instituições operam predominantemente fora dos muros, o policial penal enfrenta o problema em sua origem cotidiana — sem interrupção, sem recuo e sob risco permanente.

A DISTORÇÃO QUE O BRASIL INSISTE EM IGNORAR

Enquanto carreiras da Polícia Civil do Brasil iniciam com salários que podem chegar a R$ 8 mil, e a Polícia Federal do Brasil ultrapassa os R$ 13 mil já na entrada, a Polícia Penal historicamente ficou atrás — mesmo operando em um ambiente de risco constante.

Essa distorção não é apenas injusta. É irracional. O Estado exige do policial penal:

Mas, ao mesmo tempo, muitas vezes não oferece remuneração compatível com essa realidade.

O resultado é previsível: desvalorização, evasão de talentos e fragilidade institucional.

UMA PROPOSTA QUE MUDA O JOGO

Diante desse cenário, ganha força um modelo que rompe com o passado: a carreira única da Polícia Penal, estruturada de forma progressiva — do agente ao comissário especial.

A lógica é simples, mas poderosa: todos começam na base operacional e, ao longo da carreira, podem alcançar funções estratégicas de comando.

Não se trata apenas de reorganização administrativa. Trata-se de uma mudança de paradigma.

Ao contrário do modelo fragmentado das Polícias Civis e da Polícia Federal, onde há separação rígida entre execução e comando, a carreira única permite que o gestor conheça, na prática, a realidade que administra.

Isso reduz distâncias, melhora decisões e fortalece a instituição.

Nesse contexto, o Estado do Acre já apresenta um modelo que materializa, na prática, essa lógica de progressão estruturada. Conforme a Lei Complementar nº 392, de 17 de dezembro de 2021, o cargo de policial penal é definido como atividade de natureza típica e exclusiva de Estado, exercida em regime de dedicação integral e exclusiva, sendo estruturado nas seguintes classes:

Trata-se, inegavelmente, de uma das estruturas mais modernas entre as polícias penais do Brasil — mas que, contraditoriamente, ainda não foi acompanhada pelo devido reconhecimento financeiro nem por condições de trabalho compatíveis com o nível de responsabilidade e complexidade das atribuições exercidas.

SALÁRIO NÃO É PRIVILÉGIO — É ESTRATÉGIA DE ESTADO

A proposta de remuneração associada a esse modelo não é exagero. É consequência lógica.

Valores que, à primeira vista, podem causar resistência — até serem comparados com outras forças.

No topo da carreira, a equiparação com cargos de alta gestão da Polícia Civil e da Polícia Federal do Brasil não é um privilégio. É uma necessidade.

“Porque o que está em jogo não é apenas a valorização do servidor, mas a capacidade do Estado de controlar o sistema prisional. E quando o Estado perde esse controle, quem assume é o crime organizado.”

Porque o que está em jogo não é apenas a valorização do servidor, mas a capacidade do Estado de controlar o sistema prisional.

E quando o Estado perde esse controle, quem assume é o crime organizado.

O CUSTO DA OMISSÃO É MAIOR QUE O DA VALORIZAÇÃO

Ignorar a Polícia Penal tem um preço — e ele já está sendo pago.

Presídios dominados por facções, ordens criminosas partindo de dentro das celas, rebeliões, fugas e expansão territorial do crime são sintomas de um sistema fragilizado.

Fortalecer a Polícia Penal não é uma escolha corporativa. É uma decisão estratégica.

É reconhecer que o combate ao crime não começa apenas nas ruas, mas também — e talvez principalmente — dentro dos muros.

UMA ESCOLHA QUE DEFINE O FUTURO

O Brasil está diante de uma encruzilhada.

Pode continuar tratando a Polícia Penal como coadjuvante, mantendo estruturas frágeis e salários defasados, ou pode assumir uma postura mais racional: investir onde o crime se organiza.

A carreira única, com progressão estruturada e remuneração compatível, não resolve todos os problemas. Mas corrige um dos mais graves: a incoerência entre responsabilidade e reconhecimento.

No fim, a questão não é quanto custa valorizar a Polícia Penal. A questão é: quanto custa não valorizar?

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