A crise recente envolvendo a governadora Mailza Assis e a tentativa de mudança no comando da comunicação institucional do governo do Acre revela muito mais do que um episĂłdio administrativo, expõe tensões tĂpicas de transição de poder, fragilidades na condução polĂtica e, sobretudo, os riscos da forma como decisões sĂŁo executadas.
É inquestionável que Mailza Assis, agora investida plenamente no cargo, possui prerrogativa legal e polĂtica para montar sua equipe. Isso inclui, naturalmente, substituir nomes estratĂ©gicos, como o comando da Secretaria de Comunicação. Trata-se de uma prática comum em qualquer governo que busca imprimir identidade prĂłpria.
No entanto, o ponto crĂtico nĂŁo está na decisĂŁo em si, mas na forma como ela foi conduzida.
A exposição dos jornalistas AstĂ©rio Moreira e Nayara Lessa, profissionais reconhecidos no meio, gerou uma reação imediata e intensa. Em ambientes polĂticos já tensionados, episĂłdios como esse ganham proporções maiores porque tocam em valores sensĂveis: respeito, Ă©tica profissional e dignidade no trato humano.
Demissões fazem parte da dinâmica administrativa. Mas há um protocolo tácito, quase um código de honra, que rege essas situações: comunicação direta, reconhecimento pelos serviços prestados e discrição. Quando isso é rompido, o desgaste deixa de ser apenas interno e passa a contaminar a opinião pública.
O Acre, como se sabe, possui um ecossistema polĂtico e midiático profundamente interligado. O episĂłdio rapidamente extrapolou os bastidores e mobilizou jornalistas, lideranças polĂticas e formadores de opiniĂŁo.
De um lado, surgiram crĂticas Ă governadora pela condução do processo. De outro, houve quem defendesse seu direito de reorganizar a equipe. No meio disso, um elemento perigoso começou a ganhar força: a narrativa de crise permanente.
E crise, na polĂtica, quando nĂŁo Ă© contida rapidamente, vira combustĂvel para adversários e desgaste contĂnuo para quem governa.
Há um ponto central que não pode ser ignorado: todo governo, cedo ou tarde, se resume à figura de quem o lidera.
Independentemente de quem aconselhou, executou ou articulou a tentativa de mudança, o Ă´nus recai integralmente sobre Mailza Assis. Na prática polĂtica, nĂŁo existe terceirização de responsabilidade.
É ela quem responderá pelos acertos e, principalmente, pelos erros.
Outro elemento que emergiu nesse contexto foi a insistência em associar o ex-governador Gladson Cameli a decisões do atual governo.
Esse tipo de narrativa, ainda que muitas vezes baseada em percepções ou especulações, tem alto potencial de desgaste. Alimenta desconfiança, fragiliza a autoridade da atual gestora e cria a impressão de um governo sem autonomia plena.
Em polĂtica, percepção frequentemente pesa tanto quanto a realidade.
Talvez o aspecto mais preocupante desse episĂłdio seja a postura de setores que parecem apostar no agravamento da crise.
A lógica do “quanto pior, melhor” não atinge apenas o governo, ela atinge diretamente a população. Um governo enfraquecido, acuado e sob pressão constante tem menor capacidade de responder aos problemas estruturais do Estado.
E o Acre, como bem sabemos, nĂŁo carece de desafios.
Do ponto de vista polĂtico e administrativo, a melhor saĂda neste momento Ă© clara: encerrar o assunto.
Isso não significa ignorar o ocorrido, mas sim evitar sua prolongação desnecessária. Crises pequenas, quando mal geridas, tornam-se grandes. Crises grandes, quando alimentadas, tornam-se crônicas.
Para Mailza Assis, o caminho mais inteligente é retomar o controle da narrativa, reorganizar internamente sua equipe e focar na entrega de resultados concretos à população.
O episódio deixa uma lição importante: governar não é apenas exercer poder, mas saber como exercê-lo.
A autoridade legitima decisões.
A sensibilidade legitima lideranças.
Se conseguir equilibrar esses dois elementos, Mailza Assis terá condições de superar não apenas essa crise, mas outras que inevitavelmente surgirão.
Porque, no fim, como bem se diz na polĂtica, e na vida pĂşblica, todos estĂŁo no mesmo barco. E ninguĂ©m se beneficia quando ele balança alĂ©m do necessário.

