A tragédia ocorrida no Instituto São José não pode ser tratada apenas como um episódio isolado, fruto do acaso ou da maldade individual de alguém. Seria confortável demais acreditar nisso. Tragédias assim são também sintomas de um tempo adoecido.
Vivemos em uma sociedade cada vez mais cansada, intolerante, individualista e emocionalmente exausta.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em sua obra Psicopolítica – o neoliberalismo e as novas técnicas de poder, explica como a sociedade contemporânea transformou o desempenho, a produtividade e a competição permanente em mecanismos de controle social. Já não vivemos apenas sob a lógica da disciplina e da repressão, mas da autoexploração constante. Somos pressionados o tempo inteiro a produzir mais, render mais, performar mais e competir mais.
Nesse modelo, o fracasso deixa de ser entendido como resultado das desigualdades sociais e passa a ser tratado como culpa individual. Isso produz uma sociedade cansada, ansiosa, adoecida e incapaz de desacelerar.
Pais trabalham jornadas cada vez mais longas. Mães vivem sobrecarregadas. Famílias mal conseguem conviver. Em muitos lares, as pessoas já não compartilham tempo, conversa ou afeto de forma cotidiana.
Não porque deixaram de amar seus filhos, mas porque o próprio modelo neoliberal de sociedade foi retirando das pessoas o direito ao convívio.
Por isso, debates como o fim da escala 6×1 precisam ser compreendidos também como debates sobre saúde social, convivência familiar e reconstrução dos vínculos humanos. Nenhuma sociedade permanecerá emocionalmente saudável se pais e mães forem condenados a viver apenas para trabalhar, sem tempo para acompanhar os filhos, conviver em família, participar da comunidade e construir relações humanas reais.
Nesse vazio, entram os algoritmos, as redes sociais e os dispositivos eletrônicos ocupando um espaço que antes era preenchido pela família, pela comunidade, pela escola, pela convivência humana real.
Estamos criando uma geração hiperconectada digitalmente, mas profundamente isolada emocionalmente.
E talvez a pergunta mais dolorosa que essa tragédia nos imponha seja esta: o que aconteceu conosco como sociedade para que uma criança de apenas 13 anos fosse capaz de cometer um crime tão brutal, tirando friamente a vida daquelas que se dedicavam a cuidar e protegê-la?
Essa é uma reflexão importante porque tragédias como essa não podem ser explicadas de forma simplista. Existe um adoecimento social mais profundo, que atravessa famílias, escolas, instituições e a própria forma como aprendemos a conviver uns com os outros.
Ao mesmo tempo, precisamos ter coragem de enfrentar outra questão delicada: a responsabilidade da educação dos filhos não pode ser terceirizada. Escola é fundamental. Religião pode cumprir um papel importante. A tecnologia pode ser ferramenta útil. Mas nenhuma dessas estruturas substitui a presença, o diálogo, o limite, o afeto e a responsabilidade cotidiana dos pais e das famílias na formação humana das crianças e adolescentes.
Quando o processo educativo é transferido integralmente para a internet, para influenciadores, para algoritmos ou para terceiros, perdemos uma dimensão essencial da convivência humana: a transmissão cotidiana de valores como respeito, solidariedade, empatia e responsabilidade coletiva.
Ao mesmo tempo, cresce no mundo inteiro uma cultura baseada no ódio, na intolerância e na desumanização do outro. O adversário virou inimigo. A diferença virou ameaça. A violência passou a ser celebrada como demonstração de força.
O discurso extremista que naturaliza racismo, misoginia, LGBTfobia, preconceito de classe e culto às armas produz consequências concretas. Nenhuma sociedade permanece saudável quando transforma brutalidade em valor moral e empatia em sinal de fraqueza.
Nos últimos anos, sobretudo com a ascensão da extrema direita no Brasil e no mundo, ouvimos repetidamente que “arma resolve”, que “direitos humanos atrapalham”, que “bandido bom é bandido morto” e que o diferente deve ser eliminado ou silenciado. Esse discurso ajuda a moldar comportamentos, especialmente entre jovens emocionalmente vulneráveis, socialmente isolados e expostos diariamente à radicalização das redes.
É claro que não existe explicação simples para fenômenos complexos. Nenhuma tragédia nasce de uma única causa. Mas também não podemos fingir que tudo isso não tem relação com o tipo de sociedade que estamos construindo.
Talvez o maior desafio do nosso tempo seja justamente reconstruir os vínculos humanos que foram sendo destruídos pela lógica do individualismo extremo, da competição permanente e da intolerância.
Para além das medidas de força necessárias para prevenir e conter a violência, precisamos voltar a falar sobre convivência, solidariedade, escuta, saúde mental, cultura de paz e responsabilidade coletiva. Nenhuma política de segurança será suficiente se continuarmos produzindo uma sociedade marcada pelo isolamento, pelo ódio e pela incapacidade de construir vínculos humanos saudáveis.
Precisamos defender escolas como espaços de acolhimento e humanidade.
Precisamos reconstruir o valor da comunidade, da família, da amizade, do tempo compartilhado e do respeito às diferenças.
Porque tragédias como essa começam muito antes do momento do disparo. Elas nascem em uma sociedade que substitui solidariedade por competição, convivência por isolamento e humanidade por desempenho. Uma sociedade que se desumaniza, ensina as pessoas a disputar entre si e desaprende a cuidar umas das outras.
*André Kamai* é sociólogo, vereador de Rio Branco e presidente do PT do Acre.

