Não é mais uma questão de estilo de governo, é sobrevivência política em contagem regressiva.
A situação de Mailza Assis entrou numa fase em que os problemas deixaram de ser administráveis nos bastidores e começaram a vazar pelos corredores, e, pior, pela própria base. O ruído já não é sussurro, virou recado público, ameaça velada e teste de autoridade.
O governo que herdou uma engrenagem relativamente azeitada agora convive com o risco de desmontá-la no pior momento possível. A possível fritura de Jhonatan Donadoni é o sintoma mais evidente de um erro clássico: tentar reorganizar o time quando o campeonato já está na reta final. Casa Civil não é cargo decorativo; é centro de gravidade. Mexer ali, agora, é brincar com a estabilidade de um governo que já balança.
E o problema não para no Executivo. Na Assembleia, a base aliada dá sinais de fadiga, e de oportunismo. Deputado insatisfeito não avisa duas vezes. Primeiro reclama, depois negocia, e por fim desembarca. Os “resmungos” que ecoam hoje são o estágio inicial de uma possível debandada. E os destinos já estão no radar: Alan Rick e Tião Bocalom.
O episódio de Michele Melo escancarou o nível de tensão. Quando a insatisfação vira discurso público e ainda vem acompanhada de respaldo político familiar, o recado é cristalino: a base não está mais sob controle. E base descontrolada, em ano eleitoral, vira ativo tóxico.
O tempo, nesse cenário, não é só curto, é cruel. Faltando poucos meses para a eleição, não existe margem para “testar” equipe, recalibrar alianças ou imprimir uma marca administrativa do zero. Isso exige capital político, previsibilidade e coesão, três coisas que hoje estão em falta.
A tentação de montar um governo “com a própria cara” é compreensível, mas chega tarde demais. Política não perdoa timing errado. Ao desmontar peças que já provaram eficiência eleitoral no ciclo de Gladson Cameli, Mailza corre o risco de trocar experiência por improviso, e improviso, nessa altura do jogo, costuma cobrar caro.
Enquanto isso, Tião Bocalom segue no papel que mais lhe favorece: o de resistência. Não precisa fazer movimentos bruscos; basta assistir o desgaste alheio e manter a própria narrativa de consistência. Em política, às vezes vence quem erra menos, e não quem tenta reinventar tudo na última hora.
O quadro é direto: aliados inquietos, base instável, núcleo sob pressão e calendário avançando sem piedade. Se insistir em mexer onde ainda há sustentação, Mailza pode transformar dificuldade em colapso.
Porque, neste momento, o maior adversário do governo pode não estar fora. Pode estar dentro da própria engrenagem.

