Mudanças de comportamento, isolamento e irritabilidade podem ser indícios claros de sofrimento emocional em crianças e adolescentes mas, segundo a psicóloga acreana Elizângela Costa, esses sinais ainda são frequentemente subestimados dentro de casa, muitas vezes confundidos com “fases da idade”.
Em análise sobre o comportamento infantojuvenil, a psicóloga afirma que o sofrimento emocional raramente aparece de forma explícita. Em vez disso, ele se manifesta por alterações no dia a dia da criança.
“Irritabilidade, explosões, isolamento, queda no rendimento escolar, mudanças no sono e no apetite são sinais importantes. A criança não vai necessariamente dizer que está mal, ela mostra isso nas mudanças”, explica.
De acordo com a profissional, muitos pais não conseguem interpretar a gravidade desses sinais, seja pela rotina acelerada, seja pela falta de informação sobre saúde mental. “Existe uma tendência de minimizar, de achar que é só uma fase, que vai passar. E isso pode atrasar intervenções importantes”, pontua.
Outro fator apontado por Elizângela é o uso precoce e sem supervisão de celulares. Segundo ela, o contato com telas desde muito cedo tem impactado diretamente o comportamento das crianças.
“Hoje atendemos crianças de dois, três anos já com dificuldades relacionadas ao uso de telas. Isso interfere no sono, no apetite, na aprendizagem e na tolerância à frustração”, afirma.
A psicóloga também chama atenção para a exposição a conteúdos inadequados, como violência e discursos de ódio, especialmente em ambientes digitais sem monitoramento. “O cérebro ainda está em desenvolvimento. Esse tipo de estímulo pode aumentar a impulsividade e o isolamento social”, diz.
Ao comentar casos recentes envolvendo adolescentes, a especialista evita conclusões específicas, mas destaca que a ausência de supervisão e diálogo pode abrir espaço para influências externas prejudiciais.
Para além dos sinais, ela reforça que a prevenção começa muito antes de qualquer comportamento extremo. Segundo ela, três pilares são fundamentais dentro da família: vínculo, previsibilidade e limites.
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“Tudo começa dentro de casa. Antes de qualquer comportamento preocupante aparecer, é preciso construir vínculo, estabelecer regras claras e garantir um ambiente seguro emocionalmente”, afirma.
Ela destaca que o diálogo familiar é um dos principais fatores de proteção. “Não é só perguntar como foi o dia. É criar um espaço onde a criança possa falar sobre medo, raiva, insegurança, sem medo de julgamento ou correção imediata”, explica.
Quando esse ambiente existe, segundo a psicóloga, os pais conseguem perceber mudanças de forma mais precoce, seja pelo silêncio, pelo olhar ou pelo comportamento.
A definição de limites também é apontada como essencial no desenvolvimento emocional. “A criança precisa entender desde cedo que existem regras e combinados. Isso ajuda na construção da responsabilidade, da constância e na compreensão de que nem todos os desejos serão atendidos”, conclui.
Ainda segundo a psicóloga, a família tem um papel essencial na identificação precoce de sinais de sofrimento emocional, especialmente em um cenário em que crianças passam mais tempo conectadas e, muitas vezes, expostas sem supervisão a conteúdos que impactam diretamente o comportamento, o sono, a aprendizagem e as relações dentro de casa.