A polĂtica brasileira Ă© uma montanha-russa administrada por roteiristas de novela mexicana. Em menos de uma semana, Lula saiu do inferno para o cĂ©u, enquanto a oposição bolsonarista fez exatamente o caminho contrário — do cĂ©u ao inferno, como numa versĂŁo tropical de Dante Alighieri, onde os cĂrculos infernais sĂŁo substituĂdos por CPIs, operações da PolĂcia Federal e trending topics no X.
Tudo começou com o governo Lula levando pancadas no Congresso Nacional. A articulação entre extrema-direita, direita tradicional e centrĂŁo impĂ´s derrotas relevantes ao Planalto. O bolsonarismo comemorava como torcida organizada em final de campeonato. Nas redes sociais, já havia gente decretando o inĂcio da falĂŞncia polĂtica do lulismo.
O prato principal da semana seria o encontro entre Lula e Donald Trump. A expectativa da oposição era quase carnavalesca: sonhavam com um vexame internacional, um constrangimento diplomático transmitido em tempo real, uma humilhação histórica para ser transformada em corte de TikTok e figurinha de WhatsApp.
SĂł que a polĂtica adora humilhar quem comemora antes da hora.
Lula voltou dos Estados Unidos maior do que embarcou. O encontro com Trump foi considerado bem-sucedido atĂ© por analistas que nĂŁo orbitam o governo. Houve pragmatismo, conversa institucional e reconhecimento mĂştuo entre dois lĂderes experientes. O desastre esperado pelos bolsonaristas simplesmente nĂŁo aconteceu.
E foi exatamente aà que começou o inferno oposicionista.
Enquanto Lula recuperava oxigĂŞnio polĂtico, a PolĂcia Federal deflagrou nova fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro do STF AndrĂ© Mendonça — justamente um ministro indicado por Jair Bolsonaro. A operação atingiu em cheio o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e um dos principais articuladores da direita brasileira.
As investigações sobre o escândalo do Banco Master apontam suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de influĂŞncia. Segundo a PF, Ciro teria recebido vantagens indevidas do banqueiro Daniel Vorcaro para atuar politicamente em favor dos interesses do banco.Â
O efeito polĂtico foi devastador.
Ciro Nogueira nĂŁo era apenas um aliado eventual do bolsonarismo. Foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, ocupando um dos cargos mais estratĂ©gicos do governo anterior e exercendo papel central na articulação polĂtica do Palácio do Planalto. Era, portanto, peça-chave do bolsonarismo institucional — a ponte entre Bolsonaro, o centrĂŁo e setores do empresariado.
Por isso mesmo, o impacto da operação ultrapassa a figura pessoal de Ciro e atinge diretamente a estratégia eleitoral da oposição para 2026.
Nos bastidores, o senador vinha sendo tratado como o “vice dos sonhos” de Flávio Bolsonaro: nordestino, operador do centrão, interlocutor do mercado e ponte com setores conservadores fora do eixo Sul-Sudeste. Agora, porém, passou da condição de solução eleitoral à condição de problema judicial.
E a polĂtica brasileira conhece bem essa maldição dos vices.
Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, trabalhou inicialmente com um nome para vice e terminou tendo outro completamente diferente na chapa. Vice no Brasil Ă© como casamento em novela das nove: raramente termina com quem parecia Ăłbvio no primeiro capĂtulo. O cargo virou uma espĂ©cie de territĂłrio nacional das reviravoltas.
O caso de Ciro apenas reforça essa tradição.
A direita saiu comemorando vitĂłrias parlamentares e terminou a semana tentando administrar danos polĂticos, jurĂdicos e eleitorais. Lula, que parecia encurralado dias antes, reapareceu no centro do tabuleiro com pose de sobrevivente profissional — o personagem que interpreta melhor do que ninguĂ©m na polĂtica brasileira.
Talvez Dante Alighieri explicasse melhor: na polĂtica, cĂ©u e inferno ficam separados apenas por um lance de escada. E, no Brasil, ela costuma ser escorregadia.
*ZĂ© AmĂ©rico Silva Ă© jornalista e consultor de marketing polĂticoÂ

