Do céu ao inferno: como Lula virou o jogo e a direita entrou em crise

Confira o artigo do jornalista e consultor de marketing político, Zé Américo Silva

Por Zé Américo Silva, ContilNet 08/05/2026 às 10:00

A política brasileira é uma montanha-russa administrada por roteiristas de novela mexicana. Em menos de uma semana, Lula saiu do inferno para o céu, enquanto a oposição bolsonarista fez exatamente o caminho contrário — do céu ao inferno, como numa versão tropical de Dante Alighieri, onde os círculos infernais são substituídos por CPIs, operações da Polícia Federal e trending topics no X.

Tudo começou com o governo Lula levando pancadas no Congresso Nacional. A articulação entre extrema-direita, direita tradicional e centrão impôs derrotas relevantes ao Planalto. O bolsonarismo comemorava como torcida organizada em final de campeonato. Nas redes sociais, já havia gente decretando o início da falência política do lulismo.

O prato principal da semana seria o encontro entre Lula e Donald Trump. A expectativa da oposição era quase carnavalesca: sonhavam com um vexame internacional, um constrangimento diplomático transmitido em tempo real, uma humilhação histórica para ser transformada em corte de TikTok e figurinha de WhatsApp.

SĂł que a polĂ­tica adora humilhar quem comemora antes da hora.

Lula voltou dos Estados Unidos maior do que embarcou. O encontro com Trump foi considerado bem-sucedido até por analistas que não orbitam o governo. Houve pragmatismo, conversa institucional e reconhecimento mútuo entre dois líderes experientes. O desastre esperado pelos bolsonaristas simplesmente não aconteceu.

E foi exatamente aí que começou o inferno oposicionista.

Enquanto Lula recuperava oxigênio político, a Polícia Federal deflagrou nova fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro do STF André Mendonça — justamente um ministro indicado por Jair Bolsonaro. A operação atingiu em cheio o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e um dos principais articuladores da direita brasileira.

As investigações sobre o escândalo do Banco Master apontam suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de influência. Segundo a PF, Ciro teria recebido vantagens indevidas do banqueiro Daniel Vorcaro para atuar politicamente em favor dos interesses do banco. 

O efeito polĂ­tico foi devastador.

Ciro Nogueira não era apenas um aliado eventual do bolsonarismo. Foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, ocupando um dos cargos mais estratégicos do governo anterior e exercendo papel central na articulação política do Palácio do Planalto. Era, portanto, peça-chave do bolsonarismo institucional — a ponte entre Bolsonaro, o centrão e setores do empresariado.

Por isso mesmo, o impacto da operação ultrapassa a figura pessoal de Ciro e atinge diretamente a estratégia eleitoral da oposição para 2026.

Nos bastidores, o senador vinha sendo tratado como o “vice dos sonhos” de Flávio Bolsonaro: nordestino, operador do centrão, interlocutor do mercado e ponte com setores conservadores fora do eixo Sul-Sudeste. Agora, porém, passou da condição de solução eleitoral à condição de problema judicial.

E a política brasileira conhece bem essa maldição dos vices.

Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, trabalhou inicialmente com um nome para vice e terminou tendo outro completamente diferente na chapa. Vice no Brasil é como casamento em novela das nove: raramente termina com quem parecia óbvio no primeiro capítulo. O cargo virou uma espécie de território nacional das reviravoltas.

O caso de Ciro apenas reforça essa tradição.

A direita saiu comemorando vitórias parlamentares e terminou a semana tentando administrar danos políticos, jurídicos e eleitorais. Lula, que parecia encurralado dias antes, reapareceu no centro do tabuleiro com pose de sobrevivente profissional — o personagem que interpreta melhor do que ninguém na política brasileira.

Talvez Dante Alighieri explicasse melhor: na política, céu e inferno ficam separados apenas por um lance de escada. E, no Brasil, ela costuma ser escorregadia.

*Zé Américo Silva é jornalista e consultor de marketing político 

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