Do governador ao gari: engraxate mantém vivo ofício há 32 anos

Engraxates seguem firmes no centro da capital e mantêm viva uma das profissões mais antigas da cidade

Por Wellington Vidal, ContilNet 01/05/2026 às 17:43 Atualizado: há 1 semana

No ritmo das escovas e no cheiro da graxa, uma tradição resiste ao tempo no centro de Rio Branco. Há 32 anos, Antônio Marcos mantém viva a profissão de engraxate no quiosque da capital. Neste 1º de maio, Dia do Trabalhador, a ContilNet conta a história desses profissionais que seguem como símbolo da memória urbana acreana.

A profissão de engraxate é antiga e esteve presente em diversas cidades brasileiras ao longo do século 20, especialmente em centros urbanos em crescimento. Historicamente, o ofício teria surgido em 1806, quando um operário poliu as botas de um general francês em sinal de respeito e foi recompensado por isso.

Em Rio Branco, a atividade ganhou força devido à intensa circulação de trabalhadores no centro, ao uso frequente de sapatos de couro e à oportunidade de renda para jovens e trabalhadores informais.

Tradicionalmente, os engraxates atuavam de forma autônoma, utilizando caixas de madeira e bancos improvisados. Aos 47 anos, Antônio Marcos começou na profissão ainda na infância. O trabalho como engraxate foi seu primeiro emprego, motivado pela necessidade de ajudar a família.

Do governador ao gari: engraxate mantém vivo ofício há 32 anos

Antônio Marcos começou na profissão ainda quando criança para ajudar a família. Foto: Wellington Vidal

“Eu comecei quando criança e fui cada vez mais adquirindo experiência e não quis mais saber de outro segmento”, conta. Segundo ele, a autonomia foi determinante para permanecer na profissão. “Eu nunca gostei de trabalhar pra ninguém, sempre preferi trabalhar para mim mesmo”, afirma.

Para Antônio Marcos, o trabalho vai além da prestação de serviço. “Pra mim representa tudo, é daqui que vem o sustento da minha família”, afirma. Mesmo com as dificuldades, ele acredita que a profissão continua sendo valorizada por quem reconhece a qualidade e a tradição do serviço.

Mudanças ao longo dos anos

Apesar da tradição, o cenário atual é diferente de décadas passadas. Antônio destaca que houve uma queda no movimento, principalmente após a pandemia de Covid-19. “Todo o segmento reduziu, do covid pra cá nunca mais foi a mesma coisa. Muitos clientes acabaram falecendo”, relata.

Ele também observa mudanças no comportamento dos clientes. Antes, as pessoas aguardavam o serviço no local; hoje, é mais comum deixar os sapatos e retornar depois para buscar. 

Em 2012, o quiosque dos engraxates ganhou um espaço revitalizado e com ambiente climatizado. Foto: Wellington Vidal

Em 2012, o quiosque dos engraxates ganhou um espaço revitalizado e com ambiente climatizado. Foto: Wellington Vidal

O engraxate Val Cunha, de 47 anos, que também atua no quiosque, complementa que o movimento ainda é influenciado por instituições próximas. “Com o movimento da Assembleia Legislativa, recebemos deputados, juízes e desembargadores”, explica. Ainda assim, Antônio ressalta que houve redução no número de clientes ligados ao setor público nos últimos anos.

Clientela fiel e relação de confiança

A fidelidade dos clientes é um dos pilares da profissão. O policial militar Jerley Lemos, cliente há mais de 12 anos, destaca a confiança no trabalho dos engraxates.

Atualmente morando em Brasília, ele mantém o vínculo com os profissionais de Rio Branco. “O serviço é tão bem feito que, às vezes, mando os sapatos de Brasília para Rio Branco e eles mandam de volta”, conta.

Segundo ele, a relação vai além do serviço. “Não é só um atendimento, virou amizade. Recomendo com muito carinho”, reforça. Hoje, no quiosque, Antônio e Val utilizam escovas, graxas e hidratantes para couro, com o intuito de fornecer o melhor serviço, que custam a partir de R$ 15, podendo chegar a R$ 30, dependendo do tipo de calçado, especialmente os de couro.

O expediente inicia por volta das 7h e segue até às 17h. “Aqui atendemos do governador ao gari, sem distinção de ninguém”, destaca Antônio. Neste 1º de maio, Antônio deixa uma mensagem aos trabalhadores: “Desejo tudo de bom e que continuem firmes nessa luta, pois não podemos parar”, finaliza.

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