O Morro dos Ventos Uivantes: amor ou obsessão?

Por Redação, ContilNet 13/05/2026 às 08:14

Poucos romances na história da literatura geraram tantas versões cinematográficas quanto Wuthering Heights, o único romance de Emily Brontë, publicado em 1847. E poucas histórias resistiram tão bem às décadas e às mudanças culturais. O morro dos ventos uivantes filme disponível em streaming é a adaptação com Ralph Fiennes e Juliette Binoche, de 1992, uma das versões mais fiel ao espírito da obra original e também uma das mais esteticamente marcantes do gênero.

A história que ninguém consegue largar

O enredo central de O Morro dos Ventos Uivantes é, numa frase, brutal: dois jovens se amam com uma intensidade que o mundo ao redor deles não consegue acomodar, e esse amor os destrói a ambos, e a todos que estão próximos. Heathcliff é um órfão trazido pelo senhor Earnshaw para sua propriedade nos moors de Yorkshire. Catherine Earnshaw, filha da família, desenvolve com ele uma conexão que vai além da amizade ou do romance convencional, é uma fusão de identidades que o restante da vida vai tentar desfazer sem nunca conseguir completamente.

A complexidade da história está no fato de que Brontë nunca apresenta esse amor como algo bom. É obsessivo, egoísta e mutuamente destrutivo. Catherine se casa com outro homem não por falta de amor a Heathcliff, mas por ambição social. Heathcliff desaparece, retorna rico e passa décadas se vingando de todo mundo que teve papel em sua humilhação. O romance que ficou no imaginário popular como “o grande amor impossível” é, na sua leitura mais honesta, a história de dois seres que se arruinaram mutuamente e levaram os outros junto.

A versão de 1992: Ralph Fiennes e Juliette Binoche

A adaptação dirigida por Peter Kosminsky em 1992 tem o mérito de não tentar suavizar o que é sombrio no romance. Fiennes, num de seus primeiros papéis de destaque no cinema, construiu um Heathcliff que é simultaneamente magnético e aterrorizante, exatamente como Brontë escreveu. Não é o herói torturado que o cinema romântico convencional adora; é um personagem que o espectador entende sem necessariamente admirar.

Juliette Binoche traz a Catherine com uma qualidade específica: a de alguém que sabe o que está fazendo e faz mesmo assim. Não é ingenuidade nem loucura, é uma escolha consciente por um caminho que ela mesma reconhece como errado, e Binoche carrega essa consciência em cada cena. O resultado é um dos personagens femininos mais moralmente complexos das adaptações de época britânicas.

A fotografia do filme é um dos seus pontos mais consistentes. Os moors de Yorkshire, extensões abertas, ventos constantes, céus pesados, funcionam como extensão visual do estado emocional dos personagens. A paisagem não é decoração; é participante ativa da história.

Por que é tão difícil adaptar Brontë

O desafio específico de adaptar O Morro dos Ventos Uivantes para o cinema é estrutural. O romance usa uma estrutura de narrativas encaixadas, um personagem conta a história para outro, que a registra para o leitor, que cria uma distância temporal deliberada entre os eventos e quem os narra. Essa distância é parte do significado da obra: estamos ouvindo uma história de amor devastador filtrada por décadas e por múltiplas perspectivas que a colorem de formas diferentes.

O cinema, por natureza, tende a eliminar essa distância e apresentar os eventos diretamente. Isso cria uma intensidade imediata que a obra beneficia em alguns aspectos, mas perde a ironia e a ambiguidade que a estrutura narrativa original mantinha. Toda adaptação cinematográfica de Brontë, em algum grau, romantiza o que o romance deliberadamente complicava.

A versão de 1992 resolve isso parcialmente ao manter o tom sombrio e recusar o final reconfortante. O amor entre Heathcliff e Catherine não redime nada nem ninguém, e o filme tem a honestidade de não fingir que sim.

O contexto histórico: Yorkshire no século XVIII

A história se passa nos moors de Yorkshire no final do século XVIII, num contexto social muito específico. A posição social era praticamente imutável por nascimento, e a chegada de um órfão de origem desconhecida numa família estabelecida já criava uma ambiguidade de status que o resto da narrativa vai explorar até as últimas consequências.

Heathcliff é humilhado não apenas pelo irmão adotivo de Catherine, mas pela estrutura social inteira que o trata como inferior independente do que faça. Quando retorna rico, sua vingança não é apenas pessoal, é contra um sistema que o classificou antes de ele poder provar quem era. Esse dimensão de classe social é frequentemente perdida nas adaptações mais romanceadas, mas está no centro do que Brontë estava escrevendo.

Uma história que sempre volta

Em 2026, uma nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes chegou aos cinemas, dirigida por Emerald Fennell e estrelada por Margot Robbie e Jacob Elordi, confirmando que essa história não para de atrair novas interpretações. Cada geração parece precisar da sua própria versão, o que diz algo sobre a universalidade das questões que o romance levanta.

A versão de 1992 com Ralph Fiennes permanece como uma das mais rigorosas e menos condescendentes, aquela que mais se recusa a transformar tragédia em romance. Para quem quer encontrar O Morro dos Ventos Uivantes no formato que respeita a intenção de Brontë, é o ponto de partida mais honesto disponível.

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