Policiais militares de grupo de elite em Goiás gravaram um vĂdeo durante um treinamento em que cantam uma mĂşsica que faz apologia Ă execução de “bandidos” e incentiva a “caça” de testemunhas.

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“Matar o bandido, acende uma vela, bota ele na mala, eu vou pra estrada velha. Eu tenho uma notĂcia e um corpo baleado. E a testemunha, aponta o caçador, eu quero a testemunha na sexta-feira Ă tarde. Eu tĂ´ de viatura, caçando esse covarde. Se eu pego, atiro sem dĂł nem compaixĂŁo. Minha emoção Ă© zero, o verdadeiro inferno”, diz trecho da canção, cantada no estilo jogral.
Veja o vĂdeo:
⏯️PMs de Goiás defendem execução de testemunhas: “Atiro sem dó”
Em treinamento, PMs de batalhão de elite fazem apologia a assassinato: “Se eu pego, atiro sem dó nem compaixão”. A PMGO não se manifestou
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— Metrópoles (@Metropoles) June 21, 2024
O treinamento em questĂŁo Ă© do Comando de Operações de Divisas (COD), batalhĂŁo especial da PM de Goiás envolvido em diversas polĂŞmicas desde que passou a ser comandado pelo tenente-coronel Edson Melo, tambĂ©m conhecido como Edson Raiado. O vĂdeo Ă© da Ă©poca em que ele era comandante.
Edson Ă© o oficial que declara ter matado o bandido Lázaro Barbosa em 2021, no Entorno de BrasĂlia, e que recentemente voltou a aparecer na imprensa como segurança particular do prĂ©-candidato Ă Prefeitura de SĂŁo Paulo Pablo Marçal (PRTB).
Além disso, Edson é ex-chefe de segurança do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil).
Procurada pelo MetrĂłpoles, a PolĂcia Militar de Goiás nĂŁo se manifestou a respeito do caso. O vĂdeo em questĂŁo, inclusive, foi repassado Ă corporação. O espaço segue aberto.
Afastamento apĂłs ilegalidade
Em abril deste ano, o tenente-coronel Edson foi afastado, e o comando do COD acabou trocado depois que um vĂdeo revelou possĂvel confronto forjado que terminou com duas mortes durante uma ocorrĂŞncia em Goiânia. ApĂłs o episĂłdio, o oficial se tornou segurança de Pablo Marçal (conforme informado anteriormente).
Um policial do COD foi filmado pedindo para o motorista de um carro abordado colocar a mão na cabeça e, em seguida, atirando contra o homem rendido. A ocorrência aconteceu no dia 1º de abril.
A gravação mostra ainda o PM tirando uma arma de dentro de uma sacola e disparando. Essa mesma arma teria sido apresentada como se fosse dos baleados pela PolĂcia Militar na ocorrĂŞncia.
Crise interna
Logo apĂłs a saĂda de Edson, vários comandos dentro da PM de Goiás foram trocados. A instituição vive uma crise interna, principalmente depois da investigação da PolĂcia Civil que revelou a participação de vários policiais militares no assassinato do ex-coordenador do antigo DEM em Anápolis Fábio Alves Escobar Cavalcante.
Ele foi executado em uma emboscada, em 2021, mas as investigações sĂł foram concluĂdas no ano passado. Segundo o inquĂ©rito da PolĂcia Civil, Escobar foi morto por causa de denĂşncias que fazia sobre um esquema de corrupção no partido em Anápolis. Outras sete pessoas morreram nos dias seguintes, como queima de arquivo, segundo a denĂşncia do MinistĂ©rio PĂşblico.
De acordo com a apuração, o crime foi encomendado pelo ex-presidente do DEM na cidade Cacai Toledo, preso no começo do mês. Ainda segundo o inquérito, Cacai teria contado com a ajuda de Jorge Caiado, primo do governador de Ronaldo Caiado, para conseguir contratar os policiais assassinos. Dez PMs foram presos por suspeita de envolvimento no crime (alguns dele já foram soltos).
Durante as diligências, dois oficiais que já fizeram parte do alto escalão da PM de Goiás revelaram em depoimentos que foram abordados por Cacai com a sugestão de cometer o assassinato de Escobar, mas teriam negado a empreitada.
