Apoiadores de Evo Morales ocupam quartel e mantĂȘm 20 militares como refĂ©ns na BolĂ­via

Onda de protestos tomou o paĂ­s hĂĄ 19 dias, com bloqueio de estradas importantes em defesa do ex-presidente, investigado pelo abuso sexual de uma menor de idade

Por O Globo 01/11/2024 Ă s 16:58

Apoiadores do ex-presidente boliviano Evo Morales ocuparam um quartel e fizeram 20 militares de refĂ©ns em Chapare, no departamento (estado) de Cochabamba, na BolĂ­via. A informação foi anunciada em comunicado pelas Forças Armadas, destacando que armas e muniçÔes tambĂ©m foram tomadas por “grupos armados irregulares”. Em um vĂ­deo divulgado pela imprensa boliviana, 16 soldados podem ser vistos cercados por camponeses que empunham paus com pontas afiadas.

PolĂ­cia retira bloqueio de estrada feito por manifestantes que apoiam o ex-presidente Evo Morales, apĂłs um confronto em Cochabamba

Polícia retira bloqueio de estrada feito por manifestantes que apoiam o ex-presidente Evo Morales, após um confronto em Cochabamba — Foto: FERNANDO CARTAGENA / AFP

“Lembramos que qualquer pessoa que pegue em armas contra a pĂĄtria Ă© considerada traição e levante armado contra a segurança e a soberania do Estado”, afirma o comunicado emitido pelo Alto Comando, destacando que o pessoal mantido como refĂ©m “sĂŁo filhos do povo cumprindo seu dever sagrado com a pĂĄtria”.

A ação acontece em meio Ă  instabilidade polĂ­tica no paĂ­s, que hĂĄ 19 dias vĂȘ uma onda de protestos maciços e bloqueio de estradas em resposta Ă  suposta “perseguição judicial” contra Evo, que foi de aliado a inimigo do presidente Luis Arce no ano passado.

Horas antes, vídeos que circularam na imprensa local e nas redes sociais mostraram cerca de 2 mil manifestantes invadindo o quartel militar do Regimento “Cacique Juan Maraza”, perto de Tipnis, como são conhecidos os territórios indígenas do Chapare, no departamento de Cochabamba, onde Evo Morales tem sua maior base política.

— O Regimento Cacique Maraza foi tomado pelas centrais de Tipnis. Eles [apoiadores de Evo] cortaram nossa ĂĄgua, nossa eletricidade e nos tomaram como refĂ©ns — disse Ă  AFP um militar, sob condição de anonimato.

Estilingues como armas

Cochabamba, localizado no centro do paĂ­s e com conexĂŁo Ă  capital La Paz, se tornou o epicentro dos protestos que tomaram a BolĂ­via e fecharam 20 estradas do paĂ­s nas Ășltimas semanas. Camponeses, indĂ­genas e mineiros, em apoio a Evo, bloquearam quilĂŽmetros de estrada com pedras, troncos e fogueiras e dizem que estĂŁo preparados para uma “resistĂȘncia” de semanas e atĂ© meses para defender o ex-presidente, investigado pelo suposto abuso de uma menor de idade durante seu mandato (2006-2019), acusação que ele nega.

Muitos manifestante usam estilingues — ou huaracas, como sĂŁo conhecidos em quĂ­chua, idioma indĂ­gena local — para atirar pedras nas forças de segurança. Desde o inĂ­cio dos protestos, 61 policiais e nove civis foram feridos em confrontos, vĂĄrios com lesĂ”es cerebrais traumĂĄticas, de acordo com informaçÔes oficiais.

— Essa Ă© nossa arma secreta (…), herança de nossos avĂłs — disse Carlos Flores, um agrĂŽnomo de 45 anos, Ă  AFP, afirmando que entre os manifestantes hĂĄ jovens camponeses “especializados” nessa prĂĄtica. — Se ele [Arce] trouxer seus militares, estamos prontos para lutar. Vamos continuar atĂ© que ele renuncie.

Apoiadores do ex-presidente Evo Morales protestam na Bolívia — Foto: AFP
Apoiadores do ex-presidente Evo Morales protestam na Bolívia — Foto: AFP

Contexto polĂ­tico

Embora os protestos tenham começado em defesa de Evo, agora os manifestantes tambĂ©m estĂŁo exigindo a renĂșncia do presidente Luis Arce, que nĂŁo encontrou uma saĂ­da para a crise econĂŽmica decorrente da escassez de moeda estrangeira. Na quarta-feira, Arce exigiu “o levantamento de todos os pontos de bloqueio”, ameaçando exercer “seus poderes constitucionais” para expulsar o grupo.

Arce foi ministro da Economia durante o governo de Evo e seu indicado para a presidĂȘncia na primeira eleição apĂłs o golpe de Estado de 2019, em que o ex-presidente foi pressionado pelas Forças Armadas a renunciar e a senadora Jeanine Áñez ascendeu ao poder. A aliança entre os dois seguiu por um tempo, mas as ambiçÔes de Evo de disputar a prĂłxima eleição presidencial, em 2025, levaram a um racha no Movimento ao Socialismo (Mas), que culminou na expulsĂŁo de Arce da sigla.

O tensionamento ganhou novos contornos depois que o MinistĂ©rio PĂșblico pediu a prisĂŁo de Evo Morales no Ăąmbito de uma investigação sobre o suposto abuso de uma menor de idade em 2015, quando era presidente. O ex-presidente classificou a acusação como “mais uma mentira” orquestrada pelo governo de Arce para tirĂĄ-lo da disputa presidencial, jĂĄ que o caso foi encerrado em 2020.

No domingo, Evo divulgou um vídeo nas redes sociais relatando ter sido alvo de um ataque a tiros durante uma tentativa de prisão. Nas imagens, Morales aparece ao lado do motorista e, pelo telefone, declara: “Estão atirando em nós, estão nos detendo; rapidamente, mobilizem-se”. O vídeo mostra marcas de tiros no veículo e o motorista ferido, com sangue na cabeça e no peito. Segundo a Rádio Kawsachun Coca, 14 tiros foram disparados. Após o incidente, o ex-mandatário, líder dos cocaleiros, exigiu a demissão dos ministros de Governo e de Defesa e relatou o episódio à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

O governo da BolĂ­via reagiu acusando Evo de armar um “teatro” com o seu suposto atentado, afirmando que os tiros disparados contra o seu carro foram feitos apĂłs ele tentar furar um posto de controle da polĂ­cia.

ViolĂȘncia nas ruas

Nas colinas rochosas que cercam a ponte Parotani, bloqueada por manifestantes, dezenas de sentinelas observam o horizonte para alertar sobre qualquer movimento. O objetivo da polícia é liberar a ponte para permitir o trùnsito de veículos pesados que fornecem alimentos e combustível para Cochabamba, onde a paralisação tem provocado o aumento dos preços para consumidores e comerciantes.

Durante a espera, a pastora Nicolasa SĂĄnchez, 59 anos, que fala quĂ­chua, enrola fios de lĂŁ de ovelha entre os dedos dos pĂ©s descalços e trança novas huaracas. Ela faz cerca de trĂȘs por dia. Quase todos os manifestantes tĂȘm uma. Eles giram os estilingues como hĂ©lices enquanto marcham sobre a estrada bloqueada.

— Nossas huaracas podem ser milhares. Nossa pedra nunca vai se esgotar — diz Juanita Ancieta, líder da Central de Mujeres Campesinas Bartolina Sisa.

HĂĄ uma semana, em Parotani, um policial quase perdeu o pĂ©. O presidente Arce afirmou que ele foi atacado com dinamite. De tempos em tempos, explosĂ”es estrondosas sĂŁo ouvidas na ĂĄrea. Mas os lĂ­deres afirmam que nĂŁo tĂȘm explosivos.

— Pedimos Ă s Forças Armadas e Ă  polĂ­cia que nĂŁo ataquem seu povo (…) que nĂŁo manchem suas mĂŁos com nosso sangue — diz Mariluz Ventura, representante de um sindicato de camponeses indĂ­genas.

Uma cidadela surge ao redor da ponte Parotani enquanto ela segue fechada. Surgiram pequenas lojas vendendo roupas, acessĂłrios para celulares e atĂ© vinagre para combater os efeitos do gĂĄs lacrimogĂȘneo. Do outro lado da ponte, com paus e lonas de plĂĄstico, foi montado um acampamento com manifestantes de outros lugares.

— Este Ă© o quartel-general. Cochabamba Ă© o coração de toda a BolĂ­via, por isso este Ă© o local do maior bloqueio nacional — diz Constancio Vallejos, um agricultor de 37 anos que veio do TrĂłpico de Cochabamba com uma delegação de jovens agricultores.

Humberto Alegre, 31 anos, dirige uma das vårias organizaçÔes que levam alimentos aos manifestantes. Ele diz que só ele entrega cerca de 500 raçÔes por dia. A cidade estå sem eletricidade hå quatro dias, reclamam os manifestantes. Sem bombas motorizadas, eles sobrevivem com a ågua do rio.

— NĂłs vamos resistir. Essa Ă© a luta que começamos. Iremos atĂ© o fim — diz Flores, segurando sua huaraca nas mĂŁos.

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