Filmes que pretendam arrastar espectadores â cada vez mais arredios â Ă s salas de cinema precisam alimentar a percepção de que oferecem uma experiĂȘncia cinematogrĂĄfica que sĂł funcionarĂĄ plenamente na tela grande, na sala escura e na companhia de outras pessoas. Desde que a pandemia habituou o pĂșblico a desfrutar comodamente da oferta infindĂĄvel de longas-metragens e sĂ©ries nas plataformas de streaming, o desafio envolve, em primeiro lugar, realizar algo que fuja da padronização e da mediocridade reinantes. Depois, Ă© preciso criar na mĂdia e nas redes sociais uma narrativa que leve um nicho de pĂșblico a pensar: âpreciso ver issoâ.
Ao cumprir muito bem as duas tarefas, Emilia PĂ©rez, prĂ©-indicado na categoria Filme Internacional do Oscar 2025 – ao lado de Ainda Estou Aqui –, pavimentou o terreno para se tornar um dos ĂȘxitos da temporada. Ă um filme exuberante, que decidiu correr riscos imensos sabendo que poderia facilmente naufragar na tentativa de combinar elementos dĂspares. Sabia tambĂ©m, pelo vespeiro dos seus temas, que teria potencial para incomodar muita gente. Mas, como a estreia no Festival de Cannes deste ano â em que recebeu o PrĂ©mio do JĂșri, o de melhor interpretação feminina (atribuĂdo Ă s quatro atrizes principais) e o de melhor trilha musical â jĂĄ havia demonstrado, a aposta na ousadia revelou-se muito bem-sucedida.

NĂŁo Ă© a primeira vez que o diretor francĂȘs Jacques Audiard caminha sobre essa linha tĂȘnue â a do assunto sensĂvel e polĂȘmico abordado de modo realista e multicultural â e consegue equilibrar-se. Um Profeta (2009), que lhe valeu indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro e o Grande PrĂȘmio do JĂșri em Cannes, Ă© um moderno e violento filme de gĂąngster sobre o aprendizado de um jovem ĂĄrabe no mundo do crime. Ferrugem e Osso (2013) tira o glamour de Marion Cotillard em uma dolorosa histĂłria de amor. Dheepan (2015), Palma de Ouro em Cannes, traz um guerreiro do Sri Lanka em perigosa jornada de ressurreição em Paris.
A pauta explosiva de Emilia PĂ©rez inclui traficantes de drogas, cirurgias de redesignação sexual, vĂtimas de assassinatos, sociedade patriarcal e protagonismo feminino. NĂŁo Ă© ambientado na França em que vive Audiard ou em qualquer outro paĂs europeu, mas no MĂ©xico â o filme Ă© falado quase todo em espanhol. NĂŁo se apresenta como um drama clĂĄssico, mas como um musical que escapa Ă s convençÔes do gĂȘnero. Apesar dos temas delicados que conecta na trama, recorre muitas vezes ao humor, sem receio de brincar com clichĂȘs, na expectativa de que o espectador embarque sorrindo nessa catĂĄrtica jornada de cinema.
Elogios iniciais cabem a todos os envolvidos no roteiro. O argumento vem de um romance francĂȘs publicado em 2018, Ăcoute (Ouvir, em tradução livre), do jornalista francĂȘs Boris Razon. Ambientado em Paris, num universo de ultraconectividade digital em que todos sĂŁo vigiados, o livro tem como protagonista um traficante que decide transformar-se fisicamente em seu primeiro amor, uma jovem morta brutalmente por uma gangue rival. O advogado a quem recorre para ajudĂĄ-lo na tarefa decide isolar-se, em tentativa de compreender o alcance psicolĂłgico do que o perigoso cliente lhe pede, e dedica-se Ă leitura da obra completa do poeta portuguĂȘs Fernando Pessoa.

NĂŁo seria surpreendente se o espanhol Pedro AlmodĂłvar, por exemplo, resolvesse adaptar Ăcoute sem alterar muito as linhas gerais do romance â Ă© uma praia semelhante, afinal, Ă de A Pele que Habito (2011). JĂĄ Audiard, com auxĂlio dos roteiristas Thomas Bidegain (que trabalhou com o diretor em Um Profeta e Ferrugem e Osso, alĂ©m de ter escrito A FamĂlia BĂ©lier, que deu origem ao vencedor do Oscar No Ritmo do Coração) e LĂ©a Mysius (parceira do diretor e de Bidegain no roteiro de Paris, 13Âș Distrito), resolveu transportar â melhor seria âtranscriarâ, neologismo mais adequado Ă situação â as coordenadas da histĂłria para uma circunstĂąncia sociopolĂtica do seu interesse.
Em EmĂlia Perez, a ação começa na Cidade do MĂ©xico, onde uma jovem advogada (Zoe Saldaña) estĂĄ incomodada por ganhar dinheiro livrando milionĂĄrios da cadeia. Ela sente que vendeu a alma ao diabo, sensação redobrada quando um traficante de drogas (Karla Sofia GascĂłn) a contrata sigilosamente para cuidar dos detalhes de uma cirurgia de redesignação sexual. Começa entĂŁo a montanha-russa dramĂĄtica que farĂĄ a histĂłria circular por outros paĂses, com mais duas personagens que ajudam a transformar o filme em diagnĂłstico do mundo doente que os homens governam, e do poder feminino de resistĂȘncia e transformação: a mulher do traficante (Selena Gomez) e uma vĂtima de violĂȘncia domĂ©stica (Adriana Paz).
Desde o inĂcio da histĂłria, diversas mĂșsicas â compostas por Camille e por ClĂ©ment Ducol â atravessam a cena. Ăs vezes, um diĂĄlogo se transforma em canção, e a canção retorna quase imperceptivelmente Ă forma de diĂĄlogo. Em outras ocasiĂ”es, dezenas de figurantes se juntam aos protagonistas â a carismĂĄtica personagem de Saldaña Ă© a mais presente nesses momentos â em nĂșmeros coreogrĂĄficos que provocam estranheza (e fascĂnio). HaverĂĄ quem os considere inadequados Ă situação, como se o gĂȘnero musical servisse para outros fins, mais leves e ligeiros, mas o que estĂĄ em jogo tambĂ©m Ă© a prĂłpria tradição do musical. O recurso lembra um pouco o aspecto incĂŽmodo e perturbador que o dinamarquĂȘs Lars von Trier propĂ”e em Dançando no Escuro (2000) â um musical (ou antimusical?) sobre uma operĂĄria (Bjork) que perde gradativamente a visĂŁo e sofre, sofre, sofre.
Emilia PĂ©rez é cinema que celebra o prazer narrativo, a gratificante recompensa do ingrediente surpresa para o andamento da trama, a piscadela de olhos para o espectador, a quem parece que o filme estĂĄ conversando o tempo todo com a plateia. Ao mesmo tempo, como fazem Um Profeta e Deephan, Ă© cinema que aspira se conectar com o debate social, incorporando temas da agenda polĂtica e comportamental do nosso tempo a uma estĂ©tica que Ă© tambĂ©m do nosso tempo. Fala de transformação, e portanto convida o espectador a contemplar-se no espelho. NĂŁo Ă© pouco, hoje, ainda que se possa desgostar do resultado â o que sempre fez parte da experiĂȘncia do cinema.
Quando estreia Emilia Pérez no Brasil?
Emilia Pérez estreia em 6 de fevereiro de 2025 no Brasil.
Quando serĂĄ o Oscar 2025?
A cerimÎnia estå marcada para 2 de março.


