Francisco Araújo, advogado e jornalista acreano radicado em Brasília, é graduado em Direito pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e em Teologia pelo Curso Superior de Teologia (CST) da Arquidiocese de Brasília. Atua no jornalismo há mais de 30 anos e acaba de publicar um livro intitulado “Quando vivi entre os ratos”.

O livro retrata as experiências vividas pelo jornalista em Brasília/Foto: Cedida
Como o jornalista foi assessor de diversos políticos locais e também de projeção nacional, o título do livro pode parecer uma alusão a seus antigos chefes. No entanto, o autor faz questão de esclarecer que a obra “não aborda a ninguém em especial, a não ser ele próprio”.
É o que ele revela na entrevista a seguir, em que compartilha sua trajetória como jornalista no Acre e em Brasília. Abaixo, os principais trechos:
Você nasceu no seringal, tornou-se jornalista e, nesta condição, foi assessor de vários políticos do Acre. Eles seriam os ratos descritos no seu livro? Por quê?
Chico Araújo: Minha origem é uma colocação em um seringal da então Vila Jordão, hoje município. Ainda pequeno, meus pais se mudaram para a sede da vila, onde começou meu aprendizado de vida. Foi por meio de Maria do Céu Freire Vianna Melo, minha professora de português, que me interessei pelos livros. Quando aprendi a ler, ela sempre partilhava comigo os livros de seus filhos. Ficava encantado com as narrativas. Esse, talvez, tenha sido o pilar para ingressar no jornalismo.
Foi somente em Tarauacá, enquanto estudava no Instituto São José, que mergulhei no mundo da leitura. Conheci a professora Jaciva Dourado (mãe do juiz Giordane Dourado) e criei, no colégio, um jornal impresso em mimeógrafo (quem não se lembra daquele instrumento que lambuzava nossas mãos?). A vasta biblioteca foi um porto seguro. Lá tive contato com clássicos da literatura brasileira e universal. A leitura de Os Sertões, de Euclides da Cunha, despertou em mim o desejo de ser contador de histórias, um jornalista.
Minha jornada no jornalismo, no entanto, foi uma aventura que descrevo em “Quando vivi entre os ratos”.

O jornalista nasceu e cresceu no interior do estado do Acre/Foto: Cedida
O livro é uma autobiografia?
Chico Araújo: Sim, é uma autobiografia, um resgate da minha história e das situações que vivi. O título não faz referência a políticos, mas a uma fase crítica que enfrentei em Brasília. O livro é, antes de tudo, uma história pessoal, com o propósito de inspirar as pessoas a nunca desistirem de seus sonhos, apesar dos desafios enfrentados ao longo do caminho.
Como jornalista, quais foram os melhores e os piores momentos que você viveu na profissão?
Chico Araújo: A vida de jornalista é uma verdadeira gangorra, com momentos de glamour, situações inusitadas e muitos riscos, assim como acontece na advocacia.
Os piores momentos foram no início, quando me mudei de Tarauacá para Rio Branco. Trabalhei na Folha do Acre, a convite de Tancremildo Maia e Mario Cézar. Tudo ia bem, até que as oficinas do jornal foram alvo de um atentado com bomba. A partir disso, vivi um pesadelo. Depois, fui para o Diário do Acre, onde cheguei a dormir sobre os papéis da oficina. Na época em que era correspondente de O Estado de S. Paulo, as ameaças eram constantes, algumas se concretizando.
Os melhores momentos foram em A Gazeta, onde comecei como repórter e cheguei ao cargo de editor-chefe. Além de escrever histórias humanas, testemunhei momentos turbulentos da política acreana nos governos Romildo Magalhães e Orleir Cameli. Aprendi muito nesse período.
Quais coberturas marcaram sua carreira?
Chico Araújo: Participei da cobertura do julgamento do assassino de Chico Mendes pela Folha de S. Paulo, além de bastidores marcantes, como o escândalo do Canal da Maternidade e a violência que assolava o Acre nos anos 1990.
Como correspondente de O Estado de S. Paulo, fiz minha primeira matéria sobre um suposto caso de estupro envolvendo o senador Aluísio Bezerra, o Carcará. Já em Brasília, cobri CPIs e acompanhei os bastidores do Congresso e do Executivo. Uma das experiências mais marcantes foi entrevistar o presidente Fernando Henrique Cardoso na antevéspera de sua visita ao Acre. Ele pediu que gravássemos sua posição sobre os movimentos sociais, e a matéria foi destaque na primeira página do Estadão no dia seguinte.
Outra realização foi participar da criação do curso de Jornalismo da UFAC e presidir o Sindicato dos Jornalistas do Acre.

Ele enfatiza no entanto que os relatos não são sobre situações vividas com antigos chefes/Foto: Cedida
Você se formou em Direito e quase largou o jornalismo. Por quê?
Chico Araújo: O ingresso no Direito veio da necessidade. Durante os anos 2000, assessorei ministros e desenvolvi uma agência de notícias sobre a Amazônia. Um processo judicial me levou a procurar o advogado Pedro Paulo Castelo Branco, que sugeriu que eu cursasse Direito. Desde 2018, exerço a advocacia, mas nunca larguei o jornalismo.
O jornalismo não está em extinção. Ele se remodelou com a tecnologia, como mostra o exemplo da ContilNet.
Você guarda mágoas dos políticos que assessorou?
Chico Araújo: Não. Aprendi com Maquiavel que guardar mágoas é desperdício de energia. Sigo os princípios do Estoicismo: concentro-me no que está sob meu controle.
O que diria aos jornalistas iniciantes?
Chico Araújo: Sejam éticos e verdadeiros. Sempre ouçam os dois lados antes de publicar. Essa é a regra de ouro.
Por que escolheu o título do livro?
Chico Araújo: O título foi inspirado por um momento difícil que vivi em Brasília. Para entender melhor, recomendo a leitura da obra (risos).
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