Na semana em que o Acre foi notícia nacional e internacional como parte da Amazônia em que foram avistados e fotografados pássaros raros e alguns considerados até extintos, pesquisas científicas revelaram que aves da mesma região amazônica estão encolhendo e diminuindo de tamanho para se adaptarem ao colapso do clima.

Pesquisas mostram que mudanças climáticas vêm afetando o tamanho de pássaros. Foto: Reprodução
De acordo com as pesquisas, pelo menos 77 espécies apresentam mudanças em seus corpos, como resultado do aquecimento global provocado por ação humana, mudança de tamanho e provavelmente no comportamento dos pássaros e outros seres vivos também ameaça silenciar a maior floresta tropical do planeta.
Em um dos estudos mais importantes do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), publicado em 2021 na revista científica Science Advances, o biólogo checo Vitek Jirinec e seus colegas analisaram o maior conjunto de dados até o momento sobre as aves da Amazônia, representando 77 espécies não migratórias, de 1979 a 2019.
Os pesquisadores se debruçaram sobre 40 anos de informações acerca da massa corporal de quase 15 mil pássaros e o comprimento das asas de mais de 11 mil, todos capturados e depois soltos em uma região distante uns 70 quilômetros ao norte de Manaus (AM). O estudo mostrou que todas as espécies tiveram sua estrutura corporal alterada ao longo desse período, com o peso reduzido e, em muitos casos, asas que foram ficando mais longas. As análises revelaram uma redução de 5,4% a 10,5% no peso e um aumento de 6,3% a 12,2% no comprimento das asas.
Em um dos estudos mais importantes do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), publicado em 2021 na revista científica Science Advances, o biólogo checo Vitek Jirinec e seus colegas analisaram o maior conjunto de dados até o momento sobre as aves da Amazônia, representando 77 espécies não migratórias, de 1979 a 2019.
Os pesquisadores se debruçaram sobre 40 anos de informações acerca da massa corporal de quase 15 mil pássaros e o comprimento das asas de mais de 11 mil, todos capturados e depois soltos em uma região distante uns 70 quilômetros ao norte de Manaus. O estudo mostrou que todas as espécies tiveram sua estrutura corporal alterada ao longo desse período, com o peso reduzido e, em muitos casos, asas que foram ficando mais longas. As análises revelaram uma redução de 5,4% a 10,5% no peso e um aumento de 6,3% a 12,2% no comprimento das asas.

Espécies mais atingidas são as de aves nativas da região amazônica, como o já diminuto e solitário Arapaçu-bico-de-cunha. Foto: Reprodução
Na região da coleta dos dados, desde 1966 a temperatura se elevou pelo menos 1 grau Celsius durante a estação chuvosa e até 1,65 grau Celsius na estação seca. Quanto à chuva, houve um aumento de 13% na estação das cheias e 15% de redução durante a estiagem. Para os Arapaçus-bico-de-cunha, uma das espécies pesquisadas, esse aquecimento representou, de 1980 a 2019, uma diminuição de 0,38 grama em média no peso e um acréscimo de 1,45 milímetro no tamanho das asas.
“É como se a gente pudesse medir o aquecimento global no corpo de um passarinho. A diferença pode parecer pequena, mas essas aves são organismos perfeitamente ajustados ao seu ambiente, então essas mudanças tão rápidas e significativas impõem um risco às espécies”, alerta o cientista Vitek Jirinec, pesquisador membro do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), sediado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus.
Há mais de 40 anos, a iniciativa monitora dezenas de espécies de aves em uma mesma área de 43 quilômetros de floresta conservada, no interior da Amazônia. O projeto foi iniciado em 1979 com a participação do renomado ambientalista Thomas Lovejoy e vem mostrando o impacto das mudanças climáticas no corpo e na vida desses animais, indicando um futuro nada otimista para os pequenos voadores.
Há uma força externa, invisível e incompreensível aos olhos desses seres, que invade o corpo deles e pode estar deixando marcas definitivas em seus genes. Uma força mais rápida e intensa do que aquela que vinha moldando-os lenta e suavemente ao longo do tempo. Logo, é possível que essa nova força altere também a melodia de seus cantos, desorientando-os. Por fim, poderá fazer com que desapareçam, um a um.
Sem que tenham a chance de se defender. Essa força se chama colapso climático. E ela é provocada por uma minoria de humanos, super-ricos acionistas das grandes corporações transnacionais, elites extrativistas locais, Parlamentos e governos que lhes servem, alertam os cientistas.
A mudança já é visível em relação a aves como o solitário Arapaçu-bico-de-cunha, que já vive em um fragmento desse futuro sombrio. Naquela região de mata primária, longe da civilização, distante uns 70 quilômetros ao norte de Manaus, os Arapaçus e os Ipecuás não vivem sós. São pássaros de bando misto – grupos de aves de diferentes espécies que se reúnem já nas primeiras horas da manhã, formando um corredor único de vida que colore e reveste a paisagem verde da mata. Adotaram esse comportamento em comunidade para se proteger dos predadores e para ajudar uns aos outros a encontrar comida.
Assim que o bando todo desperta, ainda no lusco-fusco do amanhecer, começa a primeira revoada em busca do café da manhã. Percorrem juntos alguns quilômetros, olhos atentos e bicos afinados. Quem avista perigo entoa um som de alerta. Quem encontra alimento cantarola que chegou a hora de se refestelar. No cardápio estão os mais variados insetos, como Besouros e Moscas. Formigas e Cupins são os preferidos dos Arapaçus. Por horas, eles seguem uma rotina que é parte sinfonia, parte coreografia.
O aquecimento da floresta também afeta as populações de insetos, como os cupins, que estão entre os alimentos preferidos do Arapaçu-bico-de-cunha. Essa dança só é interrompida nos períodos mais quentes do dia, quando o sol consegue penetrar de forma intensa na floresta e o calor se torna insuportável.
É então que todos procuram abrigo nas áreas mais baixas da mata. Se acomodam em galhos e repousam nos igarapés, silenciando ao som dos corredores de água. É como se toda a floresta descansasse junto, suspendendo-se até o sol baixar. No final do dia, voltam à ativa, guiando uns aos outros pela multimelódica sinfonia dos cantos em busca de comida fresca.
Tem sido assim desde sempre por lá e por várias outras regiões da Amazônia. Os Arapaçus e seus companheiros compartilham a sabedoria milenar de uma existência em harmonia com seu território e com seus companheiros. Há pelo menos quatro décadas, porém, eles vêm compartilhando algo mais. Seus corpos estão encolhendo. Mudando, pressionados pelo clima mutante que consegue adentrar até mesmo as áreas da floresta mais intocadas pelos não Indígenas.
Em um intervalo de 39 anos, o Arapaçu-bico-de-cunha ficou mais leve e suas asas aumentaram, mais um efeito da crise climática. Ali, naquele manto verde floresta adentro, pássaros de bando misto têm vivido a angústia de uma existência incerta, imersos em um clima instável. Eles temem o futuro. Futuro esse que já chegou para o pequeno Glypho, um Arapaçu que vive no centro de Manaus. É de lá, onde a pressão dos humanos não Indígenas sobre a Floresta é ainda maior, que esse pequeno voador tenta entoar aos companheiros distantes sobre o silêncio que a solidão de um mundo cada vez mais quente impõe.
